Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista/RJ.

Comunidade Capim, Lagoa da Canoa-AL. 14 de janeiro – 2018. Início da Quaresma e da Campanha da Fraternidade.

... “Agora, diz o Senhor, voltai para mim com o todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes, e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, PACIENTE E CHEIO DE MISERICÓRDIA, inclinando a perdoar o castigo”. Esta passagem da Profecia de Joel (2, 12-13), retrata toda a espiritualidade da celebração de MAIS UMA quarta-feira de cinzas. “Deus é paciente e cheio de misericórdia”. Sem dúvida, todos os anos celebramos a paciência e a misericórdia do nosso bom Deus. Ele, na sua infinita bondade, espera a cada segundo, a cada minuto e a cada hora pela nossa conversão.

Quando falamos em conversão, geralmente ligamos a igreja; rezas, devoções, doutrinas, etc. Mas às vezes estamos na igreja- conventos, seminários, comunidades de vida, grupos, pastorais-seguimos as doutrinas da nossa fé e somos verdadeiros animais. Portanto, na essência da palavra, conversão no sentido quaresmal,  significa amorosidade, bondade, compaixão, tolerância e amor a vida e ao nosso próximo mais próximo. Aqui não falo de amor de livros ou de mandamentos, mas de AMOR ÁGAPE.

Neste período, a CNBB- Conferência Nacional dos do Brasil, MAIS UMA VEZ trás uma campanha da Fraternidade, que aliás, volta a tona mais um tema social. Dessa vez sobre a violência, com tema: Fraternidade e a superação da violência, e o Lema: “ Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Na abertura da CF no dia hoje, o Cardeal Sergio da Rocha, Presidente da CNBB afirmou: “A vida, a dignidade das pessoas, de grupos sociais mais vulneráveis têm sido atingidos frequentemente”. Já o Deputado Alessandro Molon/RJ, coordenador da Frente Parlamentar pela Prevenção da Violência e Redução de Homicídios, afirmou que “Nós nos acostumamos com a nossa tragédia. É como se no Brasil, a vida humana valesse muito pouco”. Por sua vez a Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, disse que “Esta campanha ajuda a ver o outro como aliado, como irmão”. Ela afirmou ainda que “Não basta que se faça parte da sociedade humana, mas é preciso atuar por ela para que se crie espaços de fraternidade”.      

Em mensagem enviada a CNBB, o Papa Francisco, afirmou que “Jesus veio para nos dar a vida plena (cf. Jo 10, 10). Na medida em que Ele está no meio de nós, a vida se converte num espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos (cf. Exort. Apost. Evangelii gaudium, 180)... Sejamos protagonistas da superação da violência fazendo-nos arautos e construtores da paz. Uma paz que é fruto do desenvolvimento integral de todos, uma paz que nasce de uma nova relação também com todas as criaturas”.

Caros internautas, nesta Quaresma e Campanha da Fraternidade não seja MAIS UMA, MAIS UMA E MAIS UMA! Não, basta de rezas vazias, encontros para marcar outros encontros! Já pensou se nesse período e toda a nossa vida tivéssemos um olhar de paz, um sorriso de paz, uma fala de paz, uma relação familiar de paz, uma vida de paz? Sejamos semeadores da semente de paz. Boa Quaresma para todos nós. Ah! E não podemos esquecer que amanhã o senhor Deus nos chama e voltaremos para o pó “Pois somos pó e para o pó voltaremos.” (Gênesis 3, 19). Portanto, enquanto temos vida sejamos construtores da paz... Hoje e sempre vamos DELETAR A VIOLÊNCIA da nossa vida e da nossa comunidade.   

Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista/RJ.

Convento do Carmo de Salvador- BA. 11 de janeiro – 2018

Comecemos o nosso olhar recordando o famoso filme O Nome da Rosa. A história- baseada no romance de Umberto Eco- se passa no ano de 1327 no norte da Itália. Em um mosteiro beneditino- recheado de livros “proibidos” e intocáveis pelos monges- estava a “maçã intelectual do riso”, ou melhor, o segundo livro da Poética de Aristóteles que fala sobre a comédia. Acontece que as suas páginas estavam envenenadas. Os monges que, com sede do riso ou do conhecimento folheavam tal manuscrito, morriam logo em seguida.

Após lembrar desse clássico da literatura e do cinema- que aliás você não pode deixar de ler ou ver o filme-  vamos agora provocar a sua autocrítica. 1º- Você já viu um santo sorrindo na sua paróquia? 2º- Por que será que muitas vezes somos rígidos com a nossa busca pelo sagrado? 3º- Por que será que religião-Deus- significa sacrifícios, jejuns, penitência, cara feia, e por aí vai? Você pode dizer, ah Frei, Jesus não sorria. Respondo, se Jesus nunca sorriu é porque Ele não era humano. Se ele era humano- mesmo sendo Deus- logo Ele também deu ótimas e boas gargalhadas.

No Evangelii Gaudium, Exortação Apostólica do Papa Francisco sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, ele afirma; “Quero, com esta Exortação, dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de os convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos”. Sem dúvida, vivemos em um contexto religioso, social, político e econômico profundamente marcado pela tristeza. Se por um lado as pessoas sentem a ausência de Deus, por outro lado quem o encontrou muitas vezes vive a espiritualidade conservadora da idade média que Umberto Eco relata no Nome da Rosa.

Madre Teresa de Calcutá, Prêmio Nobel da Paz, costumava dizer; " Sorria um para o outro, sorria para a sua esposa, sorria para o seu marido, sorria para os seus filhos, sorria um para o outro - não importa quem seja - e isso ajudará a crescer um amor maior de um pelo outro. " Talvez isso pareça ser mais uma frase de uma santa com os pés nas nuvens. Não, não! Madre Teresa sabia muito bem o que significava sorrir. Por mais de 20 anos ela passou por uma profunda noite escura espiritual, mas nem por isso deixou de sorrir.

Às vezes, em nossos grupos, pastorais e movimentos, nos deparamos com leigos e leigas emburrados, tristes e com a cara de 7º dia- para não dizer padres, bispos e freiras- como se religião fosse sinônimo de tristeza. Não, não! Com o apóstolo Paulo em Filipenses 4-4-7, queremos dizer; “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos

Óbvio que não estou falando da alegria regada a drogas, sexo, músicas e álcool. Essa é passageira e não nos satisfaz. Refiro-me a verdadeira alegria que brota do coração ansioso em busca de Deus, mas não de um Deus carrancudo e Pit Bull de olho em nossas falhas e limitações. Aqui falo de um Deus que se alegrou com o arrependimento de Maria Madalena, abençoou as criancinhas, multiplicou os pães para os famintos, jantou na casa de Zaqueu e, acima de tudo, se fez pobre no meio dos pobres.  

Que todos nós- cristãos ou não- possamos fugir dessa religião triste e sonolenta. Muitas vezes opressora e sufocante que não nos permite sorrir e viver enquanto filhos e filhas de um Deus que se fez e se faz vida naquelas e naquelas que, apesar das labutas diárias de opressão, corrupção, desemprego e violência, ainda insistem e persistem em sorrir. Feliz carnaval povo de Deus!

“Onde eu estou neste carnaval? Fazendo retiro? Fora da cidade? Não, não... Eu estou correndo atrás do trio em Salvador- BA (Já faz 20 Anos!). Frei, não é pecado?! Sim, é pecado condenar o próximo, é pecado ser católico fanático, é pecado rezar o terço, adorar Jesus no Sacrário e votar em candidatos corruptos, bandidos e assassino dos pobres, é pecado se fingir de santinho- ficar com devoções vazias- e não olhar para o problemas sociais, é pecado professar uma fé vazia e descomprometida, é pecado enfim, não saber viver e ficar a sete chaves depressivo, angustiado e neurótico escondido em conventos, paróquias, seminários ou em suas casas simplesmente em nome de uma fé morta e de um Deus que tudo condena... Não, não! Esse não é o meu Deus, essa não é a minha religião”. Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista, direto de Salvador- BA. 

BOM DIA, BOA TARDE, BOA NOITE! Direto de Salvador, a terra de todos os santos. "Cada dia que passa tenho mais convicção de que o ser humano não se mede pela religião que professa, mas pelo caráter".

A FONTE: Frei Jerry.

LINK DO YOUTUBE. CLIQUE AQUI: https://youtu.be/EyflO6wLHL0 VEJA O VÍDEO E NÃO ESQUEÇA DE CURTIR

 

 AQUELA FONTE

São João da Cruz, Carmelita

Aquela eterna fonte está escondida,

mas eu bem sei onde tem sua guarida,

mesmo de noite.

Sua origem não a sei, pois não a tem,

mas sei que toda a origem dela vem,

mesmo de noite.

 

Sei que não pode haver coisa tão bela,

e que os céus e a terra bebem dela,

mesmo de noite.

Eu sei que nela o fundo não se pode achar,

e que ninguém pode nela a vau passar,

mesmo de noite.

Sua claridade nunca é obscurecida,

e sei que toda luz dela é nascida,

mesmo de noite.

 

Sei que tão cautelosas são suas correntes,

que céus e infernos regam, e as gentes,

mesmo de noite.

A corrente que desta vem

é forte e poderosa, eu o sei bem,

mesmo de noite.

A corrente que destas duas procede,

sei que nenhuma delas procede,

mesmo de noite.

 

Aquela eterna fonte está escondida,

neste pão vivo para dar-nos vida,

mesmo de noite.

De lá está chamando as criaturas,

que nela se saciam às escuras,

porque é de noite.

Aquela viva fonte que desejo,

neste pão de vida já a vejo,

mesmo de noite.

Frei Petrônio de Miranda, O. Carm.

Comunidade Capim, Lagoa da Canoa-AL. 30 de dezembro-2017.

1ª História. O “Santo Padre Manoel”,

O Padre Manoel foi um santo padre. A sua vida -27 anos de sacerdócio - foi marcada pela dedicação, honestidade e compromisso com a Boa Nova. Ao longo de seu ministério ajudou os pobres, construiu paróquias, catequizou milhares de almas e marcou a sua missão com o selo da simplicidade, compaixão e misericórdia. 

O seu superior- ou os seus superiores- sempre acreditaram na sua dedicação, e por mais que pensassem em transferir o dedicado religioso de comunidade, foram questionados pelos seus confrades com a famosa máxima: Time que está ganhando, não se mexe.

Para saber o final da história do dedicado pároco não é necessário uma bola de cristal, basta ler os anais paroquiais e ver os vícios, o desânimo e, muitas vezes, os pecados- do Padre e do povo. Digo, na medida em que os anos passaram os grupos, pastorais e movimentos foram apossando-se da Igreja e do padre ao ponto de não aceitarem sob hipótese alguma um vigário que pudesse auxiliar o ancião pastor. Em outras palavras, a falta de decisão dos seus superiores teve como consequência uma comunidade cansada, ultrapassada, arrogante e autossuficiente na Diocese.               

2ª História: A “doença” da irmã Madre Maria do Coração agonizante   

Madre Maria do coração agonizante, é um retrato fiel de amor à vida religiosa. Sua dedicação ao longo dos 60 anos de vida claustral prova e comprova a sua radicalidade e compromisso com Jesus Cristo. Mas... bem, o seu pecado sempre foi o maldito poder. Quando a religiosa não era eleita superiora da comunidade ficava doente, depressiva e insuportável.

Madre Maria, viveu os seus 60 anos de vida religiosa pautada no poder e pelo poder. O seu convento ficou velho, as suas irmãs, por sua vez, não aguentavam mais aquela fome de poder mas, em nome da obediência à vida religiosa sofriam no silêncio. Todos foram vítimas do eterno e famigerado poder conventual.

3ª História. O Pior leigo é um leigo com cabeça de padre.

Carlos Alberto era músico. Nos seus 38 anos de Paróquia evangelizou através da música. Foram anos de dedicação à comunidade paroquial. Seu pecado? Ah meu filho, o velho e sempre poder.

Com o passar dos anos a paróquia foi crescendo e fluindo, atraído assim várias famílias e, por sua vez, diversos jovens, alguns dos quais músicos animados e criativos no modo de evangelizar. O Problema? Bem, o problema continua o dito poder pelo poder. Quem disse que o senhor Carlos Aberto deu espaço para a juventude? “Esta Missa é minha, aqui não entra outro grupo de canto! Eu dei a minha vida nessa igreja e os padres que por aqui passaram reconheceram a minha missão”. Com essa afirmação, ele se auto afirmava soberano e intocável, e com isso a paróquia se fechava na sua caduquice.

Moral das histórias 

O Padre Manoel- O santo padre- se fechando no seu mundinho paroquial conseguiu estacionar a comunidade vitimada pelo poder. Os leigos, por sua vez, em nome da defesa do padre também foram contaminados pelo poder. Culpa do padre? Culpa do povo? Não, não! Culpa dos seus  superiores que, em nome de um respeito e de um trabalho pastoral deixaram aquele “santo homem” por longos e longos anos naquela comunidade transformando-se assim em rei soberano.   

Madre Maria do coração agonizante- a irmã dedicada- conseguiu parar o convento no tempo. Vocações? Não, não! Aquele convento ficou velho, a vida religiosa ficou chata, parada e ultrapassada.

3º- Carlos Alberto- o músico- por mais amor que tivesse pela paróquia foi se tornando em uma espécie de “padre” e, como diz o povo; O pior leigo é aquele que tem a cabeça de padre. Pois é, o senhor Carlos era o próprio! E com isso construiu muros, afastando principalmente os jovens.

A nossa mensagem final não é contra o poder, porque onde existem dois seres humanos ali ele está. A questão central é como administramos a nossa missão e o nosso poder, seja no convento, na paróquia, na família e na sociedade como um todo. E tenho dito!