Tolentino Mendonça vai fazer o “Elogio da Sede” no retiro que decorre em Roma até dia 23 de Fevereiro. A procura destes exercícios espirituais marcados pelo silêncio tem vindo a aumentar entre os leigos.

A capacidade de perguntar e de questionar certezas enraizadas está presente no pontificado de Francisco como na poesia e na obra de José Tolentino Mendonça. Surpreenderá assim apenas os mais distraídos a escolha do padre-poeta português para orientar o retiro espiritual do Papa, de hoje a 23 de Fevereiro, em Ariccia, nos arredores de Roma.

O mote para esta reflexão alargada à cúria romana será “Aprendizes do espanto”, a partir do qual o também vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP) refletirá sobre “O Elogio da Sede”, tema que diz ser transversal a crentes e não crentes e que se subdividirá, ao longo do seis dias, em meditações como “Percebi que estava sedento”, “Esta sede de nada”, “As lágrimas contam uma sede” e “Ouvir a sede das periferias”, entre outras.

Biblista e investigador, além de poeta e consultor do Conselho Pontifício para a Cultura, Tolentino Mendonça desafiava ainda há meses os leitores do seu último livro, Pequeno Caminho das Grandes Perguntas (Quetzal, Setembro de 2017), a sentarem-se num banco de jardim com tempo para encarar as grandes perguntas que nos precedem a todos, avisando logo à partida que as respostas são o que menos interessa nessa viagem sentada, cujo objectivo seria então arranjar espaço para o silêncio e para o espanto.

Afinal, como escrevia Tolentino Mendonça em meados do ano passado, numa das suas habituais crónicas no semanário Expresso, “viagem não é só movimento” e “a arte de parar é uma aprendizagem indispensável à sobrevivência”. Da poesia ao ensaio, a sua obra é atravessada, na opinião do padre jesuíta Vasco Pinto de Magalhães, “pelo tom da meditação e da procura de olhar a realidade com olhos de ver”. O jesuíta recuperou assim depressa do espanto de ver um português chamado a orientar a meditação do Papa, tanto mais que Tolentino “é respeitado internacionalmente pelas suas intervenções no campo da cultura e pertence a uma comissão pontifícia”, não sendo, portanto, “um desconhecido do Vaticano”.

Habituado a orientar diversos retiros espirituais, o padre jesuíta da Companhia de Jesus não arrisca antecipar o que poderá resultar deste retiro daquele que é o primeiro jesuíta a comandar a Igreja Católica. “Não estamos a falar de um concílio nem de um sínodo mas de uma experiência mais pessoal e espiritual, embora estejamos a falar de encontros que não são feitos para fugir da realidade mas para a agarrar com tempo e com espaço. Nesse sentido, poder-se-á esperar que esta paragem sirva para avaliar, ponderar, corrigir e tomar decisões para o futuro com novos compromissos”, contextualiza, admitindo que o Papa aproveite para “ganhar uma certa consciência da comunidade e para acertar o passo com ela”.

Numa altura em que, dentro da Igreja, têm vindo a agudizar-se as tensões entre os sectores conservadores e progressistas, com o Papa a ser acusado de heresia pelos primeiros e de não ter força para imprimir as mudanças necessárias pelos segundos, a escolha de Tolentino Mendonça foi criticada mais ou menos a coberto do anonimato pelos que consideraram que com a escolha de “um padre LGBT”, o Papa estava a abrir as portas da Igreja à “teologia queer”.

O efeito Scorsese

Numa sociedade marcada pela omnipresença de ecrãs que exigem conectividade a tempo inteiro, a procura de retiros espirituais tem vindo a aumentar, dentro e fora da Igreja. “Numa altura em que ninguém tem tempo para nada, é terapêutico arranjar um espaço de reflexão de tranquilidade”, diz Vasco Pinto de Magalhães, orientador de vários encontros com fundo religioso e com figurinos adaptados a perfis tão distintos como casais, jovens universitários ou empresários.

A Companhia de Jesus, instituto religioso da Igreja Católica, fundado por Santo Inácio de Loyola em 1540 — e da qual faz parte o Papa Francisco —, promove em Portugal vários exercícios espirituais nas três casas de retiros de que dispõe, em Braga, Sintra e Coimbra. Com uma duração que pode variar entre três e oito dias, a procura destes exercícios de silêncio feitos em grupo — espécie de “ginástica espiritual” — tem vindo a aumentar, sobretudo depois da estreia em Portugal do filme Silêncio, de Martin Scorsese. “A estreia do filme coincidiu com o início do nosso gabinete de comunicação e com uma maior preocupação em divulgar melhor as nossas atividades. Não sei qual das causas terá contribuído mais para este aumento da procura”, ressalva o padre jesuíta Pedro Rocha Mendes.

No somatório das três casas, 1890 pessoas frequentaram estes exercícios de recolhimento. Destas, apenas 463 eram religiosos e sacerdotes, repartindo-se os restantes entre estudantes, jovens casais, empresários ou simplesmente pessoas à procura de orientação por estarem em vias de tomar uma grande decisão nas suas vidas. “O objetivo é que estas pessoas contemplem o horizonte da sua vida e considerem as várias hipóteses que têm para a viver”, explica Pedro Rocha Mendes, especificando que a introspecção, a oração, o silêncio e a meditação sobre temas como liberdade e livre arbítrio estão presentes em todos os retiros, independentemente do perfil de pessoas a que se destinam.

As composições de Händel, Bach ou Vivaldi podem servir de fundo sonoro em vários momentos destes retiros, bem como as palavras de poetas como Herberto Helder ou Daniel Faria. Ser crente não é um requisito obrigatório para participar nestes retiros, cujos preços podem variar entre os 50 e os 150 euros, mas, como sublinha o padre jesuíta, “é muito difícil que alguém cruze esta experiência não tendo fé ou pelo menos não deseje fazer a experiência cristã da fé”. A dimensão cristã está, de resto, presente em todos os retiros, cuja proposta inclui a oração como veículo para “um encontro concreto com Jesus para que daí resulte inspiração para a vida e para as escolhas do dia-a-dia”. Fonte: http://publico.uol.com.br

Tão mistificado por sua luta pelos pobres brasileiros como prisioneiro do “irmão Parkinson”, o espanhol mais admirado do mundo católico vive recluso em Mato Grosso. 

A reportagem é de Tom C. Avendaño, publicada por El País, 15-02-2018.

A última vez que Pedro Casaldáliga, o bispo do povo segundo seus numerosos partidários e o bispo vermelho para seus cáusticos inimigos, apareceu diante de uma multidão poucos esperavam vê-lo. Era julho de 2016 e não estava claro se dessa vez o religioso claretiano, de 88 anos, iria participar da Romaria dos Mártires da Caminhada, um evento quinquenal que ele criou em 1986, quando era bispo desta região selvática do Estado de Mato Grosso. A Romaria é realizada a 268 quilômetros de São Félix do Araguaia, o município onde ele vive, e não se sabia se aguentaria os incômodos de tamanha viagem. Mas havia aceitado a contragosto ir de avião, e não de ônibus, como até então costumava viajar pelo país (para ir, segundo suas palavras, "à altura do povo"), de modo que aí estava esse catalão, discretamente disposto a ver a cerimônia de inauguração. Banhado em aplausos e flashes de celulares, o morador espanhol mais célebre do Brasil não disse uma palavra. Em parte, pode-se imaginar, porque não tinha ido dar uma homilia; em parte, pelos estragos que foi causando em suas habilidades motoras o que ele chama de "o irmão Parkinson". Vendo-o, frágil, calado, prostrado em sua cadeira de rodas, qualquer coisa que tivesse dito teria soado como uma despedida.

Desde então, o mundo soube pouco dele, como ele do mundo. "A política local, a estatal ou a nacional, ele já não acompanha muito", admite por telefone o padre Ivo, um dos quatro agostinianos que se organizam para atender nas 24 horas do dia o bispo emérito em sua casa de São Félix do Araguaia. Mantêm-no em forma com a rotina: cuidados físicos pela manhã e leitura do correio –eletrônico ou tradicional– pela tarde. "Não responde todas as mensagens porque já lhe custa muito falar, mas as pessoas as mandam, cheias de carinho, sem esperar uma resposta. São quase como uma deferência", acrescenta Ivo.

Assim, meio custodiado e meio mistificado, faz aniversário esta semana um dos homens espanhóis mais admirados do mundo católico. Em sua casa de sempre em São Félix do Araguaia, um município de pouco mais de 10.500 habitantes ao qual só se chega depois de 16 horas de estrada de terra desde o aeroporto mais próximo, o de Cuiabá, capital do Mato Grosso. Aqui se encontra este sacerdote de Montjuïc desde que chegou ao Brasil como missionário em 1968, fugindo de uma Espanha congelada pelo franquismo. Em 1971 foi nomeado primeiro bispo da diocese e converteu sua casa, pequena, rural e pobre, na sede.

Foi entre essas quatro paredes que Casaldáliga começou a dar mostras de sua espetacular adesão aos ensinamentos do Evangelho, sobretudo o de se identificar com os mais desfavorecidos. E neste lado do Brasil selvático os mais desfavorecidos são centenas de milhares de camponeses sem-terra, pobres, analfabetos e oprimidos por coronéis e políticos. Assim, ele rezava missa para os moradores no quintal de sua casa, entre as galinhas, e à noite, deixava sua porta principal aberta para o caso de alguém sem casa precisar usar uma cama que sempre estava disponível. Andava de jeans e chinelos e tinha duas mudas de cada roupa. Quando tinha que se reunir com o Episcopado em Brasília, ia de ônibus, em uma viagem de três dias, porque era o meio de transporte de sua gente. Seu lema era inegociável: "Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar".

Anos depois se lembraria de como no início, em sua diocese, "faltava tudo: em saúde, educação, administração e justiça; faltava, sobretudo, no povo a consciência dos próprios direitos e a coragem e a possibilidade de reclamar". Decidiu que esse era o caminho a seguir. Construiu escolas, ambulatórios e se colocou ao lado dos camponeses sem-terra. Foi acusado repetidas vezes de interessar-se demais pelos problemas "materiais" dos pobres. Ele respondia que não concebia "a dicotomia entre evangelização e promoção humana".

Essas ideias progressistas lhe renderam seguidores que o cultuavam nas ruas e um ódio desenfreado em várias instituições. Ele se posicionou em favor dos indígenas da Amazônia, que para os interessados em se enriquecer eram os mais fáceis de expulsar de cada território: aliou-se aos xavante de Marãiwatsédé para retirar grandes produtores rurais de suas áreas e aos tapirapé e os carajá, e isto o levou a se confrontar com os latifundiários e as multinacionais e a ditadura militar. Viu como pistoleiros matavam seus companheiros – a conclusão habitual dos conflitos nesta região – e ele mesmo teve que viver escondido em um mês de 2012 por ameaças de morte. Rejeitou andar com escolta: "Eu a aceitarei quando for oferecida também a todos os camponeses de minha diocese ameaçados de morte como eu", disse.

O Vaticano o convocou em 1988 para que desse explicações por tanta proximidade dateologia da libertação e para que visitasse o Papa João Paulo II, como deveria ter feito uma vez a cada cinco anos, segundo o Código do Direito Canônico. Apresentou-se em camisa, sem anel e com um colar indígena no pescoço. Esclareceu ao Pontífice: "Estou disposto a dar minha vida por [São] Pedro [fundador da Igreja Católica], mas pelo Vaticano é outra coisa". Ao sair do encontro, fez um resumo à imprensa: "Me escutou e não me deu uma reprimenda. Poderia ter feito isso, como nós podemos também fazer com ele". E ponderou: "O Espírito Santo tem duas asas e a Igreja gosta mais de cortar a da esquerda".

Em 2003, Casaldáliga completou 75 anos, idade a partir da qual um bispo pode se aposentar. O Vaticano o substituiu de imediato. "Se o bispo que me suceder desejar seguir nosso trabalho de entrega aos mais pobres, eu poderia ficar com ele como sacerdote; do contrário, procurarei outro lugar onde possa terminar meus dias ao lado dos mais esquecidos", insistiu então. Se a pressa se devia a que fora fácil encontrar um substituto, não deram nenhuma indicação disso. Não voltaram a se manifestar até janeiro de 2005, quando anunciaram que já tinham substituto e que Casaldáligadeveria abandonar a diocese. Ele se negou e ficou trabalhando, com seu substituto e depois com o seguinte.

Pedro Casaldáliga faz 90 anos na casa de sempre e no município de sempre, mas o restante não é o de sempre. A região do Araguaia se transformou, entre escândalos políticos, em uma das principais áreas de plantações de soja do Mato Grosso: ou seja, parte das terras dos indígenas e dos camponeses está nas mãos das grandes produtores agrícolas e de seus produtos químicos. Talvez não se possa fazer nada contra isso. Casaldáliga perdeu essa batalha. Mas quando uma pessoa dedicou sua vida inteira à luta, ganhar ou perder é secundário. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

O Santo Padre convidou também a parar “um pouco com o olhar altivo, com o comentário ligeiro e desdenhoso que nasce do ter esquecido a ternura, a compaixão e o respeito pelo encontro com os outros".

Cidade do Vaticano

O Papa Francisco presidiu, nesta quarta-feira (14/02/2018), na Basílica de Santa Sabina, no bairro Aventino, em Roma, a santa missa com o rito de imposição das cinzas.

“O tempo de Quaresma é propício para corrigir os acordes dissonantes da nossa vida cristã e acolher a notícia sempre nova, feliz e esperançosa da Páscoa do Senhor. Na sua sabedoria materna, a Igreja propõe-nos prestar especial atenção a tudo o que possa arrefecer e oxidar o nosso coração de fiel”, disse o Papa em sua homilia.

Segundo o Pontífice, “várias são as tentações, a que nos vemos expostos. Cada um de nós conhece as dificuldades que deve enfrentar". E é triste constatar, nas vicissitudes diárias, como se levantam vozes que, aproveitando-se da amargura e da incerteza, nada mais sabem semear senão desconfiança.

Papa na missa de imposição das cinzas

E, se o fruto da fé é a caridade – como gostava de repetir Santa Teresa de Calcutá –, o fruto da desconfiança é a apatia e a resignação. “ Desconfiança, apatia e resignação: os demônios que cauterizam e paralisam a alma do povo fiel. ”

Francisco ressaltou que “a Quaresma é tempo precioso para desmascarar estas e outras tentações e deixar que o nosso coração volte a bater segundo as palpitações do coração de Jesus. Toda esta liturgia está impregnada por este sentir, podendo-se afirmar que o mesmo ecoa em três palavras que nos são oferecidas para «aquecer o coração fiel»: para, olha e regressa”.

Parar

“Para um pouco, deixa esta agitação e este correr sem sentido que enche a alma de amargura sentindo que nunca se chega a parte alguma. “ Para, deixa esta obrigação de viver de forma acelerada, que dispersa, divide e acaba por destruir o tempo da família, o tempo da amizade, o tempo dos filhos, o tempo dos avós, o tempo da gratuidade... o tempo de Deus. ”

“Para um pouco com essa necessidade de aparecer e ser visto por todos, mostrar-se constantemente «na vitrine», que faz esquecer o valor da intimidade e do recolhimento”, disse ainda o Papa Francisco.

O Santo Padre convidou também a parar “um pouco com o olhar altivo, com o comentário ligeiro e desdenhoso que nasce do ter esquecido a ternura, a compaixão e o respeito pelo encontro com os outros, especialmente os vulneráveis, feridos e até imersos no pecado e no erro”.

“ Para um pouco com essa ânsia de querer controlar tudo, saber tudo, devassar tudo, que nasce de se ter esquecido a gratidão pelo dom da vida e tanto bem recebido. ”

Para um pouco com o ruído ensurdecedor que atrofia e atordoa os nossos ouvidos e nos faz esquecer a força fecunda e criativa do silêncio. Para um pouco com a atitude de fomentar sentimentos estéreis e infecundos que derivam do fechamento e da autocomiseração e levam a esquecer de sair ao encontro dos outros para compartilhar os fardos e os sofrimentos.

Para diante do vazio daquilo que é instantâneo, momentâneo e efêmero, que nos priva das raízes, dos laços, do valor dos percursos e de nos sentirmos sempre a caminho”.

“Pare, para olhar e contemplar”, disse ainda o Papa.

Olhar

A seguir, Francisco convidou a olhar, olhar “os sinais que impedem de se apagar a caridade, que mantêm viva a chama da fé e da esperança. Rostos vivos com a ternura e a bondade de Deus, que age no meio de nós”.

“ Olha o rosto de nossas famílias que continuam a apostar dia após dia, fazendo um grande esforço para avançar na vida e, entre muitas carências e privações, não descuram tentativa alguma para fazer da sua casa uma escola de amor. ”

"Olha os rostos interpeladores de nossas crianças e jovens carregados de futuro e de esperança, carregados de amanhã e de potencialidades que exigem dedicação e salvaguarda. Rebentos vivos do amor e da vida que sempre conseguem abrir caminho por entre os nossos cálculos mesquinhos e egoístas."

“ Olha os rostos dos nossos idosos, enrugados pelo passar do tempo: rostos portadores da memória viva do nosso povo. Rostos da sabedoria operante de Deus. ”

Olha os rostos dos nossos doentes e de quantos se ocupam deles; rostos que, na sua vulnerabilidade e no seu serviço, nos lembram que o valor de cada pessoa não pode jamais reduzir-se a uma questão de cálculo ou de utilidade. Olha os rostos arrependidos de muitos que procuram remediar os seus erros e disparates e, a partir das suas misérias e amarguras, lutam por transformar as situações e continuar para diante.

Olha e contempla o rosto do Amor Crucificado, que continua hoje, a partir da cruz, a ser portador de esperança; mão estendida para aqueles que se sentem crucificados, que experimentam na sua vida o peso dos fracassos, dos desenganos e das desilusões.

“ Olha e contempla o rosto concreto de Cristo crucificado por amor de todos sem exclusão. ”

De todos? Sim; de todos. Olhar o seu rosto é o convite cheio de esperança deste tempo de Quaresma para vencer os demónios da desconfiança, da apatia e da resignação. Rosto que nos convida a exclamar: o Reino de Deus é possível!”.

Regressar

“Para, olha e regressa”, frisou o Papa. Regressa à casa de teu Pai. “ Regressa sem medo aos braços ansiosos e estendidos de teu Pai, rico em misericórdia, que te espera! ”

“Regressa! Sem medo: este é o tempo oportuno para voltar a casa, a casa do «meu Pai e vosso Pai». Este é o tempo para se deixar tocar o coração... Permanecer no caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza. A verdadeira vida é outra coisa muito diferente, e bem o sabe o nosso coração. Deus não Se cansa nem Se cansará de estender a mão." Fonte: http://www.vaticannews.va

Na manhã desta quarta-feira, 14 de fevereiro, na sede provisória da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), foi aberta oficialmente a Campanha da Fraternidade (CF) 2018. Este ano, a Campanha trata da “Fraternidade e a superação da violência”. O presidente da entidade, cardeal Sergio da Rocha, e o secretário-geral, dom Leonardo Steiner, receberam autoridades para o evento: a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, o coordenador da Frente Parlamentar pela Prevenção da Violência e Redução de Homicídios, deputado Alessandro Molon, e o presidente da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), Carlos Alves Moura.

Mensagem do Papa

O secretário executivo de Campanhas da CNBB, padre Luís Fernando da Silva, leu para os presentes no evento a mensagem enviada pelo papa Francisco: “O perdão das ofensas é a expressão mais eloquente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Às vezes, como é difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração, a paz. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança é condição necessária para se viver como irmãos e irmãs e superar a violência”.

No final da Mensagem, papa Francisco pediu: “Peço a Deus que a Campanha da Fraternidade deste ano anime a todos para encontrar caminhos de superação da violência, convivendo mais como irmãos e irmãs em Cristo. Invoco a proteção de Nossa Senhora da Conceição Aparecida sobre o povo brasileiro, concedendo a Bênção Apostólica. Peço que todos rezem por mim”.

Exposições

“Há alguns dados dos estudiosos que nos estarrecem”, disse Carlos Moura. Negros e jovens são as maiores vítimas da violência no Brasil, informou. A população negra corresponde à maioria dos 10% dos indivíduos expostos ao homicídio no País. “É oportuno refletir sobre o Manual da Campanha da Fraternidade”, chamou a atenção: “A violência racial no Brasil é uma situação que faz supor uma forte correlação entre três formas de violência, direta, estrutural e cultural. Os casos de violência direta parecem ser resultado mais concreto e evidente de questões socioeconômicas históricas, além de deixarem entrever representações culturalmente produzidas e já naturalizadas a respeito da população negra, do índio, dos migrantes e, mais recentemente, também do imigrante”.

Moura lembrou que outra Campanha da Fraternidade tratou da superação da violência contra a comunidade negra, a Campanha de 1988, que tinha como lema: “Ouvi o clamor desse povo”.  Nela, segundo Carlos Moura, a Igreja renovou o comprometimento da Igreja com o combate à violência.

A ministra Cármen Lúcia, agradeceu à CNBB “pelo convite ao Poder Judiciário para participar desse momento”. A presidente do STF disse que hoje, infelizmente, o outro tem sido visto com desconfiança e não como um irmão, um parceiro. “Esta campanha ajuda a ver o outro como aliado, como irmão”, reforçou. “Não basta que se faça parte da sociedade humana, mas é preciso atuar por ela para que se crie espaços de fraternidade”, acrescentou a ministra.

Deputado Alessandro Molon disse: “Nós nos acostumamos com a nossa tragédia. É como se no Brasil, a vida humana valesse muito pouco”. Ele realçou que a Campanha da Fraternidade não é de combate à violência, mas a superação dela. Chamou atenção para esse ano de discursos políticos é preciso lembrar o que diz o texto-base da Campanha que lembra que se trata de um problema complexo que não aceita soluções simplistas. “Esse carnaval nos deixou algumas lições. Quando as autoridades se omitem, por exemplo, a violência cresce”. O deputado ainda lembrou que todos têm responsabilidade, mas o Parlamento deve melhorar o Direito para proteger mais a vida que o patrimônio.

Cardeal Sergio da Rocha disse que a importância da Campanha da Fraternidade tem crescido a cada ano, repercutindo não somente dentro do âmbito da Igreja Católica, mas em toda a sociedade civil, além de outras igrejas cristãs. “Construir a Fraternidade para superar a violência” é o objetivo da Campanha da Fraternidade, lembrou. “A vida, a dignidade das pessoas, de grupos sociais mais vulneráveis têm sido atingidos frequentemente”. A realidade da violência, no entanto, “não deve levar a soluções equivocadas”, disse. Por conta disso, a Campanha da Fraternidade, disse o cardeal, quer ajudar a todos para fazer uma análise profunda diante da complexidade da realidade da violência.

 “Embora que seja importante a ação de cada um de nós, mas é preciso de ações comunitárias”, disse o presidente da CNBB. A Igreja não pretende oferecer soluções técnicas para os problemas que aborda, mas o valor da fé e do amor que mostra que o semelhante não é um adversário, mas um irmão a ser amado, disse o Cardeal.

Cobertura

Todas as emissoras de TV de inspiração católica no Brasil, cinco grandes redes e duas TVs regionais, estiveram comprometidas com a transmissão do lançamento da Campanha da Fraternidade graças ao trabalho coordenado pela Signis Brasil, entidade católica que se ocupa com os meios de comunicação da Igreja. A Rede Católica de Rádio (RCR) também se fez presente oferecendo sinal de áudio para todas as emissoras interessadas no evento. A Assessoria de Imprensa da CNBB também ofereceu transmissão pelo Facebook e o vídeo já está disponível para ser visto na página @CNBBNacional. Fonte: http://cnbb.net.br

“Fraternidade e superação da violência” é o tema da Campanha para a Quaresma, em 2018. O Evangelho de Mateus inspira o lema: “ Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8).

Silvonei José – Cidade do Vaticano

Todos os anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresenta a Campanha da Fraternidade como caminho de conversão quaresmal. Um caminho pessoal, comunitário e social que visibilize a salvação paterna de Deus. “Fraternidade e superação da violência” é o tema da Campanha para a Quaresma, em 2018. O Evangelho de Mateus inspira o lema: “ Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8).

A Campanha será lançada oficialmente nesta Quarta-feira de Cinzas e tem como objetivo geral: “Construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência”.

De acordo com o Secretário-Geral da CNBB, Dom Leonardo Ulrichs Steiner, sofremos e estamos quase estarrecidos com a violência. Não apenas com as mortes que aumentam, mas também por ela perpassar quase todos os âmbitos da nossa sociedade. A ética que norteava as relações sociais está esquecida. Hoje, temos corrupção, morte e agressividade nos gestos e nas palavras. Assim, quase aumenta a crença em nossa incapacidade de vivermos como irmãos.

Por ocasião do lançamento da Campanha da Fraternidade 2018 o Papa Francisco enviou uma mensagem ao Presidente da CNBB, o arcebispo de Brasília, Cardeal Dom Sérgio da Rocha.

Eis na íntegra a mensagem do Papa:

Queridos irmãos e irmãs do Brasil!

Neste tempo quaresmal, de bom grado me uno à Igreja no Brasil para celebrar a Campanha “Fraternidade e a superação da violência”, cujo objetivo é construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência. Desse modo, a Campanha da Fraternidade de 2018 nos convida a reconhecer a violência em tantos âmbitos e manifestações e, com confiança, fé e esperança, superá-la pelo caminho do amor visibilizado em Jesus Crucificado.

Jesus veio para nos dar a vida plena (cf. Jo 10, 10). Na medida em que Ele está no meio de nós, a vida se converte num espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos (cf. Exort. Apost. Evangelii gaudium, 180). Este tempo penitencial, onde somos chamados a viver a prática do jejum, da oração e da esmola nos faz perceber que somos irmãos. Deixemos que o amor de Deus se torne visível entre nós, nas nossas famílias, nas comunidades, na sociedade.

“É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (1 Co 6,2; cf. Is 49,8), que nos traz a graça do perdão recebido e oferecido. O perdão das ofensas é a expressão mais eloquente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Às vezes, como é difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração, a paz. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança é condição necessária para se viver como irmãos e irmãs e superar a violência. Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: “Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento” (Ef 4, 26).

Sejamos protagonistas da superação da violência fazendo-nos arautos e construtores da paz. Uma paz que é fruto do desenvolvimento integral de todos, uma paz que nasce de uma nova relação também com todas as criaturas. A paz é tecida no dia-a-dia com paciência e misericórdia, no seio da família, na dinâmica da comunidade, nas relações de trabalho, na relação com a natureza. São pequenos gestos de respeito, de escuta, de diálogo, de silêncio, de afeto, de acolhida, de integração, que criam espaços onde se respira a fraternidade: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8), como destaca o lema da Campanha da Fraternidade deste ano. Em Cristo somos da mesma família, nascidos do sangue da cruz, nossa salvação. As comunidades da Igreja no Brasil anunciem a conversão, o dia da salvação para conviverem sem violência.

Peço a Deus que a Campanha da Fraternidade deste ano anime a todos para encontrar caminhos de superação da violência, convivendo mais como irmãos e irmãs em Cristo. Invoco a proteção de Nossa Senhora da Conceição Aparecida sobre o povo brasileiro, concedendo a Bênção Apostólica. Peço que todos rezem por mim.

 

Vaticano, 27 de janeiro de 2018.

[Franciscus PP.]

Fonte: http://www.vaticannews.va

Pelos próximos quatro dias parte do povo brasileiro estará mergulhado em meio a plumas, paetês, gliter, fantasias; muitas marchinhas, sambas de enredo, axé e alegria. É Carnaval, uma festa que já faz parte da vida cultural do nosso país.

 “O Carnaval não é uma festa proibida para os cristãos, o que a Igreja condena são os exageros”, disse padre Jair Rodrigues, de Brusque (SC) durante entrevista a uma rádio local. Pensamento bem oportuno neste período em que boa parte das pessoas se prepara para se divertir durante o feriado. Para o padre, cada indivíduo deve buscar na festa a beleza da confraternização, da alegria sem necessariamente cair nos abusos.

Para o  bispo auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre (RS), dom Leomar Brustolin, numa sociedade como a atual, os cristãos convivem com pessoas que cultivam diferentes valores, crenças e costumes. Essa pluralidade não pode ser um problema para um discípulo de Jesus Cristo que nada antepõe ao seguimento do Mestre.

“Por isso, no Carnaval o cristão evita duas posições: a omissão de quem aceita tudo em nome da alegria do momento, ou a demonização de quem só vê o pecado reinando. O discernimento supõe perceber que a alegria, a convivência, a música e a dança são expressões culturais importantes em todos os povos”.

O livro do Eclesiastes (9, 15ss) a palavra diz: “Por isso louvei a alegria, visto não haver nada de melhor para o homem (…) é isto que o acompanha no seu trabalho, durante os dias que Deus lhe outorgar debaixo do sol”. Já nos Provérbios (2,14-15), o Senhor lembra que há limites, pois são reprovados os “que se alegram por terem feito o mal e se regozijam na perversidade do vício, cujos caminhos são tortuosos e se extraviam por vias oblíquas”.

Durante o feriado do Carnaval é importante o cuidado com a preservação da fé e, principalmente, o cuidado com a vida. Neste período, muitas pessoas aproveitam essa data para extravasarem seus desejos, influenciados pela sensação de ”liberdade”, em que tudo é permitido.

É comum, portanto, vermos nos carnavais a presença do excesso: de bebidas, de drogas, do apelo sexual etc. Tal comportamento vem acompanhado do vazio, da “ressaca moral”. Situações que ocorrem também em outras épocas do ano, não apenas no carnaval.

Dom Leomar ressalta que alguém poderá dizer que é improvável que a maioria dos foliões consiga superar os excessos que são comuns aos festejos carnavalescos. Mas o que é improvável não é impossível. Em diferentes épocas, os seguidores de Jesus precisaram testemunhar que sua fé não os apartava do mundo, tampouco os obrigava a fazer concessões de todo tipo para serem aceitos na sociedade. Tomemos o exemplo da Carta a Diogneto, um escrito do século II que retrata a vida dos seguidores de Jesus naquele contexto: Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. (…) e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal.

Segundo a Enciclopédia Larousse Cultural, o termo Carnaval vem do latim medieval carnelevarium, carnilevaria, carnilevamem, que significa “abster-se, afastar-se da carne”. Era um período anual de festas profanas e hoje corresponde ao período de três dias, que antecede a Quarta-Feira de Cinzas, vésperas da Quaresma – período durante o qual é recomendada a prática da penitência e abstinência de carnes vermelhas.

Dom Leomar Brustolin salienta que num país onde o Carnaval faz parte da cultura, os cristãos compreenderão essa festa como uma oportunidade de expressar que é possível ser feliz sem cometer infidelidades ao ensinamento de Cristo. O paradoxo consiste em festejar a beleza da convivência, sem apelar para os recursos que mascaram a verdade e a bondade que devem marcar a existência humana.

Neste período carnavalesco, é importante ressaltar o respeito aos símbolos religiosos bastante caros aos cristãos católicos, como o crucifixo e a eucaristia. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) já se manifestou em relação ao mau uso desses símbolos. Em nota publicada em outubro de 2017, por ocasião as exposições de arte, a Conferência ressaltou que a fé e arte sempre andaram juntas. E prega mais respeito e tolerância com a fé do povo brasileiro, reconhecido por sua religiosidade, presente em diversas manifestações de norte a sul.

“Em toda a sua história, a Igreja sempre valorizou a cultura e a arte, por revelarem a grandeza da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, fazendo emergir a beleza que conduz ao divino”, ressalta o texto.

Carnaval Cristão

Muitos os cristãos encontram outra forma de aproveitar o feriado e participam dos chamados “Carnaval com Cristo”. Muitas pastorais, movimentos e comunidades se mobilizam para realizar o “Carnaval Cristão”, espaços onde os fieis manifestam a alegria cristã participando de retiros, encontros, adoração ou outras experiências espirituais.

É o caso do Rebanhão tradicional carnaval católico promovido há 32 anos pela Renovação Carismática Católica do Distrito Federal (RCC-DF). Com o tema: “Retornai ao primeiro AMOR” (Cf Ap 2, 4b), o evento começa no domingo de carnaval (11) e vai até a terça-feira (13), com um programação que envolve missas presididas pelo arcebispo de Brasília e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cardeal Sergio da Rocha.

Em Fortaleza (CE) de 10 a 13 de fevereiro acontece o Renascer, um retiro de carnaval realizado pela Comunidade Católica Shalom. O objetivo é um “carnaval diferente”, a fim de possibilitar que as pessoas façam uma experiência com a verdadeira alegria, uma experiência com Deus.

Cuidado com a vida

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) realizará a Operação Carnaval 2018 em todo o Brasil a partir desta sexta-feira (09). A operação Carnaval seguirá até a quarta-feira (14).  O Carnaval é um dos períodos mais críticos do calendário nacional de operações da PRF, pois conta com grande fluxo de veículos nas rodovias federais e o uso abusivo de álcool é uma das principais preocupações do Órgão. Em 2017, a PRF registrou 1.696 acidentes de trânsito durante o carnaval, sendo 323 acidentes graves e 140 mortes.

Finalizando sua reflexão, dom Leomar Brustolin disse que há quem prefira os retiros para passar os dias de carnaval, outros aproveitam para participar de festas promovidas por grupos paroquiais e de movimentos, para se divertirem em ambientes de maior afinidade. E há aqueles que passam esses dias em meio aos demais foliões. Nesse caso, o testemunho cristão dependerá de atitudes concretas que revelam fidelidade a Jesus Cristo. Nada mais estranho para um cristão do que crer e pensar de uma forma, e agir e viver de outra.

“A coerência entre o ser e o fazer do cristão se manifesta tanto na dor quanto na alegria, por isso, nem mesmo o Carnaval pode impedir o testemunho da fé de um discípulo”, destaca.

Agora, aquela velha e boa dica de sempre: Se beber, não dirija! Curta o Carnaval com responsabilidade. Fonte: http://cnbb.net.br

Na primeira Missa da semana na Casa Santa Marta o Papa Francisco disse que a paciência é a virtude de quem está em caminho.

Cidade do Vaticano – (12/02/2018)

“A fé, colocada à prova, produz paciência.” O Papa Francisco inspirou sua reflexão na Primeira Leitura do dia, de São Tiago Apóstolo.

Paciência não é resignação ou derrota

Mas o que significa ser paciente na vida e diante das provações? Certamente não é fácil entender, observou Francisco, que logo distingue a paciência da resignação e da derrota, mostrando a paciência, ao invés, como a “virtude” de “quem está em caminho”, não de quem está “parado” e “fechado”:

"E quando se vai em caminho acontecem tantas coisas nem sempre boas. É tão significativo para mim a paciência como virtude em caminho, a atitude dos pais quando têm um filho doente ou deficiente, nasce assim. “Mas graças a Deus está vivo!”: assim são os pacientes. E criam toda a vida aquele filho com amor, até o fim. E não é fácil levar por anos e anos e anos um filho com necessidades especiais, um filho doente… Mas a alegria de ter aquele filho dá a eles a força de levar avante e isso é paciência, não é resignação: isto é, é a virtude que vem quando uma pessoa está em caminho".

O impaciente rejeita e ignora os próprios limites

Ao invés, o que nos ensina a etimologia da palavra “paciência”, se pergunta o Papa? O significado  traz consigo o sentido de responsabilidade, porque o “paciente não deixa o sofrimento, o suporta”, e o faz “com alegria, ‘perfeita alegria’, diz o apóstolo”:

“A paciência significa “suportar” e não confiar a um outro para que carregue o problema, que carregue a dificuldade: “Carrego eu, esta é a minha dificuldade, é o meu problema. Faz-me sofrer? Eh, certo! Mas eu a carrego. Suportar. E também a paciência é a sabedoria de saber dialogar com o limite. Existem tantos limites na vida, mas a impaciência não os quer, os ignora porque não sabe dialogar com os limites. Há uma fantasia de onipotência ou de preguiça, não sabemos...”.

Deus com paciência nos acompanha e nos espera

A história da salvação nos mostra “a paciência de Deus, nosso Pai”, que conduziu e levou em frente o seu “povo cabeça-dura”, toda vez que “construía um ídolo e ia de uma parte a outra”.

Mas paciência é também aquela que o Pai tem com cada um de nós, “acompanhando-nos” e “esperando os nossos tempos”. Deus que mandou depois seu Filho para “ser paciente” e oferecer-se à paixão “com decisão”:

“E aqui eu penso em nossos irmãos perseguidos no Oriente Médio, expulsos por serem cristãos... e eles fazem questão de ser cristãos: são pacientes como o Senhor é paciente. Com estas ideias, talvez, possamos hoje rezar, rezar pelo nosso povo: “Senhor, dá ao teu povo paciência para suportar as provações”. E também rezar por nós. Tantas vezes somos impacientes: quando uma coisa não dá certo, reclamamos... “Mas, pare um pouco, pense na paciência de Deus Pai, tenha paciência como Jesus”. É uma bela virtude a paciência, peçamo-la ao Senhor”. Fonte: http://www.vaticannews.va

O carnaval é a maior festa popular do Brasil e do mundo. Nos quatro dias da manifestação cultural, o povo é embalado pelo samba, frevo, axé e por tantos outros ritmos. A diversidade da festa é característica nas multidões que brincam nas diferentes expressões da folia de cada cidade brasileira. Nas marchinhas, nas batucadas, nos sambas-enredos, nos blocos, nos bonecos gigantes, nos carros alegóricos, nas fantasias, nas plumas, nos paetês, nas purpurinas, nos confetes e nas serpentinas estão impressas as cores da beleza da cultura brasileira que dão vida à festa.

 “O carnaval é uma época de festa, de reunir os amigos e vivenciar a alegria do momento. Já tive fases em que via o carnaval como momento de desapego, de extravasar. Mas hoje, nada mais é do que uma oportunidade para sair da rotina e curtir com os amigos”, declara a jornalista Priscilla Peixoto, da paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Taguatinga (DF).

Sob influência das festas carnavalescas que aconteciam na Europa, a festa chegou ao Brasil em meados do século XVII. Mas, por aqui, só no final do século XIX que começaram a aparecer os primeiros blocos.

As pessoas se fantasiavam, decoravam seus carros e, em grupos, desfilavam pelas ruas das cidades, afirma o historiador André Diniz, no livro Almanaque do Carnaval. Segundo a obra, a primeira marchinha “Ó abre alas” foi feita em 1899, por Chiquinha Gonzaga, para o cordão carnavalesco Rosa de Ouro.

No Brasil, o carnaval se expressa em três grandes eixos. No Rio de Janeiro e em São Paulo, predominam os desfiles das Escolas de Samba e dos blocos de rua. Já em Pernambuco, os bonecos gigantes dão o tom ao frevo de rua e em Salvador a folia é por conta dos trios de axé que arrastam multidões. É nessas três vertentes que o brasileiro se diverte nos quatro dias que antecedem o início da Quaresma, período de quarenta dias que antecedem a principal celebração do cristianismo: a Páscoa.

FÉ E SAMBA

Igor Ricardo, da paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro 25 de agosto, em Duque de Caxias (RJ), nasceu em uma família católica, mas também do samba.

“Eu fui criado indo para a Igreja aos domingos, mas ao mesmo tempo cresci nas quadras das escolas de samba. Meus familiares – pais e tios – são ligados ao samba”, disse explicando como concilia a sua devoção à Igreja e também ao carnaval.

Segundo ele, é possível vivenciar o carnaval e ser católico já que são duas coisas totalmente distintas. “A minha fé não é abalada em momento nenhum pelo carnaval. Me sinto à vontade em dizer que sou católico e não me sinto rejeitado por ser um ambiente que têm muitas pessoas de outras religiões”, ressalta.

O mesmo acontece nas quadras das escolas que frequenta: “Eu não me sinto invadido, nem desrespeitado no samba por ser católico”, disse.

Um bom exemplo da relação da fé com o carnaval tornou-se samba enredo nas mãos dos carnavalescos da escola de samba Unidos da Vila Maria, em São Paulo (SP), em 2017. A escola homenageou a padroeira do Brasil com o enredo “Aparecida – A Rainha do Brasil. 300 anos de amor e fé no coração do povo brasileiro”. A agremiação lembrou os 300 anos da aparição da imagem da padroeira do Brasil, no Rio Paraíba do Sul (SP).

A homenagem contou com o aval do arcebispo de São Paulo, cardeal Odilo Scherer, e por representantes da arquidiocese e do Santuário Nacional de Aparecida. O pedido feito pela Unidos de Vila Maria chegou à arquidiocese em 2015 e foi levado ao conselho Pro-Santuário Nacional de Aparecida, encarregado de acompanhar, em nome da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a vida pastoral e administrativa do Santuário.

Após vários pedidos de esclarecimentos, por unanimidade, a Arquidiocese de São Paulo deu parecer favorável à iniciativa, mas fez algumas recomendações conforme nota publicada no site da arquidiocese de São Paulo.

 “Alguns critérios tiveram de ser observados: o respeito à imagem de Nossa Senhora Aparecida, à fé e à religiosidade do povo católico; fidelidade aos fatos históricos; apresentação da genuína piedade mariana católica, sem sincretismos; decoro no desfile da escola, sem exposição de nudez e a supervisão dos preparativos pelo Santuário de Aparecida e pela Arquidiocese de São Paulo”, destacou.

O assessor de imprensa da Arquidiocese de São Paulo, Rafael Alberto, um dos representantes da Igreja que ajudou a Escola a desenvolver o enredo, disse que a agremiação aceitou sem reservas todos esses critérios. Indicado pela arquidiocese, ele participou de tudo: supervisionou o desenvolvimento do enredo, avaliou a letra do samba até a elaboração das fantasias, incluindo a da madrinha da bateria.

À época, o cardeal Odilo Scherer chegou a perguntar se o sambódromo é o lugar mais adequando para homenagear a padroeira do Brasil e concluiu: “Até pode ser, pois tudo depende da intenção e da forma como as coisas são feitas. No caso em questão, a intenção é boa e a forma também. O lugar seria impróprio para honrar a puríssima Virgem Maria? Mas será que Maria não gostaria de chegar lá, onde mais se faz necessária a sua presença?”, problematizou.

O jovem Igor Ricardo vivenciou, em 2017, uma experiência de fé no carnaval. Como jornalista, ele fez uma reportagem com um padre que desfilou como passista em uma escola em uma ala tradicional onde desfilam os passistas. Ele perguntou ao padre: “É possível vivenciar o carnaval sendo católico?”. A resposta do padre mexeu com suas certezas. O religioso afirmou que o pecado está na cabeça das pessoas e no ato praticado por elas. “A minha fé independe de eu estar sambando. Eu sambo pela arte e pela cultura, não para cometer o pecado”, acrescentou o padre passista. Essa resposta, disse Igor, mudou a sua visão de fé como católico e também como amante da cultura da escola de samba.

A jovem Priscila Peixoto também não vê problemas em vivenciar o carnaval sendo católica. “Independentemente da religião, o nosso caráter, nossa essência e nossa crença não devem ser abalados pelo calor de um momento. É uma festa como outra qualquer. A gente tem que desapegar desse estigma de que um cristão não pode se divertir e tem que estar somente na Igreja. Todo lugar é lugar de evangelizar”, frisou.

Segundo Priscila, é importante termos a consciência de que tudo na vida tem limites. “Se estamos em uma festa e esquecemos nossos valores, bebemos além da conta, estamos exercendo o livre arbítrio de forma equivocada. Mas nada nunca me impediu de ser cristã, de beber sim, de conhecer pessoas e de saber até onde eu posso ir. A maturidade nos traz isso e a fé confirma”, avalia.

O carnaval é uma expressão cultural que tem inúmeras manifestações e deve ser vivenciado de forma a expressar a alegria pelo canto e pela dança. Por outro lado, o Arcebispo de Salvador (BA), dom Murilo Krieger adverte que o bem-aventurado Papa Paulo VI, na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, lembra que nem toda cultura é, por si mesma, valiosa. “Cabe a nós, portadores da mensagem de Jesus Cristo, penetrar nas culturas e introduzir nelas os valores do Evangelho. Foi isso que fizeram os cristãos com lugares e festas pagãs”, disse.

Neste Ano Nacional do Laicato, o arcebispo reforça que o carnaval é um imenso desafio para a ação evangelizadora dos leigos e leigas. “Que o Espírito Santo os ilumine nessa tarefa”, pediu o bispo. Fonte: http://cnbb.net.br

Papa no Angelus neste domingo, 11: “Nenhuma doença é causa de impureza"

Francisco recordou que neste domingo celebra-se o Dia Mundial dos Enfermos, memória de Nossa Senhora de Lourdes.

Silvonei José - Cidade do Vaticano

“Nestes domingos, o Evangelho, segundo a narração de Marcos, nos apresenta Jesus que cura os doentes de todos os tipos. Neste contexto, se insere bem o Dia Mundial dos Enfermos que se celebra precisamente hoje, 11 de fevereiro, memória de Nossa Senhora de Lourdes. Portanto, com o olhar do coração dirigido à gruta de Massabielle, contemplamos Jesus como o verdadeiro médico dos corpos e das almas, que Deus Pai enviou ao mundo para curar a humanidade, marcada pelo pecado e suas consequências”. Com essas palavras o Papa Francisco iniciou a sua alocução que precedeu a oração mariana do Angelus com os fiéis reunidos na Praça São Pedro, no Vaticano.

O estigma social jamais deve nos afastar daqueles que sofrem. “Nenhuma doença é causa de impureza: a doença certamente envolve toda a pessoa, mas de modo algum afeta ou impede seu relacionamento com Deus. Pelo contrário, uma pessoa doente pode estar ainda mais unida a Deus”, disse o Papa Francisco.

“O pecado, esse sim nos torna impuros!”, disse o Pontífice enfatizando que “o egoísmo, o orgulho, o entrar no mundo da corrupção, essas são doenças do coração das quais é preciso sermos purificados, dirigindo-se a Jesus como o leproso: ‘Se queres, tens o poder de purificar-me'. “Ao ouvir isso - recordou o Papa – Jesus sente compaixão, muito importante para fixar a atenção sobre essa ressonância interna de Jesus, como fizemos longamente durante o Jubileu da Misericórdia. Não se entende a obra de Cristo, não se entende o próprio Cristo, se não entrarmos no seu coração cheio de compaixão. É isso que o leva a estender a mão ao homem que sofre de lepra, tocá-lo e dizer-lhe: “Eu quero, fica purificado”.

“No Antigo Testamento – recordou Francisco - era considerado uma grave impureza e comportava a separação do leproso da comunidade. A sua condição era realmente dolorosa, porque a mentalidade do tempo o fazia sentir-se impuro diante de Deus e dos homens”.

Segundo o Papa, “o fato mais perturbador é que Jesus toca o leproso, porque isso era absolutamente proibido pela lei mosaica. Tocar um leproso significava ser também contagiado também dentro, no espírito, isto é, tornar-se impuros. Mas, neste caso, o influxo não vai do leproso a Jesus para transmitir o contágio, mas de Jesus ao leproso para dar-lhe a purificação. Nesta cura, admiramos, além da compaixão, também a audácia de Jesus, que não se preocupa nem com o contágio, nem com as prescrições, mas é movido somente pela vontade de libertar aquele homem da maldição que o oprime”.

Então o Papa pediu aos fiéis presentes na Praça São Pedro para fazerem um exame de consciência e depois repetir com ele as palavras do leproso: ‘Se queres, tens o poder de purificar-me'. “Toda vez que nos aproximamos do sacramento da Reconciliação com o coração arrependido, o Senhor – explicou Francisco - repete também a nós: “Eu quero, fica purificado!”. Assim a lepra do pecado desaparece, voltamos a viver com alegria o nosso relacionamento filial com Deus e somos readmitidos plenamente na comunidade”.

Francisco concluiu invocando a intercessão da Virgem Maria, Nossa Mãe Imaculada: “peçamos ao Senhor, que trouxe aos enfermos a saúde, que cure também as nossas feridas internas com a sua infinita misericórdia, para assim nos dar novamente a esperança e a paz do coração”. Fonte: http://www.vaticannews.va

O Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita e Jornalista/RJ- no meio da muvuca no circuito do Carnaval do Pelô- traz imagens de um trabalho de Evangelização de uma Igreja Evangélica em pleno carnaval de Salvador- BA. No vídeo, pregação do Cantor e compositor, Cid Guerreiro. Para conhecer este trabalho, acesse a página: www.facebook.com/ibmiweb

Evento, da Renovação Carismática Católica, começaria neste sábado (10) e foi cancelado. Quatro pessoas carregavam cruz que atingiu fio de alta-tensão na fazenda onde o acampamento ocorreria.

Um homem morreu e outros três ficaram feridos após serem atingidos por uma descarga elétrica em uma fazenda, nessa sexta-feira (9), em Mirassol D’Oeste, a 329 km de Cuiabá.

Segundo a Polícia Militar, um grupo de pessoas montava a estrutura de um retiro católico quando ocorreu um acidente. Eles carregavam uma cruz, que teria encostado em um fio de alta-tensão, e receberam a descarga. O homem que morreu foi identificado como Valdir Alves, de 60 anos. Ficaram feridos Edemilson Pereira, de 46, Pedro Camargo, de 53, e Juvenil Ferreira Guia, de 50 anos.

Eles são integrantes do grupo que realizaria o acampamento de oração da Renovação Carismática Católica (RCC) de Mirassol D’Oeste. De acordo com a PM, o dono da fazenda relatou que a estrutura do acampamento estava sendo montava na propriedade dele.

Quinze pessoas trabalhavam na montagem do evento, que começaria neste sábado (10) e terminaria na terça-feira (13). Os organizadores retiraram uma cruz, feita de metalão, de dentro da casa na fazenda e a carregavam, verticalmente, até que a estrutura tocou em um fio de alta-tensão.

As testemunhas ouviram um estouro e encontraram as vítimas caídas no chão. As quatro pessoas foram socorridas até o Hospital Samuel Greve, em Mirassol D’Oeste. A fazenda fica a 30 km da cidade.

Os funcionários do hospital ligaram para a polícia e informaram que Valdir chegou morto ao local. Juvenil, Pedro e Edemilson tiveram pequenos ferimentos pelo corpo.

A coordenação do acampamento disse ao G1 que os três já tiveram alta médica e se recuperam dos ferimentos em casa. Ainda conforme a organização do evento, o acampamento foi cancelado por causa da morte do integrante do grupo. Estavam previstos 120 participantes, além de 200 pessoas trabalhando no retiro.

O velório de Valdir é realizado na funerária Parque dos Ipês. A previsão é que o corpo dele seja enterrado, no período da tarde, na cidade de São José dos Quatro Marcos, a 343 km de Cuiabá. Fonte: https://g1.globo.com

É possível acabar com a violência?

Onde a educação é de baixa qualidade, é preciso investir logo na construção de presídios

Dom Odilo P. Scherer, Cardeal-arcebispo de São Paulo

Os números da violência no Brasil são impressionantes! Embora tenha menos de 3% da população mundial, o País tem quase 13% dos assassinatos em relação a essa mesma população, conforme dados do Atlas da Violência, divulgado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (9/6/2017).

Somos campeões absolutos na lista nada gloriosa dos países com maior índice de violência do mundo. Em 2014 foram 59.627 mortes por atos violentos. A taxa de homicídios por 100 mil habitantes chega a ser 13.100% maior que na Inglaterra e 609,3% maior que na vizinha Argentina! No Brasil morrem mais pessoas a cada ano, vítimas de assassinato, do que em qualquer país em guerra declarada atualmente! Como chegamos a essa situação e o que pode ser feito para mudar esse quadro nada lisonjeiro?

Quem põe essa questão em discussão é a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por intermédio da Campanha da Fraternidade, promovida, mais uma vez, durante o tempo da Quaresma, enquanto os católicos se preparam para a celebração da Páscoa. “Fraternidade e superação da violência” é o tema da campanha. O lema – “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8) – é uma recomendação de Jesus aos discípulos.

Os motivos da escolha do tema são mais que óbvios e se impõem por si mesmos. O problema da violência é muito sério no Brasil e todos são chamados a fazer a sua parte para mudar esse quadro, antes de nos tornarmos vítimas da violência também nós mesmos. Esta campanha pretende contribuir para a superação da violência, a promoção da cultura da paz e da não violência, da justiça e da reconciliação. Na linha desse objetivo, são propostas diversas ações, como a conscientização sobre a amplidão e a gravidade da violência no Brasil, a identificação das causas mais difusas e das formas que a violência assume, os fatores que mais a desencadeiam e a busca das soluções eficazes para enfrentar e mudar essa situação. Não é possível continuar assim!

Muitas são as faces da violência e ela se verifica na cidade e no campo, na vida privada, na esfera doméstica e pública, no esporte, no trabalho e até na escola. Há violência física e moral, sexual e cultural... Os dados objetivos mostram haver situações em que a violência se dá com maior frequência e deveriam merecer atenção especial da sociedade e das autoridades competentes. Grande parte das mortes decorrentes da violência relaciona-se ao tráfico e ao consumo de drogas ilícitas e de álcool. O contrabando e o comércio de armas, a exploração sexual e o crime organizado são outros fatores que desencadeiam violência pesada.

A ausência ou ineficiência do Estado e a falta de políticas e ações eficazes de proteção e defesa da população favorecem a instalação do crime organizado e da violência sistemática, muito difícil de serem combatidos. A corrupção e a má gestão dos recursos públicos estão na raiz de muita violência contra o cidadão, como também a morosidade e ineficiência da Justiça, que sinalizam para a impunidade e passam a ideia de que o crime e a violência compensam. A complacência diante do ilícito e da pequena corrupção pode deixar marcas em certa cultura tolerante com a violência.

Como solução para o problema da violência se aponta logo o endurecimento das leis e das políticas repressivas, a construção de presídios, a melhor preparação das polícias... Tudo isso, certamente, pode ter o seu peso, mas por si só não resolve a questão. Por outro lado, pretende-se explicar a violência a partir das persistentes injustiças sociais, da falta de ocupação e trabalho e das condições de vida pouco dignas de grande parte da população. Também nisso há muita verdade, sem justiça e solidariedade social nenhum país consegue acabar com a violência. E enquanto permanecer a sutil sinalização de que o crime compensa, haverá sempre muita violência.

Mesmo assim, o cessar da violência dificilmente se concretizaria, ainda que fossem superados todos os fatores que costumam desencadeá-la. O meio social e os condicionamentos estruturais e culturais, apesar de contribuírem muito para moldar o ser humano e o seu comportamento, não os determinam, em absoluto. O determinismo não se aplica nem sequer a um ambiente saneado, de cujo meio também podem sair pessoas violentas. O ser humano é dotado de liberdade e, por isso, pode ser ajudado a fazer escolhas não violentas. E aqui entra o papel fundamental da educação.

Sem uma melhoria significativa na educação será difícil controlar a violência. Penso na educação formal e na informal, que envolve toda a sociedade. E não bastam escolas em número suficiente, é necessário melhorar a qualidade da educação, que também contemple a formação do caráter e proponha valores e atitudes social e eticamente aceitáveis, preparando cidadãos de bem, em lugar de indivíduos associais e candidatos aos presídios. Onde a educação é de baixa qualidade, é preciso investir logo na construção de presídios...

A Campanha da Fraternidade propõe mais uma boa reflexão, que não deveria ser subestimada. A educação precisa investir mais e melhor na educação do senso moral das pessoas. Não se trata de moralismo, mas de educação do senso moral. O aparato repressivo e judicial deveria ser apenas um recurso extremo para impedir ou corrigir a violência. A partir da educação boa e da formação moral, as pessoas deveriam ser levadas a evitar a violência, não por coação externa, mas por uma lei interior assumida livremente, gravada na consciência. A fundamentação dessa moral é dada pelo lema da Campanha da Fraternidade: “Vós sois todos irmãos”. O que não é aceitável que seja feito contra mim também não deve ser feito contra o próximo.

Fonte: http://opiniao.estadao.com.br