“Com o Papa Francisco, a Igreja é desafiada a promover uma 'comunicação encarnada', que passa justamente pela 'via da atração', ou seja, pelo testemunho, que não depende de grandes discursos dogmáticos ou teológicos, mas exige concretude e coerência: fazer o que se diz e dizer o que se faz. (...) Uma comunicação católica deve se explicitar tanto na sua abrangência (uma comunicação 'universal', que dialoga realmente com todos e todas) quanto na sua unidade (não uniformidade) de pensamento e prática em questões religiosas ou não.”

O Master em Evangelização do Instituto Teológico Franciscano (ITF), de Petrópolis, recebeu o jornalista Moisés Sbardelotto, que lecionou a disciplina “Comunicação e Linguagem”. Moisés é graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e também é doutor e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), na linha de pesquisa Midiatização e Processos Sociais.

Nesta entrevista ele nos conta sobre a comunicação na Igreja, a sua opinião sobre os padres midiáticos, e a influência das mídias na relação interpessoal. A reportagem é de Neuci Lopes e Igor Fernandes, publicada no sítio do ITF, 14-09-2017.

Eis a entrevista.

Deus dialoga com a humanidade desde a sua criação. Se o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus, qual seria, então, a causa da dificuldade de diálogo entre as pessoas?

Creio que a causa é justamente o fato de sermos humanos, e não deuses. Trazemos a “imagem e semelhança” de Deus no nosso DNA, de um Deus que sai ao encontro do “outro”, de um Deus que se “faz Palavra”, que se comunica. O Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil (Doc. 99 da CNBB) afirma: “Criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano se comunica não por uma exigência, mas por um dom natural; não por uma ordem, mas por uma vocação. No ato da criação, Deus o constitui comunicador, dotando-o de imaginação, talento, inteligência e criatividade artística” (n. 36).

Mas, ao mesmo tempo, por sermos humanos, e não deuses, somos seres limitados, inclusive em nossas capacidades de comunicação. E o “ruído” (aquilo que dificulta o diálogo) faz parte de todo e qualquer processo de comunicação humana. Antes de tentar eliminá-lo, o importante é reconhecê-lo como algo que constitui o próprio ato da comunicação, e esse reconhecimento nos leva a agir com mais consciência dos limites e das possibilidades de todo diálogo.

Por outro lado, é paradoxal: a dificuldade de diálogo, muitas vezes, se deve justamente ao fato de acharmos que somos “semideuses”, seres autossuficientes, autônomos, independentes. E o “outro” acaba sendo visto apenas como um “apêndice”, como um “objeto” inerte e passivo da minha comunicação. Contudo, dessa forma, agimos “diabolicamente” (dia-bolos, aquilo que divide, que separa), ignorando e negando o “tu” que deveria nos interpelar na sua diferença radical. Um verdadeiro diálogo demanda o reconhecimento desse “outro”, desse “tu”, que não sou eu, não pensa como eu (é outro “logos”), não tem as mesmas experiências e vivências que eu e, portanto, tem também suas verdades próprias. Há uma frase do Papa Francisco que sintetiza muito bem essa ideia: “Dialogar não significa renunciar às próprias ideias e tradições, mas à pretensão de que sejam únicas e absolutas”.

As redes sociais têm sido benéficas para a comunicação interpessoal? Elas aproximam ou afastam os indivíduos?

Aquilo que costumamos chamar de “redes sociais” não são nem boas, nem más, mas também não são neutras. Facebook, Twitter, Instagram e outras plataformas são sistemas muito complexos, que envolvem aspectos sociais (o modo como os brasileiros interagem, por exemplo, é diferente do modo como outros povos interagem nessas plataformas, além de algumas plataformas terem um uso muito mais disseminado em alguns países e não em outros etc.), aspectos tecnológicos (o Facebook apresenta uma determinada interface e determinados protocolos de interação que são diferentes do Twitter, e uma coisa é usar essas plataformas no computador fixo, outra é usá-las no celular etc.) e ainda aspectos simbólicos (como as temáticas que mais gostamos, as páginas e contas que “curtimos”, o tipo de postagens que publicamos etc.), entre outros.

Dentro desse panorama complexo, é difícil dar uma resposta “sim” ou “não”, pois não é apenas o uso pessoal que vai determinar o benefício ou malefício das “redes sociais”, pois há outros aspectos em jogo, que não controlamos. Sendo redes, são as interconexões, as inter-relações, as interações entre as diversas pessoas e os diversos elementos tecnológicos e simbólicos que vão dar um sentido positivo ou negativo ao que circula nesses ambientes. Por isso, prefiro falar em “redes comunicacionais”, porque elas só existem e se mantêm a partir de um esforço comunicacional ativo e constante por parte das pessoas – e é esse processo, na sua indeterminação, que vai ordenando (ou desordenando…) os sentidos em jogo.

Em poucas palavras, as plataformas que conhecemos, sem dúvida, facilitam a aproximação entre as pessoas, conhecidas ou desconhecidas, encurtando distâncias e reduzindo tempos. Mas é só no momento específico e concreto da interação entre essas pessoas que podemos perceber se esse ambiente que chamamos de “rede social” está sendo benéfico ou não para essa relação. É todo o processo de comunicação que vai indicar isso, e não apenas o “local” onde ele ocorre.

Podemos afirmar que Jesus foi um grande comunicador? Por quê?

Sem dúvida. Deixo a palavra ao Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil, que é muito rico a esse respeito:

“A imagem de Jesus é a imagem viva do amor de Deus e de seu desejo de relacionar-se com o ser humano, expresso nos gestos, nas emoções e nos comportamentos que caracterizam Jesus: o amor misericordioso e primoroso para com os rejeitados, os pobres, os marginalizados, os sofredores, o que não é uma mera representação do amor de Deus, mas sua atualização. Revelando-nos a perfeição do amor, Jesus põe-se também como perfeito comunicador” (nn. 41-43).

Em sua comunicação, Jesus não recorria aos mais elevados padrões da estilística retórica nem às mais aprimoradas técnicas de expressão da época, mas falava a linguagem do povo, com o gênero discursivo mais simples, as parábolas, usando como referência elementos do cotidiano daquelas pessoas, como as próprias relações humanas, as festas, as ovelhas, o campo, a pérola, o fermento, a moeda, a videira, a figueira… E não só “discursava”, mas comunicava com a própria vida, com gestos, com lágrimas, suor, saliva (ou, melhor, “cuspe”, cf. Jo 9, 6), barro, sangue, vinho, pães, peixes… Não era uma comunicação “desencarnada”, mas, ao contrário, muito encarnada nos costumes e na cultura do seu povo, com grande riqueza de sabores, cheiros, cores.

Jesus também foi um comunicador paradoxal: seu único “texto” escrito de próprio punho perdeu-se com o vento, por ter sido escrito na areia… (cf. Jo 8, 6). Assim, não temos nenhum vestígio ou registro direto de Jesus, apenas o relato oral e escrito daqueles e daquelas que o conheceram pessoalmente e o comunicaram. A Igreja e a experiência de fé dos cristãos são fruto dessa comunicação, que surge a partir do amor de um Deus que se comunica. Trata-se de um “fluxo comunicacional” que só foi possível porque uma menina, Maria, soube inserir-se nele, ouvindo e tendo a audácia de dialogar com o anjo Gabriel; e que, por sua vez, só continuou depois da crucificação de Jesus porque outra mulher, Madalena, teve a coragem de anunciar a “loucura” da ressurreição, sendo reconhecida hoje como “apóstola dos apóstolos”.

Além disso, para os que creem, Jesus não apenas “foi” um grande comunicador, mas continua se comunicando com a humanidade no hoje da história. Jesus segue “fazendo-se carne” nas realidades mais humanas que existem. Tudo o que é humano nos revela Jesus, e é aí que temos que buscá-Lo. E Jesus nos revela o que há de divino no humano, e é isso que devemos encontrar nas pessoas com quem nos comunicamos.

A Igreja católica, hoje, estabelece uma comunicação atraente e efetiva?

Para uma resposta mais precisa, seria necessário especificar sobre que nível da Igreja Católica estamos falando. De um modo geral, a Igreja só se manteve e se mantém viva ao longo da história porque se comunica com as diversas culturas e sociedades, entre acertos e erros, entre gestos de grande “atração e efetividade” (mesmo que realizados com muita singeleza e pobreza, como em grande parte da ação missionária da Igreja), e gestos menos edificantes e até mesmo pouco cristãos.

Com o Papa Francisco, a Igreja é desafiada a promover uma “comunicação encarnada”, que passa justamente pela “via da atração”, ou seja, pelo testemunho, que não depende de grandes discursos dogmáticos ou teológicos, mas exige concretude e coerência: fazer o que se diz e dizer o que se faz.

As TVs católicas, no Brasil, atingem o objetivo de “chegar” aos fiéis?

Como meios de comunicação massivos, certamente elas chegam a muitos milhões de fiéis. E essa é uma grande riqueza e, ao mesmo tempo, um grande limitador. Riqueza porque é um alcance impressionante, com um poder simbólico gigantesco. Mas é também um limitador porque, para poder falar numa linguagem que um público grande e diverso como esse possa entender, é preciso simplificar e “padronizar” a fé cristã em uma “média”, que possa ser recebida por um “cristão médio”. “Dilui-se” a mensagem cristã para atender ao grande público. Isso pode empobrecer a ação evangelizadora desses canais, que, muitas vezes, acabam oferecendo aos telespectadores apenas “leite” e não “alimento sólido” sobre a fé (cf. Hb 5, 11-14). Ou, então, certos modelos pastorais e litúrgicos ou estilos de “ser católico” podem passam a se constituir como norma, o que pode levar ao esquecimento ou até ao menosprezo de outros modelos e estilos que enriquecem a diversidade característica do catolicismo, especialmente em um país como o Brasil.

Mas as aspas da sua pergunta apontam para outro “chegar”, que vai além do aspecto numérico da quantidade de telespectadores. E aqui eu acho que ainda estamos engatinhando, como Igreja. Alguns canais já alcançaram um excelente nível técnico nas suas produções, sem dúvida. Mas isso não basta. Assim como não basta um “bom conteúdo” de um programa específico se a grade de programação do canal como um todo denuncia uma ênfase em aspectos que se distanciam da fé cristã. Insere-se aí a presença de “intervalos” excessivamente voltados ao puro negócio, à venda não mais de “indulgências”, mas de “acessórios cristãos”, de “penduricalhos da fé”, quando não de produtos que beiram até mesmo o engodo (cintas de emagrecimento, gotas para parar de beber que podem ser misturadas na própria bebida alcoólica, cremes rejuvenescedores etc.). É claro, manter um canal em TV aberta não é barato. Mas até que ponto vale a pena investir milhões de reais obtidos mediante parcerias publicitárias com certas empresas e produtos que desmentem a simplicidade e a veracidade daquele Galileu a quem seguimos? Para que e, mais importante, para quem busca-se manter um canal de TV católico no ar?

Às vezes, também é perceptível um certo proselitismo na linguagem televisiva católica, que só sabe falar “catoliquês”. Isso, no fundo, desrespeita a própria Constituição, que, no seu artigo 221, determina que a produção e a programação das emissoras de televisão devem atender também a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas, promovendo especialmente a cultura regional. Uma programação 100% religiosa e centrada no eixo Rio-São Paulo desrespeita esses princípios, além de ir contra aquilo que Bento XVI já afirmava: “A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por ‘atração’”.

E, por fim, dentro desse proselitismo, muitas vezes, há também um certo “sectarismo católico”, em que se fala “sempre o mesmo para os mesmos”. Cada movimento, cada congregação, cada diocese deseja “traduzir” o catolicismo à sua maneira, segundo o seu linguajar, gerando uma dispersão (senão até uma divergência) que pode ser contraproducente. Por exemplo, sobre questões-chave no contexto nacional, como a situação política, a Amazônia, os desempregados e empobrecidos, expressa-se uma sintonia entre os canais católicos, em termos de posicionamento editorial? Segue-se o magistério do Papa Francisco e da CNBB, quando esta toma uma posição como colégio episcopal?

Em suma, uma comunicação católica deve se explicitar tanto na sua abrangência (uma comunicação “universal”, que dialoga realmente com todos e todas) quanto na sua unidade (não uniformidade) de pensamento e prática em questões religiosas ou não.

Qual a sua opinião sobre os “padres midiáticos”?

Muito do que eu falei na resposta anterior pode ser dito aqui. Os “padres midiáticos” cumprem um papel na cultura católica brasileira (em outros países, esse “sujeito social” seria inconcebível). Eles ajudam a anunciar a fé católica e a traduzi-la para o grande público de uma forma mais próxima da vida comum do cidadão médio, alguém que “fala e canta aos corações”, como se costuma dizer.

O problema, novamente, é quando um certo estilo de “ser padre” começa a se impor como norma em toda a Igreja, tornando quase obrigatório que os demais sacerdotes assumam esse estilo, ou ainda obstaculizando que outros estilos sejam bem aceitos nas comunidades locais. Essa padronização é extremamente empobrecedora para a Igreja.

Há ainda o problema da fama e do clericalismo. Porque o fato de “aparecer na TV” – que, para o senso comum, já indica uma certa “aura” de extraordinariedade – reforça o imaginário popular do padre como “autoridade” em si mesmo, para além de suas verdadeiras qualidades pessoais. O “padre-estrela” também é constantemente cercado pela tentação do exibicionismo. O risco é anunciar apenas a si mesmo (os gostos pessoais e a própria imagem, roupas, cortes de cabelo…), em uma “eu-vangelização” pouco cristã. Evangelizar é outra coisa, porque é inserir-se na ação comunicacional de um Outro, que nos precede e nos supera.

A relação padre-fiel – na mídia e fora dela – não deveria ser de “fanatismo”, “idolatria” ou “veneração”, pois é uma relação de fraternidade, de um “caminhar juntos” entre irmãos na fé, compartilhando o mesmo batismo e a mesma vocação de discípulos-missionários, na expressão do Documento de Aparecida. Somos todos “servos inúteis”.

Que qualidade do diálogo está mais em falta, atualmente: clareza, mansidão, confiança ou prudência?

Estamos vivendo tempos de extrema polarização. Por isso, embora as quatro qualidades sejam essenciais, parece-me que a prudência e a mansidão são mais do que nunca fundamentais. Prudência para não “sair falando o que der na telha” – inclusive porque as nossas próprias “telhas”, muitas vezes, são de vidro… e de um vidro muito frágil. E mansidão para saber falar apenas o necessário e quando necessário. E que seja um falar manso, pacífico, sem o peso excessivo dos preconceitos, dos apriorismos, das generalizações, da agressividade. Como diz a canção, “aprende-se mais ouvindo”. O silêncio é sempre mais comunicativo e significativo do que qualquer palavra vã.

A mídia exerce grande poder sobre a sociedade. O senhor acredita que ela tenha influência na “migração” de fiéis para outras denominações religiosas?

Primeiramente, é preciso ponderar esse “grande poder”. Sem dúvida, a “grande mídia” tem um poder de disseminar informações em larga escala, “pautando” o dia a dia sociedade. Mas, no caso específico da TV, cada telespectador também tem um “grande poder” sobre a TV, seja trocando de canal, desligando o televisor ou ainda “vendo” aquilo que não é mostrado, isto é, indo além do conteúdo que é exibido e tentando ler os interesses que estão em jogo no modo como a notícia é construída.

Porque toda informação passa por uma “fôrma” que “dá forma” à notícia. Mudando de fôrma, a notícia já não é mais a mesma. Por isso, para além daquilo que a TV “in-forma”, o telespectador – que não é passivo – pode “re-formar” a informação. E aqui é preciso lembrar o papel pedagógico da Igreja, mediante seus vários ministros e pastorais, de formar os fiéis para que saibam “ler” criticamente o que a mídia faz e produz, a partir das “lentes” oferecidas pela tradição cristã.

Quanto à “migração” de fiéis, é importante perceber que ela tem inúmeras influências, seja no âmbito das Igrejas ou religiões que “perdem” fiéis (pois esse não é um fenômeno que ocorre apenas na Igreja Católica), seja no âmbito das denominações que os acolhem. E aqui está um detalhe importante: a acolhida feita por essas denominações. Ninguém troca o certo pelo duvidoso. Há algo de bom que o fiel encontra nessas denominações, algo que realmente preenche o vazio ou que satisfaz alguma necessidade. Na outra denominação, há uma capacidade positiva que nós abandonamos, ou menosprezamos, ou ainda não desenvolvemos o suficiente, mas que foi eficaz na atração desse fiel. É claro que há também abusos e distorções em todo trânsito religioso, mas certamente há uma busca real de “algo mais” por parte desses fiéis, que não é encontrado nas Igrejas de origem.

Por isso, antes de qualquer crítica a essa “substituição”, é necessário fazer um mea culpa sincero como Igreja, reconhecendo “onde foi que erramos” ou onde fomos indiferentes na relação com esse fiel, a ponto de fazê-lo optar por outra denominação. É importante não alienar o problema, isto é, não jogar a culpa dessa migração sobre o outro (o fiel ou a nova denominação).

A mídia entra nesse “pacote”. Embora algumas denominações religiosas apostem muito na ação midiática, aprimorando o uso das diversas linguagens, desde o púlpito até as redes, creio que o aspecto midiático não tem um papel fundamental nem acessório, não é causa nem consequência. A questão em jogo é toda a rede comunicacional (para além das mídias) envolvida nessa “migração”. E essa rede começa antes do abandono da Igreja de origem, quando esta já não dá mais conta de reconhecer e de responder às necessidades do fiel nos seus vários processos de comunicação (por exemplo, promovendo celebrações meramente formais e pouco abertas ao Mistério, com ministros distantes, indisponíveis ou com discurso maçante, conteúdos alheios à realidade de vida das pessoas, comunidades “frias” ou preconceituosas, locais de culto desleixados ou “pirotécnicos” demais etc.).

Essa rede comunicacional se estende e se complexifica, depois, na atração do fiel pela nova denominação, mediante uma boa comunicação realmente “em rede”, chegando ao fiel pelas mais diversas mídias, desde um simples panfleto até um moderno aplicativo de celular, mas que também passa pela boa acolhida no templo, por ministros dispostos, acessíveis e com boa retórica, locais de culto bem cuidados, celebrações envolventes, comunidades vivas e festivas etc. Tudo isso é comunicação, para além de uma mídia propriamente dita.

A Igreja, nesse sentido, é em si mesma uma “mídia” complexa, pois tudo o que ela faz (ou deixa de fazer) é comunicação, seja no âmbito midiático ou fora dele. De nada adianta uma paróquia ter um meio de comunicação excelente (rádio, TV, jornal, site), se, na primeira visita de um fiel, este não recebe nem um “bom dia” do pároco ou dos agentes de pastoral. Esse “furo” na rede comunicacional pode ser sintomático de um tecido paroquial prestes a romper – o que, muito provavelmente, levará esse fiel a buscar “outra comunicação”. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

Queridos irmãos e irmãs:

Na história religiosa do antigo Israel, os profetas tiveram grande relevância, com seus ensinamentos e sua pregação. Entre eles, surge a figura de Elias, suscitado por Deus para levar o povo à conversão. Seu nome significa “o Senhor é meu Deus” e é de acordo com este nome que se desenvolve toda a sua vida, consagrada inteiramente a provocar no povo o reconhecimento do Senhor como único Deus. De Elias o Eclesiástico diz: “O profeta Elias surgiu como o fogo, e sua palavra queimava como tocha” (Eclo 48,1). Com esta chama, Israel volta a encontrar seu caminho rumo a Deus. Em seu ministério, Elias reza: invoca o Senhor para que devolva a vida ao filho de uma viúva que o havia hospedado (cf. 1Re 17,17-24), grita a Deus seu cansaço e sua angústia, enquanto foge pelo deserto, jurado de morte pela rainha Jezabel (cf. 1Re 19,1-4), mas sobretudo no monte Carmelo, onde se mostra todo o seu poder de intercessor, quando, diante de todo Israel, reza ao Senhor para que se manifeste e converta o coração do povo. É o episódio narrado no capítulo 18 do Primeiro Livro dos Reis, no qual hoje nos deteremos.

Encontramo-nos no reino do Norte, no século IX antes de Cristo, em tempos do rei Ajab, em um momento em que Israel havia se criado uma situação de aberto sincretismo. Junto ao Senhor, o povo adorava Baal, o ídolo tranquilizador de quem se acreditava que vinha o dom da chuva e a quem, por isso, se atribuía o poder de dar fertilidade aos campos e vida aos homens e às bestas. Ainda pretendendo seguir o Senhor, Deus invisível e misterioso, o povo buscava segurança também em um deus compreensível e previsível, de quem acreditava poder obter fecundidade e prosperidade em troca de sacrifícios. Israel estava cedendo à sedução da idolatria, a contínua tentação do crente, figurando-se poder “servir a dois senhores” (cf. Mt 6,24; Lc 16,13) e de facilitar os caminhos inescrutáveis da fé no Onipotente, colocando sua confiança também em um deus impotente feito por homens.

Precisamente para desmascarar a necedade enganosa dessa atitude, Elias reúne o povo de Israel no monte Carmelo e o coloca diante da necessidade de fazer uma escolha: “Se o Senhor é o verdadeiro Deus, segui-o; mas, se é Baal, segui a ele” (1Re 18, 21). E o profeta, portador do amor de Deus, não deixa sua gente sozinha diante desta escolha, mas o ajuda, indicando o sinal que revelará a verdade: tanto ele como os profetas de Baal prepararão um sacrifício e rezarão, e o verdadeiro Deus se manifestará respondendo com o fogo que consumirá a oferenda. Começa assim a confrontação entre o profeta Elias e os seguidores de Baal, que na verdade é entre o Senhor de Israel, Deus de salvação e de vida, e o ídolo mudo e sem consistência, que não pode fazer nada, nem para bem nem para mal (cf. Jr 10,5). E começa também a confrontação entre duas formas completamente diferentes de dirigir-se a Deus e de rezar.

Os profetas de Baal, de fato, gritam, agitam-se, dançam, pulam, entram em um estado de exaltação, chegando a fazer-se incisões no corpo, “com espadas e lanças, até o sangue escorrer” (1Re 18,28). Usam a si mesmos como recurso para interpelar o seu deus, confiando em suas próprias capacidades de provocar sua resposta. Revela-se assim a realidade enganosa do ídolo: este está pensado pelo homem como algo de que se pode dispor, que se pode gerenciar com as próprias forças, a que se pode aceder a partir de si mesmos e da própria força vital. A adoração do ídolo, ao invés de abrir o coração humano à Alteridade, a uma relação libertadora que permita sair do espaço estreito do próprio egoísmo para aceder a dimensões de amor e de dom mútuo, fecha a pessoa no círculo exclusivo e desesperador da busca de si mesma. E o engano é tal que, adorando o ídolo, o homem se vê obrigado a ações extremas, na tentativa ilusória de submetê-lo à sua própria vontade. Por isso, os profetas de Baal chegam até a causar-se dano, a retalhar-se, em um gesto dramaticamente irônico: para obter uma resposta, um sinal de vida do seu deus, eles se cobrem de sangue, recobrindo-se simbolicamente de morte.

Muito diferente é a atitude de oração de Elias. Ele pede ao povo que se aproxime, envolvendo-o assim em sua ação e em sua súplica. O objetivo do desafio dirigido por ele aos profetas de Baal era o de voltar a levar a Deus o povo que se havia extraviado seguindo os ídolos; por isso, quer que Israel se una a ele, convertendo-se em partícipe e protagonista da sua oração e do que está acontecendo. Depois, o profeta erige um altar, utilizando, como recita o texto, “doze pedras, segundo o número das doze tribos dos filhos de Jacó, a quem Deus tinha dito: 'Teu nome será Israel'” (v. 31). Essas pedras representam todo Israel e são a memória tangível da história de eleição, de predileção e de salvação de que o povo foi objeto. O gesto litúrgico de Elias tem uma repercussão decisiva; o altar é o lugar sagrado que indica a presença do Senhor, mas essas pedras que o compõem representam o povo, que agora, por mediação do profeta, está colocado simbolicamente diante de Deus, converte-se em “altar”, lugar de oferenda e de sacrifício.

Mas é necessário que o símbolo se converta em realidade, que Israel reconheça o verdadeiro Deus e volte a encontrar sua própria identidade de povo do Senhor. Por isso, Elias pede a Deus que se manifeste, e essas doze pedras, que deveriam recordar a Israel sua verdade, servem também para recordar ao Senhor sua fidelidade, à qual o profeta apela na oração. As palavras da sua invocação são densas em significado e em fé: “Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, mostra hoje que tu és Deus em Israel, e que eu sou teu servo e que é por ordem tua que fiz estas coisas. Ouve-me, Senhor, ouve-me, para que este povo reconheça que tu, Senhor, és Deus, e que és tu que convertes o seu coração!” (v. 36-37; cf. Gn 32, 36-37). Elias se dirige ao Senhor chamando-o de Deus dos Pais, fazendo memória implícita, assim, das promessas divinas e da história de eleição e de aliança que uniu indissoluvelmente o Senhor e o seu povo. O envolvimento de Deus na história dos homens é tal, que seu Nome já está inseparavelmente unido ao dos Patriarcas, e o profeta pronuncia esse Nome santo para que Deus recorde e se mostre fiel, mas também para que Israel se sinta chamado pelo seu nome e volte a encontrar sua fidelidade. O título divino pronunciado por Elias parece, de fato, um pouco surpreendente. Ao invés de usar a fórmula habitual, “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”, ele utiliza um apelativo menos comum: “Deus de Abraão, de Isaac e de Israel”. A substituição do nome “Jacó” pelo de “Israel” evoca a luta de Jacó no vau de Jaboc, com a mudança de nome a que o narrador faz referência explícita (cf. Gn 32,31) e de que falei em uma das catequeses passadas. Esta substituição adquire um significado a mais dentro da invocação de Elias. O profeta está rezando pelo povo do reino do Norte, que se chamava precisamente Israel, diferente de Judá, que indicava o reino do Sul. E agora, este povo, que parece ter esquecido sua própria origem e sua própria relação privilegiada com o Senhor, sente que o chamam pelo seu nome, enquanto se pronuncia o Nome de Deus, Deus do Patriarca e Deus do Povo: “Senhor, Deus (…) de Israel, mostra hoje que tu és Deus em Israel”.

O povo por quem Elias reza é colocado diante da sua própria verdade e o profeta pede que também a verdade do Senhor se manifeste e que Ele intervenha para converter Israel, afastando-o do engano da idolatria e levando-o, assim, à salvação. Sua petição é que o povo finalmente saiba, conheça em plenitude quem é verdadeiramente seu Deus, e faça a escolha decisiva de seguir somente Ele, o verdadeiro Deus. Porque somente assim Deus é reconhecido pelo que é, Absoluto e Transcendente, sem a possibilidade de colocá-lo junto a outros deuses, que O negariam como absoluto, relativizando-o. Esta é a fé que faz de Israel o povo de Deus; é a fé proclamada no bem conhecido texto do Shema‘ Israel: “Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6,4-5). Ao absoluto de Deus, o crente deve responder com um amor absoluto, total, que comprometa toda a sua vida, suas forças, seu coração. E é precisamente para o coração do seu povo que o profeta, com sua oração, está implorando conversão: “Que este povo reconheça que tu, Senhor, és Deus, e que és tu que convertes o seu coração” (1Re 18,37). Elias, com sua intercessão, pede a Deus o que o próprio Deus deseja fazer, manifestar-se em toda a sua misericórdia, fiel à sua própria realidade de Senhor da vida que perdoa, converte, transforma.

E isso é o que acontece: “Caiu o fogo do Senhor, que devorou o holocausto, a lenha, as pedras e a poeira, e secou a água que estava no rego. Vendo isto, o povo todo prostrou-se com o rosto em terra, exclamando: “É o Senhor que é Deus, é o Senhor que é Deus!'” (v. 38-39).

O fogo, este elemento ao mesmo tempo necessário e terrível, ligado às manifestações divinas da sarça ardente e do Sinai, agora serve para mostrar o amor de Deus que responde à oração e se revela ao seu povo. Baal, o deus mudo e impotente, não havia respondido às invocações dos seus profetas; o Senhor, no entanto, responde, de forma irrevocável, não só queimando o holocausto, mas inclusive secando toda a água que havia sido derramada ao redor do altar. Israel já não pode duvidar; a misericórdia divina saiu ao encontro da sua fraqueza, das suas dúvidas, da sua falta de fé. Agora, Baal, o ídolo vão, está vencido, e o povo, que parecia perdido, encontrou o caminho da verdade e se reencontrou.

Queridos irmãos e irmãs, o que esta história do passado nos diz? Qual é o presente desta história? Antes de tudo, está em questão a prioridade do primeiro mandamento: adorar somente a Deus. Onde Deus desaparece, o homem cai na escravidão de idolatrias, como mostraram, em nossa época, os regimes totalitários, e como mostram também diversas formas de niilismo, que tornam o homem dependente de ídolos, de idolatrias, o escravizam. Segundo, o objetivo primário da oração é a conversão: o fogo de Deus que transforma nosso coração e nos torna capazes de vê-Lo e, assim, de viver segundo Deus e de viver para o outro. E o terceiro ponto. Os Padres nos dizem que também esta história de um profeta será profética se – afirmam – for sombra do futuro, do futuro Cristo; é um passo no caminho rumo a Cristo. E nos dizem que aqui vemos o verdadeiro fogo de Deus: o amor que guia o Senhor até a cruz, até o dom total de si. A verdadeira adoração de Deus, então, é doar-se a Deus e aos homens, a verdadeira adoração é o amor. E a verdadeira adoração de Deus não destrói, mas renova, transforma. Certamente, o fogo de Deus, o fogo do amor queima, transforma, purifica, mas precisamente assim não destrói, e sim cria a verdade do nosso ser, recria nosso coração. E assim, realmente vivos pela graça do fogo do Espírito Santo, do amor de Deus, somos adoradores em espírito e verdade. Obrigado!

*Papa Bento XVI. CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 15 de junho de 2011

Fonte: http://cleofas.com.br

Venham trabalhar na vinha

Do CD- CD - O Espírito da Missão

1-"Venham trabalhar na minha vinha", dilatar meu reino entre as nações, convidar meu povo ao banquete, quero habitar nos corações.

Unidos pela força da oração, ungidos pelo espírito da missão. Vamos juntos construir uma igreja em ação.

2-"Venham trabalhar na minha vinha", espalhar na terra o meu amor, muitos não conhecem a Boa Nova, vivem como ovelhas sem pastor.

3-"Venham trabalhar na minha vinha", com fervor meu nome proclamar, que ninguém se queixe ao fim do dia, ninguém me chamou a trabalhar

Frei Carlos Mesters, O. Carm.

Zacarias

Não foi capaz de crer no chamado e ficou mudo (Lc 1,11-22).

Isabel

Era estéril, mas acreditou no chamado, concebeu e tornou-se capaz de reconhecer a presença de Deus em Maria (Lc 1,23-25.41-45).

João Batista

Chamado desde o seio materno (Lc 1,11-17), assume a missão com coragem (Mc 6,17-29). É o primeiro profeta depois de muitos séculos de silêncio (Lc 1,59-66; Mt 11,7-15).

José

Chamado a ser o esposo de Maria, rompe com as normas do machismo da época, e não manda Maria embora (Mt 1,18-25).

Maria

Acostumada a ruminar os fatos (Lc 2,19.51), percebe e acolhe a Palavra, trazida pelo anjo Gabriel, a ponto de encarná-la em seu seio, em sua própria vida (Lc 1,26-38).

Apóstolos

Foram chamados para estar com Jesus, para anunciar a palavra e para combater o poder do mal (Mc 3,13-19). O chamado de cada um dos doze e de algumas discípulas encontra-se no capítulo VI: “Jesus chama pessoas para estar com ele e ir em missão”.

Pedro

Pessoa generosa e entusiasta (Mc 14,29.31; Mt 14,28-29), mas na hora do perigo e da decisão, o seu coração encolhia e voltava atrás (Mt 14,30; Mc 14,66-72). Jesus rezou por ele (Lc 22,31).

Tiago e João

Dois irmãos. Estavam dispostos a sofrer com Jesus (Mc 10,39), mas eram violentos (Lc 9,54). Jesus os chamou filhos do trovão (Mc 3,17). João pensava ter o monopólio de Jesus. Jesus o corrigiu (Mc 9,38-40

Filipe

Tinha jeito para colocar os outros em contato com Jesus (Jo 1,45-46), mas não era muito prático em resolver os problemas (Jo 6,5-7; 12,20-22). Parecia um pouco ingênuo. Jesus chegou a perder a paciência com ele: “Filipe, tanto tempo que estou com vocês, e você ainda não me conhece?” (Jo 14,8-9)

André

Pessoa prática. Foi ele que encontrou o menino com cinco pães e dois peixes (Jo 6,8-9). É a ele que Filipe se dirige para resolver o caso dos gregos que queriam ver a Jesus (Jo 12,20-22), e é André que chama Pedro para encontrar-se com Jesus (Jo 1,40-43).

Tomé

Com teimosia sustentou sua opinião, uma semana inteira, contra o testemunho de todos os outros (Jo 20,24-25). É que o Jesus ressuscitado em que Tomé acreditava, tinha de ser o mesmo Jesus que fora crucificado e que carregava os sinais da tortura no corpo (Jo 20,26-28).

Natanael

Era bairrista e não podia admitir que algo de bom pudesse vir de Nazaré (Jo 1,46). Mas quando Jesus o explica, ele se entrega (Jo 1,49). Este Natanael aparece só no evangelho de João. Alguns o identificam com o Bartolomeu que aparece na lista do evangelho de Marcos (Mc 3,18).

Mateus

Era um publicano, pessoa excluída pela religião dos judeus (Mt 9,9). Sabemos pouco da vida dele. No evangelho de Marcos e de Lucas ele é chamado Levi (Mc 2,14; Lc 5,27). O nome Mateus significa Dom de Deus. Os excluídos são "mateus" (dom de Deus), para a comunidade.

Simão

Era um zelote (Mc 3,18). Dele só sabemos o nome e o apelido. Nada mais. Ele era zelote, isto é, fazia parte do movimento popular que na época se opunha à dominação romana.

Judas

Guardava o dinheiro do grupo (Jo 12,6; 13,29). Tornou-se o traidor de Jesus (Jo 13,26-27). Setenta anos depois da traição, no fim do primeiro século, o autor do quarto evangelho ainda tem raiva dele e o chama de "ladrão" (Jo 12,4-6).

Samaritana

Teve dificuldade em perceber o chamado (Jo 4,7-30), mas tornou-se uma grande apóstola no meio do seu povo (Jo 4,39-42)

A moça do perfume

Teve a coragem de quebrar as normas da época e entrou na casa do fariseu, onde Jesus estava. Banhou os pés dele com lágrimas, enxugou com seus cabelos e os ungiu com perfume (Lc 7,36-50)

A mulher Cananeia

Gritou atrás de Jesus pela saúde de sua filha doente e, chamada de cachorrinho por Jesus, teve a coragem de exigir os seus direitos como cachorrinho, que era receber as migalhas que caem da mesa dos filhos (Mt 15,21-28).

O jovem rico

Observava todos os mandamentos desde criança, mas chamado para abandonar tudo que tinha e dá-lo aos pobres afim de poder seguir Jesus de perto, não teve coragem e voltou atrás (Mc 10,17-31).

Nicodemos

Era membro do Sinédrio, o Supremo Tribunal da época. Homem importante. Ele aceita a mensagem de Jesus, mas não tem coragem de manifestá-lo publicamente (Jo 3,1). Junto com José de Arimatéia cuidou da sepultura de Jesus (Jo 19,39)

Joana e Susana

Joana era a esposa de Cusa, procurador de Herodes, que governava a Galiléia. As duas faziam parte do grupo de mulheres que seguiam a Jesus, o serviam com seus bens e subiam com ele até Jerusalém (Mc 15,40-41; Lc 8,2-3).

Maria Madalena

Era nascida da cidade de Magdala. Daí o nome Maria Magdalena. Jesus a curou de uma doença (Lc 8,2). Ela o seguiu até ao pé da Cruz (Mc 15,40). Depois da páscoa, foi ela que recebeu de Jesus a ordenação de anunciar aos outros a Boa Nova da Ressurreição (Jo 20,17; Mt 28,10).

Sair do armário. Isso é o que o Padre James Martin SJ incentiva os padres gays a fazerem. O jesuíta americano de renome e também conselheiro da Secretaria para a Comunicação do Vaticano acredita que o exemplo destes sacerdotes homossexuais ao divulgar sua sexualidade "ajudaria a mostrar aos católicos comuns como uma pessoa gay é e como os homossexuais podem viver de forma casta". A reportagem é de Cameron Doody, publicada por Religión Digital, 09-07- 2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Em uma entrevista com a CNN, Martin apresentou seu novo livro, cujo título se traduz ao português como Construindo Pontes: como a Igreja Católica e a comunidade LGBT podem adentrar em uma relação de respeito, compaixão e sensibilidade

Ele também refletiu sobre "a enorme mudança" que está ocorrendo na Igreja em termos de aceitação - e já não mais de rejeição - de pessoas gays: uma mudança atribuída ao exemplo de prelados como o Cardeal Joseph Tobin, Arcebispo de Newark, ou o próprio Papa Francisco.

"Há duas razões para essa mudança" no sentido de uma hospitalidade mais calorosa das pessoas LGBT na Igreja, assinala Martin.

"Uma é o Papa Francisco. Sua pergunta: 'Quem sou eu para julgar?'; sua reunião pública com Yayo Grassi, seu ex-aluno homossexual, em sua visita papal aos Estados Unidos; seus comentários sobre o Amoris laetitia, que foram usados para permitir que homossexuais praticantes recebam a Comunhão". Mas não foi apenas o próprio pontífice, mas também, - como observa

Martin - o fato de que "os bispos que o Papa Francisco está nomeando nos Estados Unidos são muito mais favoráveis aos LGBTs".

A outra razão que o Padre Martin explica sobre esta abertura cada vez maior na Igreja em direção às pessoas gays é "o aumento do número de católicos LGBTs que estão saindo do armário e fazendo com que as questões LGBTs sejam muito mais importantes para a Igreja em geral". Mas ainda assim, falta uma parte importante da Igreja que não foi tão corajosa - ou que não lhe deixaram mostrar a sua valentia - em reconhecer publicamente suas inclinações afetivas. Exceto, é claro, de algumas exceções heroicas, como a de Krzysztof Charamsa, ex-oficial da Congregação para a Doutrina da Fé.

O jesuíta Martin acredita que há "várias razões" pelas quais os milhares de sacerdotes e religiosos gays e lésbicas não saem do armário. "Um, por que seus bispos ou superiores religiosos lhes pedem para não fazê-lo. Dois, por que temem as represálias de seus devotos. Três, por que temem que isso geraria divisões. Quatro, por que são pessoas reservadas. Cinco, por que eles não estão plenamente conscientes de sua sexualidade", lista o sacerdote, reservando para o final o motivo mais preocupante: por que "as pessoas têm misturado a homossexualidade com pedofilia", de modo que os padres gays "não querem sair do armário por medo de serem rotulados como pederastas".

Será por medo, então, mais do que qualquer coisa, a razão pela qual não conhecemos mais religiosos homossexuais confessos. Mas se os padres homossexuais conseguissem dominar seus medos, opina Martin, eles dariam uma poderosa lição para toda a Igreja.

Se esses padres vencerem seus medos e saírem do armário, diz Martin, "ajudaria a mostrar aos católicos comuns como uma pessoa gay é e como os homossexuais podem viver de forma casta". Mais do que uma injustiça da qual eles precisam se esforçar para viver a sua personalidade de maneira furtiva, para Martin é uma "grande ironia". Ironia porque "estes homens e mulheres estão vivendo exatamente o que a Igreja pede para as pessoas LGBTs - castidade e abstinência - e eles não são permitidos a falar sobre isso". É por isso que Martin esclarece que "eles estão fazendo um grande trabalho sob uma nuvem estranha que nem deveria existir". Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

 

O sítio da revista America, 16-09-2017, publicou o texto das declarações. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A primeira declaração é do editor-chefe da revista America. James Martin tem sido duramente atacado nas redes sociais por grupos católicos conservadores e tem sido desconvidado para conferências anteriormente agendadas.

Eis os textos.

Declaração do Pe. Matthew F. Malone, SJ

Presidente e editor-chefe

No dia 15 de setembro de 2017, o Theological College, o seminário nacional sob os auspícios da Catholic University of America, anunciou sua decisão de rescindir um convite ao Pe. James Martin, SJ, editor-chefe de longa data da revista America, para se dirigir aos professores e estudantes durante a sua próxima celebração das Jornadas Discentes [Alumni Days].

De acordo com uma declaração emitida pela Catholic University, a decisão de rescindir o convite era contrária ao “conselho específico recebido da universidade e da sua liderança”. A decisão do Theological College seguiu o recente cancelamento da presença do Pe. Martin agendada para o jantar anual de investidura da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém e de uma palestra que ele proferiria para a CAFOD, a agência de caridade católica de desenvolvimento internacional.

O Pe. Martin tinha sido convidado para fazer considerações sobre Jesus e a espiritualidade inaciana em cada um desses fóruns. No entanto, os promotores dos eventos se sentiram obrigados a rescindir seus convites à luz da controvérsia pública em torno do recente livro do Pe. Martin, Building a Bridge: How the Catholic Church and the LGBT Community Can Enter into a Relationship of Respect, Compassion, and Sensitivity [Construindo uma ponte: como a Igreja Católica e a comunidade LGBT podem estabelecer uma relação de respeito, compaixão e sensibilidade].

Depois de ter sido revisado pelo censor librorum, o livro recebeu o necessário imprimi potest do superior jesuíta do Pe. Martin, o Pe. John J. Cecero, SJ. Building a Bridge recebeu recomendações públicas do cardeal Joseph Tobin, de Newark, Nova Jersey; do arcebispo John Wester, de Santa Fe, Novo México; do bispo de San Diego, Robert McElroy; de Dom John Stowe, bispo de Lexington, Kentucky; e do cardeal Kevin Farrell, prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida do Vaticano. Como os superiores jesuítas do Pe. Martin observam em um comunicado divulgado hoje (ver abaixo), Building a Bridge “é uma importante publicação para a nossa Igreja e para o povo de Deus”.

A maioria dos leitores e comentaristas acolheram o livro, embora alguns tenham levantado questões sobre a sua tese. Na maioria dos casos, a crítica tem sido inteligente e caritativa. Alguns elementos da Igreja estadunidense, no entanto, tomaram a iniciativa de organizar uma campanha por conta própria, não apenas contra os conteúdos do livro, mas também contra o próprio Pe. Martin.

Nas últimas semanas, o Pe. Martin foi submetido a ataques repetidos e caluniosos nas mídias sociais e na imprensa, envolvendo invectivas que são tão assustadoras quanto tóxicas.

Uma coisa é se envolver em debates espirituosos. Outra coisa é tentar obstruir esses debates através do medo, da desinformação ou da franca censura. A campanha contra o Pe. Martin, travada por uma facção pequena, mas influente, na Igreja dos Estados Unidos, é injustificada, não caritativa e não cristã.

O Pe. Martin é um membro de longa data da equipe editorial da revista America. Ele é um cristão fiel. Alguns podem discordar dos seus pontos de vista, mas você não encontrará um homem mais dedicado a Cristo e à sua Igreja.


* * *

Declaração dos Jesuítas dos Estados Unidos e Canadá sobre o novo livro do Pe. James Martin, Building a Bridge

http://jesuits.org - 16 de setembro de 2017 –

O Pe. James Martin, SJ, é um padre fiel, escritor de best-sellers e um membro respeitado da equipe editorial do grupo American Media, dirigido pelos jesuítas.

Seu livro mais recente, Building a Bridge: How the Catholic Church and the LGBT Community Can Enter into a Relationship of Respect, Compassion, and Sensitivity, é uma publicação importante para a nossa Igreja e para o povo de Deus a quem ministramos. Todos os livros do Pe. Martin são escritos com o pleno consentimento dos seus superiores religiosos e em conformidade com as orientações de publicação da Igreja Católica.

Building a Bridge, que foi revisado pelo Censor Librorum da Província do Nordeste dos Estados Unidos da Companhia de Jesus, recebeu um Imprimi Potest do provincial do Pe. Martin, declarando a sua adequação para publicação.

O Pe. Martin é uma voz significativa na nossa Igreja, tanto nos Estados Unidos, quanto em todo o mundo. A sua recente nomeação como consultor da Secretaria para a Comunicação do Vaticano afirma o poder da sua obra, que é um importante instrumento tanto para a pregação do Evangelho quanto para a evangelização.

Pe. John Cecero, SJ 
Provincial da Província do Nordeste dos Estados Unidos

Pe. Timothy Kesicki, SJ
Presidente da Conferência Jesuíta do Canadá e dos EUA

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

 

Pe. Adroaldo Palaoro, Jesuíta,

O perdão, então, restitua as pessoas na grande corrente da vida; busca restabelecer um vínculo positivo entre vidas feridas, vidas que se ferem e a vida que as rodeia.

O perdão é uma experiência forte que reconecta com a vida; ele quer abrir uma porta à vida, em um muro fechado de dores, de sentimentos feridos, de auto-agressividade. O perdão busca estabelecer uma aposta pela vida. É um ato de realismo, em profundidade e a longo prazo.

Podemos falar, então, que o perdão ativo é terapêutico pois desencadeia um processo de conversão, mobiliza todas as dimensões da pessoa, reestrutura o universo relacional e abre a interioridade à alteridade.

O perdão reconstrutor, libera em nós as melhores possibilidades, riquezas escondidas, capacidades, intuições... e nos faz descobrir em nós, nossa verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis... É ele que “cava” no nosso coração o espaço amplo e profundo para desvelar nossa própria interioridade.

A força criativa do perdão põe em movimento os grandes dinamismos da vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada.

Por isso, o perdão é expansivo, ele abre um novo futuro e desata ricas possibilidades latentes em cada um. Ele não se limita ao erro, mas impulsiona cada um a ir além de si mesmo; ele destrava a vida, potência o dinamismo do “mais” e o coloca em movimento em direção a um amplo horizonte de sentido.

É gesto gratuito e positivo de encontro, de acolhida, de cordialidade, que se torna hábito de vida: até “setenta vezes sete”.

O perdão é aquele que melhor revela a natureza do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. É a que revela igualmente o lado mais luminoso da natureza humana. Por isso é a que mais humaniza as relações entre as pessoas. Não apenas afetivo, mas efetivo. Não apenas implica mudança na disposição da pessoa que perdoa, mas leva também a modificar a situação da pessoa perdoada. O perdão liberta as pessoas para poderem cuidar de outras questões importantes na vida; é uma obra de amor para com o outro e para consigo mesmo.

O ser humano é quebradiço por dentro e por fora. Mas o perdão o redime, depositando nele algo que é maior que sua fragilidade. Trata-se de um dinamismo que o ressuscita, o vivifica e o resgata.

O que era sucata, torna-se material para a construção do ser humano novo; o que era motivo de vergonha, agora é impulso confiante e esperançoso; o que era sinal de morte, agora ressurge para uma vida nova. A novidade interior se dinamiza para fora e configura, por sua vez, a modalidade do comportamento diante dos outros.

Em última análise, o perdão é um ato de fé na bondade fundamental do ser humano.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

A igreja celebra duas festas em honra de Nossa Senhora das Dores: a primeira na sexta feira da semana da paixão, e a segunda no dia 15 de setembro. A primeira é celebrada na Igreja desde 1727, instituída pelo papa Bento VIII. A segunda foi determinada por Pio VIII em 18 de setembro de 1814, porém já acontecia em muitas Igrejas. É provável que a propagação da primeira festa tenha ocorrido em 1413, por ocasião do concílio provincial ocorrido em Edônia, para falar sobre os hereges hussitas, que desfiguravam as imagens de Jesus Cristo e da Virgem Dolorosa. Assim, estabeleceu-se que todos os anos, na sexta-feira seguinte ao domingo da Paixão, se celebrasse a festa da comemoração das angústias e dores da Virgem Maria.

Na festa seguinte ao domingo da Paixão, celebramos a paciência e a força com que Nossa Senhora viu a paixão de seu Filho, e depois se deixou atravessar pela espada que lhe profetizara o santo velho Simão. Na segunda festa, a de setembro, celebram-se todas as dores de Maria, principalmente as sete dores principais pelas quais Ela passou durante a vida, paixão e morte de Jesus Cristo. Já a segunda festa tem origem com a Ordem dos Servitas, inteiramente dedicada à devoção de Nossa Senhora (os sete santos Fundadores no século XIII instituíram a "Companhia de Maria Dolorosa"), em 1667 obteve a aprovação da celebração litúrgica das sete Dores da Virgem, esta festa foi celebrada também com o título de Nossa Senhora da Piedade e A compaixão de Nossa Senhora, tendo sido promulgada por Bento XIII (1724-1730) a festa com o título de Nossa Senhora das Dores, e que durante o pontificado de Pio VII foi acolhida no calendário romano e lembrada no terceiro domingo de setembro.

Foi o Papa Pio X que fixou a data definitiva de 15 de Setembro, conservada no novo calendário litúrgico, que mudou o título da festa, reduzida a simples memória: não mais Sete Dores de Maria, mas menos especificadamente e mais portunamente: Virgem Maria Dolorosa. Com este título nós honramos a dor de Maria aceita na redenção mediante a cruz. É junto à Cruz que a Mãe de Jesus crucificado torna-se a Mãe do corpo místico nascido da Cruz, isto é, nós somos nascidos, enquanto cristãos, do mútuo amor sacrifical e sofredor de Jesus e Maria. Eis porque hoje se oferece à nossa devota e afetuosa meditação a dor de Maria. Mãe de Deus e nossa.

A devoção, que precede a celebração litúrgica, fixou simbolicamente as sete dores da Co-redentora, correspondentes a outros tantos episódios narrados pelo Evangelho:

1º- A profecia do velho Simeão,

2- A fuga para o Egito,

3- A perda de Jesus aos doze anos durante a peregrinação à Cidade Santa

4- O caminho de Jesus para o Gólgata,

5- A crucificação

6- A Deposição da cruz

7- Sepultura

Portanto, somos convidados hoje a meditar estes episódios mais importantes que os evangelhos nos apresentam sobre a participação de Maria na paixão, morte e ressurreição de Jesus. Vamos nós, cristãos, pedir auxílio à Rainha dos Mártires, para que nos mantenha afastados do pecado, e nos dê força, auxílio e paciência para levarmos a nossa Cruz. (Fonte: site "senhoradasdores"); http://domtotal.com

Manhã de domingo, igreja cheia. Muitos homens vestem trajes formais. Mulheres levam véus sobre os cabelos. O silêncio absoluto é quebrado por um canto gregoriano. O padre passa pelos fiéis a caminho do altar. Sempre de costas para a audiência, dá início à missa em inconfundível latim: In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. A resposta vem em uníssono: Introibo ad altare Dei, ad Deum qui lætificat juventutem meam(Subirei ao altar de Deus, o Deus que alegra minha juventude). A cena evoca imediatamente imagens medievais, mas ocorreu no último dia 13 de julho, no Centro do Rio de Janeiro. Lá, a antiga Sé do Brasil, atual Igreja de Nossa Senhora do Carmo, sítio da coroação de João VI e Pedro I, é palco para uma das muitas missas tridentinas que se espalham pelo Brasil, numa ressurreição de formas litúrgicas antigas que atrai incontáveis jovens fiéis. O termo Juventutem, aliás, designa um movimento de volta às tradições católicas liderado por pessoas de 16 a 34 anos. A reportagem é de Leonardo Vieira, publicada pelo jornal O Globo, 28-07-2014.

— Descobri a missa há uns anos, é um tesouro. Está claro que tem algo de sagrado aqui. É possível perceber tanto com os ouvidos quanto com os olhos — arrisca o engenheiro Felipe Alves, de 25 anos.

Origens no império romano do ocidente

A missa tridentina, ou rito latino, foi normatizada no Concílio de Trento, em 1570, mas tem bases bem mais antigas, que remontam ao Império Romano do Ocidente, extinto no século V. O conservadorismo, a sobriedade e o extremo recolhimento dos fiéis na cerimônia foram utilizados pela Igreja no século XVI como resposta às reformas protestantes do Norte da Europa que abalaram as estruturas pontifícias.

Nela, o único idioma utilizado é o latim, chamado pelos adeptos de “língua universal da fé”. Enquanto nas missas comuns nos nossos tempos os católicos se ajoelham apenas uma vez, na antiga esse número salta para quase dez, incluindo o momento de receber a hóstia. Há intervalos para a meditação, quando o silêncio chega ao extremo de permitir que se ouça tudo o que se passa do lado de fora da igreja. Durante quase toda a cerimônia o padre permanece de frente para a cruz do altar.

Foram séculos assim, até que o Concílio Vaticano II, na década de 1960, introduziu inúmeras mudanças, o uso da língua local e o padre de frente para os fiéis entre elas. Mas o século XXI vive uma intrigante retomada de tradições conservadoras na Igreja. Em 2007, o agora papa emérito Bento XVI promulgou a carta “Summorum Pontificum”, em que exaltava a volta às tradições e o caráter “excepcional” da missa tridentina. Até então, párocos que quisessem rezar no estilo antigo deveriam pedir permissão direta à Cúria, no Vaticano. Desde então, a escolha passou a caber a cada paróquia.

Para o padre Luís Correa Lima, professor de Teologia da PUC-Rio, o mistério por trás da missa tridentina é o que fascina.

— Tudo nela é meio misterioso. O padre fica de costas, falando em uma língua desconhecida e seguindo uma liturgia extremamente codificada. Mas esse rito encanta por ser algo ancestral e imutável, por evocar a transcendência de Deus. São elementos que fascinam o jovem — opina.

Curiosamente, a introdução da missa moderna e a ressurreição da antiga têm a mesma preocupação: tentar estancar a perda de fiéis da maior designação cristã. Não há números que revelem se a volta ao passado teve algum efeito nesse sentido. Mas é fato que, amparadas pelos jovens católicos conservadores, as missas tridentinas crescem país afora. Em 2007, uma organização independente contabilizou 20 dessas celebrações no território nacional. Agora, cerca de cem ocorrem com regularidade.

— Vivemos numa sociedade muito centrada no indivíduo, na qual se valoriza a autodeterminação e tudo é incerto. Então surgem grupos que evocam o passado, em que tudo estava respondido pelo religioso — analisa o historiador Sérgio Coutinho, presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina (CEHILA).

Ligado à ala progressista da Igreja, Coutinho entende que os fiéis da missa tridentina são conservadores em tudo, inclusive politicamente:

— Eles creem que o Concílio Vaticano II não deveria ter acontecido, pois teria aberto demais a Igreja. Querem uma fuga do mundo, encontrar formas tradicionais de se viver. É como se quisessem que o passado voltasse.

Responsável por rezar a missa tridentina aos domingo na igreja do Centro do Rio, o padre Bruce Judice discorda. Segundo ele, dois dos princípios pregados em sua celebração são o respeito às diferenças e a orientação para que os fiéis não se fechem em círculos católicos isolados.

— Sempre dizemos que este não é o único modo de rezar. Não somos contra o Concílio Vaticano II — esclarece o padre, de 35 anos.

— O que há, sim, é uma sede de espiritualidade entre os jovens. Há quem procure ioga, meditação, natureza... E há quem busque a missa tridentina.

Foi esta última a escolha do adolescente Eduardo Salomão, de 15 anos. Ele aprendeu latim sozinho e quer ser padre. Aos domingos, vai a uma missa tridentina e a outra contemporânea:

— Claramente prefiro a tridentina. Já cheguei a ser tachado de maluco. O rito contemporâneo não é para mim. No antigo, a meditação, o silêncio e a beleza encantam.

Bárbara Soares descobriu o rito pela internet. Foi no quase extinto Orkut que a estudante de Letras conheceu outros jovens adeptos da tradição. Ela ficou tão encantada com as primeiras celebrações que não parou mais de frequentar as missas. Numa delas, conheceu seu marido. Hoje, já casada aos 20 anos, Bárbara vai à igreja com o véu sobre os cabelos e defende a vestimenta:

— Ele mostra a dignidade da mulher, exalta seu caráter sagrado.

Ela segue a linha de centenas de integrantes oficiais do Juventutem no Brasil. Fundado em 2004, na Suíça, o movimento teve um primeiro encontro internacional em 2005, na Alemanha, e, desde então, tem crescido e sido cada vez mais representado nas Jornadas Mundiais da Juventude. Ano passado, milhares deles vieram ao Rio de Janeiro. E, pela internet, muitos se já se articulam para a próxima edição do evento católico, em 2016, na Polônia. Em fóruns internacionais do movimento pela internet são comuns discussões relacionadas à liturgia católica e também a assuntos ligados a direitos civis, com muitos dos seus membros condenando uniões entre pessoas do mesmo sexo e o direito ao aborto, por exemplo.

Ortodoxos mantêm uso de grego e árabe

Engana-se quem pensa que o ritual tridentino é o único dentro do catolicismo que busca a retomada de tradições ancestrais. A poucas quadras da antiga Sé carioca, na paróquia greco-melquita de São Basílio e de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em plena Saara, histórico lar dos primeiros imigrantes sírios e libaneses católicos ortodoxos, os idiomas usados em ritos conservadores são o grego e o árabe. A igreja melquista, espremida entre prédios na rua República do Líbano, é o primeiro templo católico oriental do Brasil, fundado em 1941. Apesar de ainda ter forte conexão com a comunidade sírio-libanesa, a missa tem um público crescente de jovens e de pessoas curiosas.

Lá se celebra a missa bizantina, tradição que começou ainda no século V numa região onde onde se estendem parte dos territórios da Turquia, de Israel e da Palestina. Assim como no rito latino, o sacerdote reza de costas para o público. A música, a liturgia e as vestimentas remetem à cultura medieval dos católicos orientais.

— O rito chama a atenção dos jovens, eles se sentem bem pela beleza das orações. Hoje em dia os fieis estão a procurar as tradições em resposta aos tempos tão conturbados em que vivemos. Devemos voltar sempre às origens — diz o monsenhor George Khoury, da paróquia de São Basílio. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

Como parte do que faziam para nos conduzir a uma vida religiosa mais profunda, os meus pais nos levaram eu e meus irmãos, quando ainda éramos criança, a uma missa celebrada no Rito Tridentino. Não me recordo de ter ficado particularmente impressionado nas primeiras vezes. No entanto, em um domingo de verão, eu decidi frequentar uma missa neste rito por mim mesmo, mais por uma mudança de ritmo em relação à minha paróquia costumeira. Aconteceu que este dia era a Festa de Corpus Christi, e eu me vi surpreendido pelo espetáculo total do ritual. O comentário é de Timothy Kirchoff, pós-graduado pela Universidade de Notre Dame, publicado por America, 13-09-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Por uns instantes, senti que os hinos e as procissões me manteriam naquela igreja por mais tempo do que havia imaginado inicialmente, mas fui logo tomado por um sentimento que posso descrever como uma verdadeira comunhão. Esta havia sido, pensei eu, a missa vivenciada por inúmeros santos ao longo da história. Muito embora não tinha ninguém nos bancos ao meu redor, comecei a me sentir como se estivesse rodeado pelos santos que haviam vindo conhecer e adorar a Deus através da liturgia. Naquela altura, eu não sabia que os rituais da missa mudaram várias vezes nestes dois milênios de história cristã, mas saber destas mudanças nunca me vez duvidar do cerne da minha experiência naquele dia.
No ano passado, o Papa Francisco falou abertamente sobre os seus receios para com os tradicionalistas em entrevista que poderia servir como uma introdução para um livro dos seus sermões enquanto arcebispo de Buenos Aires:

Eu sempre tento entender o que está por trás das pessoas que são jovens demais para ter vivido a liturgia pré-conciliar, mas que a desejam. Às vezes eu me vejo em frente de pessoas que são rigorosas demais, que têm uma atitude rígida. E eu me pergunto: Como pode uma tal rigidez? (...) Essa rigidez sempre esconde alguma coisa: insegurança, às vezes até mais (…) A rigidez é defensiva. O verdadeiro amor não é rígido”.

Penso sobre esta declaração desde que a li. Eu me pergunto sobre se eu fui esse tipo de pessoa que Francisco tinha em mente. Será que fui um católico “rígido”? A experiência de estar cercado pelos santos na missa em latim é uma das experiências espirituais mais profundas e formativas de meus anos de adolescente.

Também venho pensando sobre estas palavras do papa porque o esforço dele para entender os tradicionalistas jovens reproduz as suspeitas mantidas por muitos católicos mais velhos que viveram a época do Concílio Vaticano II, especialmente alguns padres. (E mais: o papa recentemente reafirmou o seu compromisso com a reforma litúrgica do Vaticano II, dizendo que ela é “irreversível”.)

A experiência que tenho com a missa em latim oferece uma resposta possível às dúvidas do Papa Francisco sobre o porquê os jovens são atraídos pelas liturgias tradicionais: tendo crescido com a missa em inglês, estes jovens católicos possuem um sentido vago do que se trata os momentos da missa. Os rituais pouco familiares e o idioma do Rito Tridentino, no entanto, permitem-lhes ver estes momentos com um olhar renovado. A descoberta da missa em latim é, para muitos integrantes da minha geração, aquilo que a introdução da missa em língua vernácula foi para muitas pessoas como Francisco.
Quando às pessoas “rigorosas, rígidas” sobre cujas inseguranças o papa se refere, ele claramente não está falando a todos os que querem a opção de frequentar a liturgia pré-conciliar. Muito embora alguns de meus amigos irão estranhar diante de algumas homilias ou de desvios da rubrica litúrgica, dificilmente os gostos deles são dignos de serem contados no divã. Eles não precisam que alguém “analise profundamente” as suas psiques. O amor a Deus e ao próximo corre, no mínimo, de modo tão profundo neles quanto corre em mim, mesmo se este amor se manifeste às vezes em orações em latim.

A quem, então, o Papa Francisco está se referindo? A resposta pode residir no próprio passado de Francisco. Na qualidade de provincial jesuíta e, depois, reitor do seminário jesuíta na Argentina, Jorge Bergoglio ficou conhecido como uma figura rigorosa e formidável, e contava com um número considerável de seguidores entre os membros de sua província. Mas as críticas dele a grupos católicos tradicionalistas raramente são interpretadas por meio destas lentes.

Quando o papa sugere que a rigidez e o rigorismo escondem uma insegurança, talvez ele esteja falando das pessoas que certa vez conheceu bem ou mesmo esteja falando de si mesmo. A ex-inflexibilidade de Francisco deveria dar muito mais credibilidade a suas advertências sobre as ciladas do tradicionalismo moderno. Os tradicionalistas não levam as suas críticas tão a sério quanto provavelmente deveriam. Mas sem contexto algum fornecido, as declarações de Francisco soam menos com um conselho pastoral e mais como a lamentação perene de gerações mais velhas a respeito das tendências entre aos jovens.

O mesmo se pode dizer sobre muitas das admoestações que ouço da “geração Vaticano II” sobre as imperfeições da Igreja pré-conciliar. Só foi quando eu tive diálogos ampliados com estes católicos que a profundidade e a relevância da experiência deles se tornaram claras. Se não tivesse tirado um tempo para ouvir-lhes e fazer perguntas, tudo o que eu teria ouvido seria um lamento repetitivo sobre os jovens católicos que tentam fazer o relógio voltar atrás, para a década de 1950.

Quando realmente ouvi os mais velhos, aprendi sobre as muitas maneiras em que um foco muito acentuado em fazer valer as leis corre o risco de levar as pessoas a uma espiritualidade vazia, a um legalismo e à superstição. Aprendi sobre grupos de homens que ficavam do lado de fora da igreja fumando até a hora do ofertório, já que este era o momento crucial para cumprir a obrigação de domingo. Descobri que muitos padres que, externamente, pareciam firmes em suas vocações, depois do Concílio abandonaram o sacerdócio. As críticas por católicos mais velhos às práticas e tendências neotradicionalistas não são uma reação alérgica ao cheiro de incenso. São uma cautela que decorre da experiência.

Muitos jovens católicos buscam um maior entendimento da – e uma continuidade com a – Igreja pré-conciliar. Muitos católicos mais velhos que viveram o concílio e estão bastante familiarizados com as imperfeições da Igreja pré-conciliar se preocupam com que um revisitar as práticas antigas vá trazer de volta os problemas que o Vaticano II se esforçou para corrigir. Cada grupo tem algo a aprender com o outro. Estas lições só se esclarecem quando deixamos de lado as nossas inquietações ideológicas e temos a paciência para compreender as experiências do outro. A forma de rigidez sobre a qual mais devemos nos preocupar é a rigidez ideológica que nos impede de ver como Deus está trabalhando entre os nossos companheiros católicos.

Encontramos pontos em comum quando temos a paciência para buscá-los, assim como as liturgias em que participamos se parecem bem diferentes, mas que, no fundo, são a mesma celebração do mistério Pascal. http://www.ihu.unisinos.br

"Quando qualquer questão recebe imediatamente um ponto de chegada, não há mais caminho a ser percorrido. Por isso é que às inquietações humanas, Deus responde com o silêncio e a ausência", escreve Alfredo J. Gonçalves, CS, padre carlista e assessor das Pastorais Sociais. 

Eis o artigo. 

“Deus me abandonou” – eis uma frase recorrente, quer na vida atormentada de cada pessoa, quer no seu percurso espiritual, sempre pavimentado de altos e baixos. Evidentemente, o abandono é tanto mais sentido, quanto mais graves as tribulações porque passamos. Os momentos “baixos” nos levam a erguer os olhos ao alto, buscando qualquer socorro ou consolo. Fazem emergir com redobrada veemência a pergunta fundamental da existência humana: quem sou, de onde vim, para onde vou, por que existo? Porém, quanto mais furiosamente os ventos rugem à porta, tanto mais o céu nos parece cego e surdo, mudo, longínquo e indiferente.

Por que Deus se ausenta exatamente quando mais necessitados estamos de sua presença? Por que nos abandona? – perguntamos. Entra em cena então o poema de Carlos D. de Andrade, que tem justamente como título A ausência: “Por muito tempo achei que a ausência é falta/. E lastimava, ignorante, a falta/. Hoje não a lastimo/. Não há falta na ausência/. A ausência é um estar em mim/. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços/, que rio e danço e invento exclamações alegres/, porque a ausência assimilada/, ninguém a rouba mais de mim”.

Com base na visão do poeta brasileiro, não seria exagero afirmar que a ausência de Deus representa não uma falta, e sim uma oportunidade para que a pessoa possa estar a sós consigo mesma. Tempo para que ela possa repousar e meditar sobre a pergunta. “Dormir no assunto”, diz com razão o ditado popular! Nesse aparente vazio, cria-se o terreno propício para melhor discernir a própria pergunta fundamental sobre o sentido último da existência humana. A essa inquietude, Deus não oferece respostas prontas, imediatas, paliativas. Seu silêncio ou ausência abrem espaço para que tal pergunta, que conduz ao centro vital de nossa peregrinação terrestre, possa amadurecer como um projeto de vida, o qual, vale recordar, mantém-se sempre em evolução ativa, dinâmica e orgânica. Em lugar de um copo de água aqui e agora, a presença/ausência divinaprocura indicar o caminho da fonte. Em termos populares, Deus “não dá o peixe, mas ensina a pescar”.

Nas experiências significativas da vida, determinada pergunta martela-nos insistentemente o coração e a mente. Habita nossa alma irrequieta. Ao invés de escutá-la, as pessoas costumam sobrecarregar-nos com respostas apressadas, irrefletidas, superficiais. Têm-nas na ponta da língua! Não possuem ouvidos para a pergunta, antecipando-se com uma resposta padrão. Em lugar de aproveitar da interrogação para desencadear o diálogo sobre o projeto de vida que está em jogo, fecham-no com uma resposta clichê, padronizada. Com essa atitude precipitada, tendem a bloquear o processo de crescimento que a questão reabre a cada crise vivenciada. Impossibilitam o confronto consigo e conosco mesmos. A solução como que vem antes da pergunta, o que impede um tempo privilegiado de reflexão em que o assunto pode ser mastigado, engolido e digerido, antes de receber uma resposta definitiva.

Mantém-se, dessa forma, um tipo de comportamento infantil e infantilizante. Quando qualquer questão recebe imediatamente um ponto de chegada, não há mais caminho a ser percorrido. Por isso é que às inquietações humanas, Deus responde com o silêncio e a ausência. O Pai obriga os filhos a curvarem-se mais detidamente sobre o questionamento, até porque toda pergunta, em si mesma, já possui vestígios de resposta. Ninguém suportaria uma pergunta totalmente suspensa no vazio. Quando expressamos uma inquietude é porque intuímos fragmentos de luz que nos fazem vislumbrá-la numa espécie de penumbra. Daí a necessidade de espaço e tempo para recolher, ruminar e esclarecer tais fragmentos. O primeiro esboço de resposta, está contido na própria formulação da pergunta.

Resulta que a resposta às nossas perguntas vitais não é algo que possamos encontrar no outro de forma mecânica ou automática. O outro, ou o totalmente Outro, se revela não como resposta pronta e acabada, mas como espelho no qual nossas interrogações se refletem e se confrontam. Pouco a pouco, através do diálogo profundo, descortina-se o caminho da resposta. Caminho que, a seu turno, nos convida a recomeçar, pois, como diz o escritor estadunidense John Steinbeck, “o importante na vida é dar um passo, um posso, por menor que seja”. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

O legislador teria cedido a pressão de seus colegas religiosos e rabinos do partido ultraconservador Shas

Jerusalém - Um legislador ultraortodoxo israelense renunciou ao cargo nesta quarta-feira, após pressões de seus colegas religiosos e de rabinos por ter comparecido ao casamento de um parente gay, informou sua filha.

Yigal Guetta, membro do partido ultraconservador e religioso Shas, disse recentemente em uma entrevista a uma rádio que há dois anos compareceu ao casamento de um sobrinho gay, o que provocou uma forte reação de rabinos, segundo meios de comunicação locais.

Nesta quarta-feira de manhã, Guetta apresentou sua renúncia ao presidente do partido, o atual ministro do Interior, Aryeh Deri.  Sua filha, Simcha, afirmou que está orgulhosa do pai por sua lealdade familiar. "É o sobrinho dele!", disse à rádio pública israelense.  Yitzhak Vaknin, membro do Shas, disse que Guetta violou as leis religiosas ao participar de uma cerimônia que é proibida, a do casamento homossexual.

"Não existe nenhuma situação em que seja permitido participar de um evento como esse", disse à rádio do exército. "É totalmente proibido".

Na entrevista, realizada em 29 de agosto e que provocou críticas, Guetta disse que, embora quisesse estar ao lado do seu sobrinho, deixou claro para seus filhos que o estilo de vida dele era um tabu.

"Nós fomos juntos para o casamento, eu, minha esposa e meus filhos", disse ele. "Eu disse a eles: 'o comparecimento é obrigatório'. Ao mesmo tempo, eu disse aos meus filhos, estejam cientes de que a Torá diz que isso é proibido", acrescentou.

Enquanto o estado judeu é considerado pioneiro na promoção e no respeito aos direitos dos gays, a homossexualidade continua sendo um tabu entre os partidos religiosos e ultraortodoxos, que exercem um poder político significativo. Fonte: http://odia.ig.com.br

Dom Anuar Battisti, Arcebispo de Maringá (PR)

Cuidar-se significa levar-se em conta, escutar as próprias necessidades e compreender que temos direito de nos sentir bem. É entender e reconhecer nossa existência, sabendo que merecemos nosso amor e nossa compaixão além de todos os preconceitos, castigos e cobranças que impomos a nós mesmos.

Estamos cuidado de nós quando evitamos o que nos produz mal-estar: quando nos afastamos de certas pessoas que nos prejudicam, quando impomos limites em relação ao que queremos e não queremos fazer, e quando nos damos a oportunidade de tomar decisões por nós mesmos. “Não se cuidar é uma forma de autoagressão sutil ou manifesta. Às vezes, como em um estado depressivo, a pessoa está sem energia para ela mesma, e em outros problemas o sujeito reverte sua energia contra si mesmo, aumentando por sua vez a culpa e a autodepreciação” (Fina Sanz).

Diante da revelação pública que o padre Fábio de Melo fez nos meios de comunicação, de que estaria sofrendo de “Síndrome do Pânico”, despertou em muita gente um lado obscuro da vida, visto com muito preconceito e desconhecimento, muitas vezes. Agora podemos falar, pois “até o padre Fábio” falou. Com certeza ele foi muito corajoso e fez muita gente encarar a situação pessoal de forma mais real, sem criar falsos temores. Neste sentido, despertou o valor do cuidado que todos devemos ter. Cuidar-se para poder cuidar. Só damos aquilo que temos e se não temos tempo para nos abastecer, reconstruir diariamente a própria vida, estaremos todos fadados a cair, em qualquer “síndrome”, ou qualquer tipo de doença física ou psicológica.

Não temos outra saída a não ser aprender com o Mestre, que há mais de dois mil anos deixou-nos o exemplo. Quantas vezes, Jesus, depois de atender a multidão, fazer milagres, fazer discursos, instruir os discípulos, deixava tudo e ia para a montanha rezar, passar a noite toda em oração. Na calada da noite, na escuridão silenciosa das montanhas, o Senhor, ali entrava em comunhão com o Pai Deus, e tudo era iluminado, para recomeçar tudo de novo, no outro dia. O homem moderno ocupou o lugar de Deus. A auto suficiência faz do ser humano um semi deus.

Não só na vida dos padres e bispos, mas de todos os leigos, é urgente a dinâmica do equilíbrio. Qualquer ser, qualquer coisa, se perder o equilíbrio cai, e caindo se quebra, se destrói ou fica machucado por muito tempo. Fomos feitos para não cair, reconstruindo-nos a cada dia, não deixando a vida fazer de nós o que ela quer, e sim o que nós queremos fazer com a nossa vida. Nunca diga “não tenho tempo, de descansar, de meditar, de encontrar os outros, com a gente mesmo, de buscar ser útil, de solidarizar-se com o outro, de ganhar o pão com o suor do próprio rosto, de sorrir e abraçar, de chorar e carregar a cruz de cada dia”. Nunca diga “não tenho tempo para cuidar-se”. A vida é tão curta, tudo passa tão rápido, a felicidade custa muito pouco, só um pouco de amor, para poder amar o próximo como a si mesmo.

Nunca deixe para depois o tempo que você precisa para viver bem, reconstruindo-se a cada momento. Deixe de lado a onipotência, a vaidade de super homem ou super mulher e se vista de humildade sincera, reconstruindo-se sempre. A pior agressão não vem de fora, e sim do próprio coração, que não tem tempo para cuidar-se. Tire um tempo todos os dias para silenciar a tua alma e a tua inteligência e orar e tudo terá sabor de felicidade, até mesmo as cruzes que carregamos. Fonte: http://cnbb.net.br