A Ordem Terceira da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo é uma associação de leigos cristãos que, correspondendo a um chamado de Deus, prometem livre e deliberadamente viver a vida segundo o Evangelho, no espírito da Ordem do Carmo e debaixo da sua direção. É-lhes apresentada a seguinte norma de vida.

Podem ser também membros desta Ordem Terceira sacerdotes do clero diocesano. À espiritualidade deles não se aplica a característica de secularidade própria dos leigos, visto que, devido ao caráter sacerdotal e à sua missão totalmente distinta no seio da Igreja, foram chamados, ainda que sem dele se afastar, a manter com o mundo uma atitude de espiritual desprendimento[1].

Por isso mesmo encontrarão uma grande ajuda no carisma do Carmelo, como um meio, não somente, de fazerem crescer a própria vida espiritual, mas também de alcançarem com mais facilidade este desprendimento e cumprirem da maneira mais eficaz a própria missão no mundo e na Igreja.

*Da Regra da Venerável Ordem Terceira do Carmo.

[1]. PO 3

Nenhum carmelita pretende alcançar o cume do Monte, que é Cristo Senhor, sem a experiência do deserto, isto é, sem um processo de transformação, onde sempre deixa mais espaço para Deus na própria existência. O combate contra o mal dentro de si mesmo e em volta de si é um meio indispensável para também poder chegar - se Deus o quer - aos estágios mais elevados da contemplação, puro dom de Deus. Num mundo ávido de prazeres terrestres, o Carmelo afirma tudo o que é nobre e tudo o que é bom, mas ao mesmo tempo aponta para a relatividade de tudo o que não é Deus, praticando o desapego do coração das coisas terrenas, para poder em Deus, seu princípio e fim, reencontrá-las no seu verdadeiro valor.

Os leigos carmelitas percorrem também o insubstituível caminho do deserto da mortificação interior, a fim de penetrarem na escuta do Senhor, que lhes fala ao coração mesmo nas manifestações novas e convulsionantes da vida do mundo, e dali retornam como entusiasmados e incansáveis animadores do ambiente, onde são chamados a trabalhar e, como generosos colaboradores da hierarquia e das várias organizações, participar ativamente da vida da comunidade dos fiéis.

Os nossos Terceiros verão e saberão mostrar como as atividades temporais e o próprio trabalho material são uma participação na obra do Pai sempre criadora e transformadora[1], um verdadeiro serviço prestado aos irmãos e à promoção pessoal do homem[2].

Testemunhas num mundo, que na sua realidade quotidiana não percebe, de fato, ou rejeita totalmente a íntima e vital ligação com Deus[3], os leigos cristãos reconhecem e compartilham com simpatia as suas esperanças e profundas aspirações, porque foram chamados para serem sal da terra e luz do mundo[4] e comunicarem ao povo a boa nova da salvação[5].

*Da Regra da Venerável Ordem Terceira do Carmo.

 

    [1]. GS 64

    [2]. GS 35

    [3]. GS

    [4]. Mt 5,13

    [5]. Lc 1,77

A Igreja tem a missão de difundir sobre a terra o Reino de Cristo para tornar todos os homens participantes da salvação operada pela Redenção[1]. Assim como é próprio dos leigos viver no mundo e no meio dos afazeres seculares, igualmente são chamados por Deus a desenvolverem a missão da Igreja e a serem fermento cristão nas atividades temporais, nas quais estão profundamente empenhados[2] "Os fiéis leigos não podem, na verdade, abdicar da participação na «política», ou seja, nas múltiplas e variadas ações econômicas, sociais, legislativas, administrativas e culturais, destinadas a promover o bem comum orgânica e institucionalmente"[3].

O testemunho da vida cristã e as boas obras praticadas com espírito sobrenatural têm a força de atrair as pessoas para a fé em Deus, tornando-se assim "o louvor de glória" de Deus segundo o ensinamento da Beata Isabel da Trindade. Por isso o verdadeiro apóstolo busca e procura as ocasiões para anunciar Cristo, especialmente nestes tempos que apresentam cada vez novos problemas religiosos, morais e sociais[4].

Quanto a este objetivo os leigos encontram no Profeta Elias um valiosíssimo motivo de inspiração. Envolvido num mundo em transformação, que levava o povo à negação gradual de Deus pela persuasão da sua própria autossuficiência, o Profeta era sustentado pela certeza de que Deus é mais forte do que toda crise e todo perigo. Através da experiência do deserto, onde a sobrevivência só é assegurada pela intervenção divina, Elias tornou a encontrar Deus sobre a montanha, lugar primeiro da Aliança, e aceitou a irrupção divina na sua própria vida sob a manifestação nova e íntima da brisa leve[5]. Depois disto foi reenviado para a sua missão profética e comunitária na vida quotidiana, seguro de si, porque seguro de Deus.

*Da Regra da Venerável Ordem Terceira do Carmo.

 

    [1]. AA 2

    [2]. LG 31

    [3]. CfL 42

    [4]. AA 6

    [5]. 1Rs 19,4-15

"Salsichinha feia, com nome de cachorro"

Foi numa romana e primaveril manhã, 3 de maio de 1886, que nasceu o décimo primeiro filho (quinto dos sobreviventes) do casal Pedro Cristiano Van Eerenbeemt e Joana de Negri.

 No  dia 5 do mesmo mês foi levado à pia batismal, "primeiro encontro com a graça", na Igreja de S. João dos Fiorentíni, em Roma. O padrinho foi o conde Heitor Genuíni, de quem tomou o nome de Heitor, seguido de Pio, Mariano, Luís.

 Pelo nome de Heitor ele próprio não tinha muita simpatia, pois, excetuada a glória troiana, fazia-lhe lembrar muito um nome de cachorros, muito comum na Holanda. Essa antipatia cresceu ainda mais durante sua estada em terras holandesas.

Ele gostava muito de relembrar os fatos de sua infância com uma disposição jovial e com aquele caráter bom, alegre e senhoril, que impressionava até o mais distraído observador.

Referindo-se àquele período, ele se autodefinia como "salsichinha feia, com nome de cachorro", uma "criança meio atrasada", embora isso não  fosse verdade; uma criança tímida, isso sim, sem dúvida.

A mãe, não tendo leite suficiente para amamentar esse décimo primeiro filho, teve que contar com uma ama de leite, de Ceccano (Frosinone)* , para onde o pequeno Heitor foi enviado e permaneceu por um longo tempo, depois do período de amamentação. De fato, voltou à família já grandinho e até já sabia falar. Realmente, quando ele voltou para casa, exibiu logo sua linguagem dialetal, ao manifestar uma ligeira indisposição: “Me dói a pança!”. O que provocou grande admiração dos pais e dos irmãos maiores.

O pai, Pedro, de família católica tradicional, nasceu em Hertogembosch (Holanda), no dia 16 de maio de 1846. Importante banqueiro, transferiu-se para Roma em 1870, com uma legião estrangeira, em defesa do Papa. Em Roma, entre outras múltiplas atividades, montou uma loja de livros de música e conseguiu italianizar-se com o nome de Cristiano, em substituição ao seu áspero nome de origem.

A mãe, filha de abastada família romana, nasceu em Roma, no dia 1.º de julho de 1854, sendo oito anos mais jovem que o marido. Casaram-se a 7 de janeiro de 1874. A realização de seus sonhos de amor, abençoados por Deus, é coroada pelo nascimento de uma numerosa prole: são doze os flocos azuis e rosa que se alternaram em casa. Somente seis, porém, sobreviveram, pois os demais bem cedo voaram ao céu. Mas Deus segue com olhar paterno a querida família e, mais tarde, reservará para o seu serviço dois de seus filhos: Emílio e Heitor.

O pequeno Heitor permanece, como se diz, "o caçula da casa", pois os três irmãos: Emílio, Eurico, Ubaldo e a irmã Guilhermina são mais velhos do que ele.  Depois dele nasce Ema, a irmãzinha que se tornará um pouco a companheira dos seus brinquedos e das suas recordações.

Depois que voltou da casa da ama, seu período campesino, começou a freqüentar uma espécie de pré-escola, dirigida por uma velha professora. Primeira recordação: um castigo! Uma folha de papel rabiscada dependurada nas costas. Essas atitudes pouco pedagógicas (ainda que em uso naquele tempo), influíam muito no seu caráter já muito tímido, sensível, choramingão, como ele mesmo no-lo apresenta: "... suscetível ao excesso, não suportava repreensões e muito menos castigos ou palmadas, nem da minha mãe;  meu pranto e meu ressentimento duravam séculos" (Diário).

Deve ter sido mesmo a falta de tato de alguma primeira professora que influiu de modo tão incisivo sobre ele, também em nível inconsciente. Mas Deus permite o mal para daí fazer surgir o bem. Esses sentimentos, em si mesmos negativos, produzem frutos bons, pois, quando se tornou padre, sentiu sempre grande atração pela juventude, especialmente a mais necessitada, tendo para com ela sentimentos sublimes de respeito e de amor, ajudando-a no crescimento moral e intelectual.

Ajudou os jovens a se formarem de maneira harmônica, para o bem da Igreja e da sociedade, e tornou-se o apóstolo da juventude. "... Recordem-se da nossa santa missão nesta terra: a educação da juventude" (carta às Irmãs, Natal de 1960). Isso foi sempre seu ponto central, até os últimos anos de  vida.

De fato, assim se expressava numa de suas últimas cartas às Irmãs: "Tenham  grande amor pela juventude, salvem a juventude. Não sejamos indolentes em nada, tenham um coração grande, e, para isso, imitem Jesus” (Natal de 1968). 

*Pequena biografia de Padre Lourenço van den Eerembeent, Cofundador da Congregação das Irmãs Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus. (Irmãs Carmelitas Missionárias- Província S. Teresa de Lisieux. Uberaba, 1999)

Fazer caminhada era seu esporte preferido. Um enamorado da natureza. Alguém que via longe, descortinava amplos horizontes.

Apaixonado pelo estudo, amante da liberdade, um sonhador. Bom coração, daquela bondade terna e exigente. Culto e simples, amigo da juventude, protetor dos pobres e indefesos: um “Homem de Deus”.

Este é Padre Lourenço van den Eerenbeemt, cofundador da Congregação das Irmãs Carmelitas Missionárias.

Estas páginas são apenas um esboço de biografia deste santo Homem. Inicialmente, baseando em suas anotações, encontramos uma breve narrativa de seus primeiros anos de vida. A partir do capitulo VIII, é ele mesmo que, com seu estilo simples e atraente nos confia, de modo sintético, algumas  anotações de sua vida e seus sentimentos profundos.

Esta pequena biografia foi publicada no Noticiário da Congregação, In Cordata, nos anos 1992 e 1993. Traduzido em português em 1994, por Ir Josefina Baraldi, foi revisto e corrigido em 1999. O texto atual foi revisto pelo Irmão Salvador  Durante, marista.

A finalidade deste pequeno opúsculo è tornar conhecida, ainda que de forma muito imperfeita, por ser muito sintético e incompleto, a figura extraordinária de Padre Lourenço.

A esperança è que, em breve, o possamos conhecer melhor através de seus escritos e de diversos testemunhos daqueles que ao conheceram e com ele convireram.

*Pequena biografia de Padre Lourenço van den Eerembeent, Cofundador da Congregação das Irmãs Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus. (Irmãs Carmelitas Missionárias- Província Santa Teresa de Lisieux. Uberaba, 1999)

Os Terceiros reservem cada dia um tempo conveniente para a oração individual (que é uma relação de íntima amizade, um constante entreter-se a sós com Aquele que sabemos nos amar[1]) e, segundo a tradição constante do Carmelo, cultivem no máximo grau a oração nas suas várias formas: a oração mental, a oração de aspiração, além das eventuais práticas tradicionais[2]. Recomenda-se, de modo particular, a "lectio divina". Mas, sobretudo, aprendam na sua vida ordinária, a engrandecer com a Virgem ao Senhor e a exultar em Deus, seu Salvador[3].

Na verdade, Maria, enquanto vivia na terra uma vida igual à de todos, cheia de solicitude pela família e dedicada ao trabalho, estava sempre unida ao seu Filho e de maneira especial cooperava com a obra do Salvador[4].

Os nossos Terceiros terão o Escapulário em grande estima, como símbolo do amor maternal de Maria, pelo qual, Ela, tomando a iniciativa, guarda dentro do seu coração os seus irmãos e irmãs carmelitas, e assim provoca neles a imitação das suas virtudes preclaras: uma caridade universal, o amor à oração, a humildade, a pureza, a modéstia[5]. A Ela eles se dirigirão também com um culto particular, praticando com amor os exercícios de piedade recomendados pela Igreja no decorrer dos séculos, especialmente a recitação do Rosário[6].

A cooperação de Maria continua de modo especial na celebração da liturgia, que pretende tornar atual para todas as gerações a obra salvífica de Jesus. Como a Virgem participou ativamente na obra da Redenção, unida a Cristo, seu Filho, assim Ela continua a mesma obra através da Liturgia, como nosso modelo, impelindo-nos a celebrar os mistérios de Jesus, imitando as suas disposições e atitudes; a pôr em prática a Palavra de Deus e meditá-la com amor; a louvar a Deus com exultação e agradecer-Lhe com alegria; a servir a Deus e aos próprios irmãos com generosidade, dando até a própria vida por eles; a rezar ao Senhor confiantemente e com perseverança; a vigiar, aguardando a Vinda do Senhor[7].

Na família, no ambiente de trabalho e de profissão, nas responsabilidades sociais, que desempenham, nas ações de cada dia, nos relacionamentos com os outros, os leigos (os terceiros) procurem os vestígios escondidos dos passos de Deus (nos caminhos da história), reconheçam-nos e façam germinar a semente da salvação segundo o espírito das Bem-Aventuranças por meio do humilde e constante exercício daquelas virtudes de probidade, espírito de justiça, sinceridade, cortesia, fortaleza de ânimo, sem as quais não pode haver verdadeira vida humana e cristã. "A sua comunhão com Deus e com os outros em fraternidade dá origem à missão, e a missão se cumpre na comunhão"[8].

*Da Regra da Venerável Ordem Terceira do Carmo.

    [1]. Santa Teresa de Jesus Vida 8,5

    [2]. Const.Ord.Carm. 53-54

    [3]. Lc 1,46-47

    [4]. AA 4

    [5]. Carta Apostólica de Pio XII "Neminem profecto"

    [6]. Const.Ord.Carm. 69; Marialis Cultus 45

    [7]. AA 4

    [8]. CfL 32

Frei Carlos Mesters, O. Carm

(Ano Litúrgico-A. Segunda-feira, dia 20)

1) Oração

Senhor nosso Deus, fazei que a nossa alegria consista em vos servir de todo o coração, pois só teremos felicidade completa, servindo a vós, o criador de todas as coisas. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

2) Leitura do Evangelho   (Lucas 18, 35-43)

35Ao aproximar-se Jesus de Jericó, estava um cego sentado à beira do caminho, pedindo esmolas. 36Ouvindo o ruído da multidão que passava, perguntou o que havia. 37Responderam-lhe: É Jesus de Nazaré, que passa. 38Ele então exclamou: Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim! 39Os que vinham na frente repreendiam-no rudemente para que se calasse. Mas ele gritava ainda mais forte: Filho de Davi, tem piedade de mim! 40Jesus parou e mandou que lho trouxessem. Chegando ele perto, perguntou-lhe: 41Que queres que te faça? Respondeu ele: Senhor, que eu veja. 42Jesus lhe disse: Vê! Tua fé te salvou. 43E imediatamente ficou vendo e seguia a Jesus, glorificando a Deus. Presenciando isto, todo o povo deu glória a Deus. - Palavra da salvação.

3) Reflexão

*  O evangelho de hoje descreve a chegada de Jesus em Jericó. É a última parada antes da subida para Jerusalém, onde será realizado o “êxodo” de Jesus conforme tinha sido anunciado na sua Transfiguração (Lc 9,31) e nos avisos ao longo da caminhada até Jerusalém (Lc 9,44; 18,31-33).

*  Lucas 18,35-37: O cego à beira da estrada

            “Quando Jesus se aproximava de Jericó, um cego estava sentado à beira do caminho, pedindo esmolas. Ouvindo a multidão passar, ele perguntou o que estava acontecendo. Disseram-lhe que Jesus Nazareno passava por ali”. No evangelho de Marcos, o cego se chama Bartimeu (Mc 10,46). Por ser cego, ele não podia participar da procissão que acompanhava Jesus. Naquele tempo, havia muitos cegos na Palestina, pois o sol forte que bate na terra pedregosa embranquecida fazia mal aos olhos sem proteção.

*  Lucas 18,38-39: O grito do cego e a reação do povo

            “Então o cego gritou: "Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!" Ele invoca Jesus sob o título de “Filho de Davi”. O catecismo daquela época ensinava que o messias seria da descendência de Davi, “filho de Davi”, messias glorioso. Jesus não gostava deste título. Citando o salmo messiânico, ele chegou a perguntar: “Como é que o messias pode ser filho de Davi se até o próprio Davi o chama de “meu Senhor” (Lc 20,41-44) ? O grito do cego incomodava o povo que acompanhava Jesus. Por isso, “as pessoas que iam na frente mandavam que ele ficasse quieto. Elas tentavam abafar o grito. Mas ele gritava mais ainda: "Filho de Davi, tem piedade de mim!" Até hoje, o grito dos pobres incomoda a sociedade estabelecida: migrantes, aidéticos, mendigos, refugiados, tantos!

*  Lucas 18,40-41: A reação de Jesus diante do grito do cego

E Jesus, o que faz? “Parou, e mandou que levassem o cego até ele. Os que queriam abafar o grito incômodo do pobre, agora, a pedido de Jesus, são obrigados a ajudar o pobre a chegar até Jesus. O evangelho de Marcos acrescenta que o cego largou tudo e foi até Jesus. Não tinha muito. Apenas um manto. Mas era o que tinha para cobrir o seu corpo (cf. Ex 22,25-26). Era a sua segurança, o seu chão! Também hoje Jesus escuta o grito calado dos pobres que nós, às vezes, não queremos escutar. Quando o cego chegou perto, Jesus perguntou: "O que quer que eu faça por você?" Não basta gritar. Tem que saber por que grita!  O cego respondeu: "Senhor, eu quero ver de novo."

*  Lucas 18,42-43: “Veja! Sua fé curou você!”

            ”Jesus disse: "Veja. A sua fé curou você." No mesmo instante, o cego começou a ver e seguia Jesus, glorificando a Deus. Vendo isso, todo o povo louvou a Deus”. O cego tinha invocado Jesus com ideias não inteiramente corretas, pois o título “Filho de Davi” não era muito bom. Mas ele teve mais fé em Jesus, do que nas suas próprias ideias sobre Jesus. Assinou em branco. Não fez exigências como Pedro (Mc 8,32-33). Soube entregar sua vida aceitando Jesus sem impor condições. A cura é fruto da sua fé em Jesus. Curado, ele segue Jesus e sobe com ele para Jerusalém. Deste modo, tornou-se discípulo modelo para todos nós que queremos “seguir Jesus no caminho” em direção a Jerusalém: acreditar mais em Jesus do que nas nossas ideias sobre Jesus! Nesta decisão de caminhar com Jesus está a fonte da coragem e a semente da vitória sobre a cruz. Pois a cruz não é uma fatalidade, nem uma exigência de Deus. Ela é a consequência do compromisso de Jesus, em obediência ao Pai, de servir aos irmãos e de recusar o privilégio.

*  A fé é uma força que transforma as pessoas

            A Boa Nova do Reino anunciada por Jesus era como um fertilizante. Fazia crescer a semente da vida que estava escondida no povo, escondida como fogo debaixo das cinzas das observâncias sem vida. Jesus soprou nas cinzas e o fogo acendeu, o Reino desabrochou e o povo se alegrou. A condição era sempre a mesma: crer em Jesus. A cura do cego esclarece um aspecto muito importante da nossa fé. Mesmo invocando Jesus com ideias não inteiramente corretas, o cego teve fé e foi curado! Converteu-se, largou tudo e seguiu Jesus no caminho para o Calvário! A compreensão plena do seguimento de Jesus não se obtém pela instrução teórica, mas sim pelo compromisso prático, caminhando com ele no caminho do serviço, desde a Galiléia até Jerusalém. Quem insiste em manter a ideia de Pedro, isto é, do Messias glorioso sem a cruz, nada vai entender de Jesus e nunca chegará a tomar a atitude do verdadeiro discípulo. Quem souber crer em Jesus e fazer a entrega de si (Lc 9,23-24), aceitar ser o último (Lc 22,26), beber o cálice e carregar sua cruz (Mt 20,22; Mc 10,38), este, como o cego, mesmo tendo ideias não inteiramente corretas, conseguirá enxergar e “seguirá Jesus no caminho” (Lc 18,43). Nesta certeza de caminhar com Jesus está a fonte da coragem e a semente da vitória sobre a cruz.

4) Para um confronto pessoal

1) Como vejo e sinto o grito dos pobres: migrantes, negros, aidéticos, mendigos, refugiados, tantos?

2) Como é a minha fé: fixo-me mais nas minhas ideias sobre Jesus ou em Jesus?

5) Oração final

Feliz quem não segue o conselho dos maus,

não anda pelo caminho dos pecadores

nem toma parte nas reuniões dos zombadores,

mas na lei do Senhor encontra sua alegria

e nela medita dia e noite. (Sl 1, 1-2)

Os leigos carmelitas, impregnados pelo espírito da Ordem, que é "vacare Deo" (ter tempo para Deus), pretendem viver o carisma na escuta silenciosa da Palavra, na oração constante na sua vida, deixando-se entusiasmar pelo Espírito Santo em favor das obras grandiosas, que Deus realiza e para as quais Deus pede o seu empenho e eficaz contribuição. Para o carmelita a oração, numa intensidade crescente, torna-se uma atitude mais do que um exercício; comporta um reconhecimento cada vez mais agudo da presença da mão de Deus [em toda a obra da criação e na sua própria criação; no seu modo contemplativo de agir, a oração é muitas vezes modelada pela prática da presença de Deus numa grande variedade de formas. No Carmelo a oração é sobretudo um deixar-se amar por Deus]; a procura (de torná-la) não somente habitual, mas atual, de acolher o [tão grande] amor gratuito de Deus; [um tomar] a consciência sempre mais profunda da ação de Deus, que pervade toda a existência pessoal, como Santa Teresa de Lisieux tão fortemente testemunhou.

  1. a) Os sacramentos, especialmente a Eucaristia, são a vida de Jesus a se difundir nos fiéis, que por meio deles podem unir-se a Ele[1]. A participação, possivelmente diária, no sacrifício do altar[2], será assim a sua seiva vital.
  2. b) A Liturgia das Horas[3], ao menos a das Laudes matutinas, Vésperas e Completas (Oração da Noite), seja a expressão eclesial do encontro do Terceiro com Deus. Os lugares e as di-versas circunstâncias poderão indicar outras formas eventuais de oração litúrgica.

A vida espiritual não se esgota só com a Liturgia. Mesmo que esteja convocado para a oração em comum, o cristão sempre é obrigado a entrar no seu quarto para orar ao Pai no segredo[4]. Mais, segundo o ensinamento de Jesus[5], reforçado também pelo Apóstolo[6], o cristão é obrigado a rezar sem cessar[7].

*Da Regra da Venerável Ordem Terceira do Carmo.

    [1]. LG 7

    [2]. Regra do Carmo 10

    [3]. Regra do Carmo 8

    [4]. Mt 6,6

    [5]. Lc 18,1

    [6]. 1Ts 5,17

    [7]. SC 12 e Const.Ord.Carm. 73

*Frei Emanuele Boaga, O.Carm e irmã Augusta de Castro Cotta, Cdp

Ao Carmelita vocacionado por Deus para viver neste novo século é lançado um desafio: a atualização da verdadeira identidade do Carmelo, revitalizando o seu carisma e sua espiritualidade. É um desafio urgente.  A incapacidade ou negligência no oferecimento de uma resposta adequada e autêntica traria consigo, inevitavelmente a perda do rico patrimônio espiritual do Carmelo, privando desta  bela herança os irmãos, a Igreja e o mundo. Faz-se necessária a releitura do carisma com abertura ao futuro e na fidelidade dinâmica aos valores das origens que permitiram, ao longo de tantas gerações, criar sãs e frutuosas tradições.

A este desafio pode-se responder com atitudes composta pelos trinômios:

conhecer - conservar -transmitir ou conhecer - viver - desenvolver

Urna releitura vitalizadora e atualizada do carisma, obviamente exclui a primeira destas atitudes que é própria à conservação material de um acervo em arquivo morto. É na segunda postura, que se realiza na fidelidade dinâmica às origens e Patrimônio do Carmelo, que podemos encontrar resposta satisfatória.

Tal tipo de releitura efetua-se em três níveis profundamente permeados entre si:

Nível Cultural

- Identificação na experiência histórica passada da Ordem dos valores vivos, inspirativos e permanentes; purificando-os de pressupostos ou preconceitos teológicos, espirituais,  psicológicos, condicionantes. Libertar os mesmos das superestruturas culturais nas quais se encarnaram e se expressaram, no decurso do tempo. Ao mesmo tempo, evitar nesta busca, a projeção da problemática atual, dos esquemas e exigências completamente desconhecidas pela mentalidade e época distintas da nossa.

- Confrontar tais valores com as categorias culturais de nossos tempos para descobrir como podem ser encarnados nelas a fim de se tornarem significativos e inspirantes.

-Tomar consciência das conquistas atuais que possam enriquecer e tornar viva a identidade do Carmelo, em seu carisma e espiritualidade.

Nível Experiencial

A teoria vale pouco, se não for traduzida concretamente na vida de cada um e nas comunidades. Na caminhada faz-se indispensável evitar a incoerência entre a palavra e a vida.

Nível Missionário

Ao qual o Carmelita é chamado na Igreja e  deve responder com o serviço generoso do seu carisma, dom de Deus para a Igreja e para os Irmãos, a fim de criar a comunhão.

É possível desenvolver este tipo de releitura? Certamente, pois as tendências apontadas oferecem ampla possibilidade. Mas a resposta definitiva e positiva só se encontra na profundidade e sinceridade da conversão de cada vocacionado ao Carmelo, como indivíduo e como comunidade, deixando-se guiar pelo profeta Elias, dando a Deus todo os espaço que lhe compete na própria  existência, e dizendo com Maria o humilde e generoso SIM para, sob seu doce e materno olhar, viver em obséquio de Jesus Cristo, como propõe a Regra Carmelitana e viveram tantos irmãos, purificando-se dos ídolos existentes na Igreja e no mundo.

*Do Livro; Como Pedras Vivas.

*Frei Emanuele Boaga, O.Carm e irmã Augusta de Castro Cotta, Cdp

Como no antigo ramo da Ordem, também os Descalços ou Teresianos desenvolveram a sua própria volta ás fontes para a renovação pós-conciliar. A revisão dos seus textos constitucionais, iniciada no Capítulo Especial de 1967-68 e continuada, com diuturno estudo e diligente reflexão e colaboração de todos na Ordem, produziu dois códigos: Constituições e Normas relativas, adotadas ad experimentum em 1976 e, definitivamente aprovados no Capitulo Geral de 1979, e depois, por ordem do mesmo Capitulo pelo definitório extraordinário de 1980. A Congregação dos Religiosos indicou a necessidade de algumas modificações e, uma vez feitas,  as aprovou e confirmou em 7 de Julho de 1981. Em 1985, o Capitulo Geral dos mesmos Descalços adequaram tais Constituições ao novo Código de Direito Canônico e a aprovação das modificações é dada pela Santa Sé, em 5 de março de 1986.

. Sobre a releitura do carisma carmelitano feito pelos Teresianos pode-se, brevemente, fazer es seguintes observações:

- Com o estimulo de alguns estudiosos difunde-se, especialmente após o Concilio Vaticano II, o uso de ver Santa Teresa de Jesus, não apenas corno mestra, madre e reformadora, mas também  (e, em alguns casos, exclusivamente) como fundadora. Trata-se de uma questão de natureza teológica, intimamente unida ao reconhecimento do carisma teresiano, decorrente da atualização feita após o Vaticano II, oferecendo uma visão original do sentido fundacional dos Descalços: une realmente á inspiração carmelitana a vivência e a novidade teresiana. Em 1981, o Capitulo Geral dos Teresianos de 1980, não sem tensões, aprovou este título de fundadora; porém, além das elementares novidades introduzidas por S. Teresa, as raízes teresianas nascem no ramo antigo do Carmelo e  são explicitamente afirmadas nas Constituições atuais dos Descalços (1983, n.9).

- Assim, no contexto da volta ás origens do pós-concilio, coloca-se forte acentuação na releitura para os dias atuais de Santa Teresa e de seu conceito sobre e vida religiosa, com ênfase na atualidade de seu ensino. Não parece que a reflexão sobre a Regra Carmelitana (texto albertino ou texto inocenciano) no inicio teve uma vasta repercussão, com exceção de alguns casos particulares. Depois, com o passar do tempo, vários setores de Teresianos vão colocando mais atenção e Regra e isto se reflete nas Constituições definitivas..

- Estas novas Constituições definitivas contemplam o carisma segundo o espirito teresiano, a Regra de S. Alberto e a primitiva tradição descalça, definindo assim claramente o caráter do Carmelo Teresiano, sua finalidade e seus meios com adaptações sugeridas pelas condições novas do tempo.

- Com referência, sobretudo ao ensino de Santa Teresa, desenvolveram-se as temáticas de dimensão contemplativa, da relação contemplação-ação, da espiritualidade teresiana para hoje, (com especial referência à oração teresiana). Não faltam porém propostas e instâncias comunitárias..

- A atenção á dimensão contemplativa leva e favorecer iniciativas para o estudo e difusão da espiritualidade, a promover centros espirituais de oração e de retiros como contribuição do Carmelo Teresiano á igreja.

- A consideração eliana, no inicio, centralize-se maiormente na inspiração contemplativa e não se apresenta tão vasta corno acontece no ramo antigo.

- A consideração do caráter mariano do carisma carmelitano parece desenvolver-se mais ou menos, segundo linhas semelhantes às desenvolvidas no ramo antigo. Para e devoção ao Escapulário tem-se uma retomada de interesse que vem desde anos atrás, e na maneira mais ampla que entre o ramo antigo

Relativamente às Monjas Descalces e à renovação dos textos legislativos, no período pós-conciliar, fez florescer um longo trabalho de aprofundamento do pensamento de S. Teresa sobre o ideal das Descalças, tal como se encontra, em seus escritos e na primeira tradição das Carmelitas Descalças. Assim se afirma que o carisma teresiano é a contemplação das realidades divinas, em comunidade fraterna, fundada sobre e solidão, a oração e a mais rigorosa pobreza, com finalidade eclesial-apostólica. No período de 1977 até 1991  esteve em tramitação a aprovação do corpo legislativo das Descalças, enfrentando o problema de renovação não sem dificuldades e tensões,. Devido à ressonância que a questão teve não somente nos jornais e em outros órgãos informativos, mas sobretudo para a mesma vida contemplativa e para as religiosas em geral, recordamos a seguir  os detalhes as várias oscilações que tiveram de ser superadas até a aprovação definitiva pela Santa Sé, de dois textos legislativos para os dois grupos em que se dividiram as Monjas Descalças.

.A renovação após o Vaticano II foi realizada sobre a base de numerosas consultas aos mosteiros. Em 1971 foi oferecida uma Lei fundamental, ulteriormente examinada pelas Monjas. Empreende-se enfim, a elaboração de um corpo de texto legislativo, aprovado pela Santa Sé ad experimentum, em 12 de março de 1977. Tal corpo apresenta os seguintes textos:

- Regra do Carmo, como princípio inspirador da vida das Descalças:

- Constituições Primitivas de Santa Teresa que oferece as prescrições típicas do tempo, refletindo a graça do carisma das origens;- Declarações que iluminam e completam os textos precedentes: a norma do Vaticano II e os documentos pós-conciliares, oferecendo uma visão da vida religiosa na linha da vocação  especificamente contemplativo-eclesial e uma série de prescrições e ordenamentos.

A escolha das Constituições de 1567, em lugar daquelas do Capítulo de Alcalá de 1581, e as Declarações foram contestadas por parte dos assim chamados de Carmelos reunidos, uma espécie de união de Mosteiros ligados por um vínculo moral e promovido pela Madre Maravilhas de Jesus (Carmelo de Aldabuela, Madrid). Nasce então o contrates entre os chamados Mosteiros dos Carmelos Unidos e os demais Mosteiros Descalços em todo o mundo. Em 15 de outubro de 1984 a Santa Sé avocava a si a questão. Tal medida gerou reações negativas  em cada lugar e foi objeto de séria discussão também no âmbito interno da Família Teresiana. A partir de 1986 o trabalho da comissão encarregada de reformar o corpo legislativo segundo as indicações da Carta (de 15 de Outubro de 1984) do Cardeal Casaroli, Secretario de Estado, escrita em nome do Papa, e de haver descartado um primeiro projeto da competente Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, vem aprovado um novo projeto, apresentado ao Papa em final de Junho de 1990. Com surpresa geral a mesma Congregação não emanava a relativa aprovação do texto assim elaborado e revisto, mas ao invés, promulgava em 8 de Dezembro de 1990 um Decreto que tornava normativo para os Mosteiros que houvessem desejado as Constituições de 1581, porém conforme o

Direito Canônico vigente.

Este decreto incluiu ainda as particularidades destas questões relativas aos mosteiros diretamente sob a autoridade papal (e sob a dos Bispos Diocesanos as referentes à norma do Cân. 615). A situação  criada colocou em dificuldade a unidade e a fidelidade das Monjas Descalças. Em 17 de Setembro de 1991 um outro decreto da referida Congregação aprova e promulga um outro Código Constitucional para as Descalças e convida aos mosteiros que em tempo conveniente declararem qual dos dois textos em vigor desejava seguir.  Sobre a aprovação dos dois códigos fundamentais para as Descalças, João Paulo II enviou uma carta em 1 de Outubro do mesmo ano, afirmando fortemente a unidade da Ordem das Descalças e o serviço a elas feito pelo Prepósito Geral, e novamente estabelecendo a escolha de uma das duas formas de Constituição que deveria ser feita até 25 de dezembro de 1992.

Para a Ordem Terceira Secular Teresiana atualmente denominada de Ordem Carmelitana Secular, a atualização e renovação pós-conciliar da sua Regra foi conduzida mais ou menos com os mesmos critérios inspirados na teologia do laicato presente na obra de renovação e já recordadas  para TOC no antigo ramo do Carmelo. Como metodologia, foram feitas sondagens entre os terceiros, em todo o mundo, realizados congressos e encontros de estudos. Embasados nesta documentação recolhida, foi feita uma primeira redação da Regra, sucessivamente revista por uma comissão de peritos (frades e leigos) e aprovada ad experimentum em 1970. A Santa Sé, em 10 de Maio de 1979 aprovou definitivamente o texto da Regra de Vida da Ordem Secular dos Descalços. Esta Regra de Vida  propõe ajudar os terciários carmelitas a viverem conforme a própria índole secular, na família, na profissão, no empenho social, buscando o ideal de comunhão orante com Deus, que é o coração do carisma teresiano, a força, a luz e a graça necessárias para viver fielmente a consagração batismal

*Do Livro; Como Pedras Vivas.

Fonte: Facebook (Frei Miguel Bacigalupo, O. Carm). Câmera: Frei Raul Maravi, O. Carm. Divulgação: www.olharjornalistico.com.br

 (NOTA: A Ordem do Carmo (ou Ordem dos Carmelitas), originalmente chamada Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, é uma ordem religiosa católica que surgiu no final do século XI, na região do Monte Carmelo (uma cadeia de colinas, próxima à actual cidade de Haifa, antiga Porfíria, no atual Estado de Israel), onde está instalada no Mosteiro de Nossa Senhora do Monte Carmelo.

A palavra "carmelo" significa jardim. Conta a tradição que o profeta Elias se estabeleceu numa gruta, em pleno Monte Carmelo, seguindo uma vida eremítica de oração e silêncio. Nele, e no seu modo de vida, se inspiraram os primeiros religiosos da Ordem. Mais tarde, uma Regra para a Ordem do Carmo foi sistematizada e proposta por Santo Alberto, Patriarca de Jerusalém, e aprovada pelo papa Honório III em 1226. No século XIII os religiosos acabaram por migrar para os países do Ocidente, fugindo das invasões sarracenas. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_do_Carmo) Convento do Carmo da Lapa, Rio de Janeiro. 16 de novembro-2017.

*Frei Emanuele Boaga, O.Carm e irmã Augusta de Castro Cotta, Cdp

A atualização e renovação do Ordem Terceira Secular (TOC) tem inicio já no ano de 1957 quando se percebe a necessidade de renovar, em parte, a sua legislação a fim de que pudesse se desenvolver melhor corno movimento laical, inserido na perspectiva da teologia do laicato. Neste contexto assumem importância es diretivas da Congregação trienal da Ordem, celebrada em Fátima, no mesmo ano de 1957, e a criação do Centro internacional da OTC (= CITOC), com sede em Fátima e, posteriormente, no ano de 1967, em Roma. Em 1968 ocorre a extinção deste Centro que se transforma apenas em agência de comunicação de noticias da Ordem.

Em 1965, com a execução de um decreto do Capítulo Geral daquele ano, foi composta uma Fórmula de vida para os terciários. Nos anos seguintes esta Fórmula foi objeto de estudo e favoreceu experiências por parte dos mesmos terciários. Com o Capitulo Geral de 1968, em cada Província ou nação cuidou-se da tradução da mesma, fazendo-se adequação à própria realidade. Os leigos foram fortemente envolvidos neste trabalho.

Nos anos 1972-73 foram recolhidos os resultados das várias experiências e sugestões feitas em diversas partes do mundo. Com este material e com a contribuição de alguns peritos foi preparado um primeiro projeto para a nova Regra do TOC. Foi notório o envolvimento da parte dos grupos da língua inglesa e todos os sodalícios da TOC italiana, cujos dirigentes, para avaliação das experiências celebraram numerosos congressos em nível provincial e nacional. levando em conta este trabalho e com a colaboração de alguns leigos, um Padre dirigente dos problemas da TOC elabora um primeiro projeto em vista da esperada Regra. Entretanto, não foi julgado satisfatório este trabalho. Assim, nos anos 1974-76 o mesmo foi reelaborado por dois expertos, também com a colaboração dos leigos, até chegar ao texto definitivo, aprovado pela Santa Sé, em 1977.

A nova Regra do TOC consta de três partes: espiritualidade, formação e estrutura. Relativamente à natureza do leigo na Igreja, propõe aos terciários individualmente ou como grupo, um programa de vida que evita transformá-los em pessoas beatas ou em mini-frades ou mini-monjas. Tal programa, ao contrário, nutrido por uma forte teologia do laicato, sublinha e traduz os valores mais profundos do carisma carmelitano, em sua própria condição laical e secular. Sobre esta a Santa Sé, transmite o Cardeal Pironio e o Pontifício Conselho dos Leigos, expressa a própria satisfação, afirmando que a nova Regra da TOC está entre as melhores apresentadas pelas varias Ordens Terceiras seculares, como  conclusão do processo de renovação legislativa pós-conciliar.

Em particular - sublinhando es atitudes profundes e básicas da vivência do carisma carmelitano (escuta da Palavra de Deus, vida em sua presença e oração na vida e da própria vida  - esta Regra orienta ao terciário para a vivência de uma espiritualidade encarnada na sua própria realidade secular. A busca de intimidade com Deus leva o terciário a ser sempre mais fermento evangélico no mundo com a contribuição específica do carisma carmelitano; e tudo isto conduz à inserção na realidade das estruturas temporais. A Regre da TOC, apontando esta meta, exorta a olhar es figures inspirativas de Virgem Maria e de Elias profeta, a fim de que cada um á sua maneira viva profundamente animado pele fé da presença de Deus entre nós, testemunhando como uma pessoa se torna verdadeiramente humane quando mais espaço dá a Deus em sua vida. 

A inspiração mariana conduz o terciário - segundo a Regra da TOC - a olhar a humildade e a pobreza de Maria como base para viver a própria situação de ser criado, em sua relação com Deus Criador e Salvador; e também a sue adesão à vontade divina traduzida em fidelidade e obras; a sinceridade e espirito de serviço para colaboração efetiva com a obra de salvação.

A inspiração eliana - sempre segundo a Regra da TOC - conduz o terciário a olhar em Elias o compromisso profético e comunitário para o testemunho da intima e vital ligação com Deus na vida quotidiana do povo, num mundo em transformação; a promoção da verdadeira religião para lutar contra os falsos ídolos, a conseqüente aceitação da sua vida sustentada pela fé nas duras e decisivas provas para abrir-se à Providência; e a experiência da intimidade divina no Horeb, para buscar em Deus a fonte de força e doçura.

Relativamente às Regras precedentes para a TOC, a atual oferece aos terciários um discurso muito novo e estimula fortemente o testemunho de maneira viva e autêntica do Absoluto de Deus no mundo de hoje, com rompimento de cada falsa religiosidade e com libertação de cada forma de escravidão ao dinheiro, ao poder e ao prazer, como de cada outra forma de opressão do homem.

Após a aprovação da nova Regra atividades significativas relativas à TOC ocorreram na Itália para os assistentes espirituais  dos sodalícios e para seus membros com estudos e comentários sobre a Regra, sendo difundidos através de publicações proprias (1982). Um primeiro encontro internacional da Família Carmelitana foi realizado de 31 de março a 5 de abril de 1991, dedicado à TOC , aos leigos e movimentos que se inspiram no Carmelo. Entre as propostas feitas, encontra-se aquela que pede de ser adotado pela TOC a Regra de S. Alberto. Trata-se de uma proposta que, antes de ser concretizada, deveria ser oportunamente avaliada.

No contexto da renovação da TOC pode-se recordar que o Delegado Geral pro tempore nos anos 1974-83, participou ativamente da União das Ordens Terceiras Seculares e desenvolveu junto aos delegados gerais da Ordem Secular Franciscana - isto é da Ordem Terceira Secular  dependentes dos Menores e dos Capuchinhos -, uma vasta ação com reflexos na renovação das Terceiras Ordens dos outros Mendicantes e o estudo que orientou a introdução do Cânon 303 do atual Código de Direito Canônico.

*Do Livro; Como Pedras Vivas.

Frei  Emanuel Boaga, O.Carm. In Memoriam

 

Depois da Bula Cum nulla  de Nicolau V e da transformação das pinzocheras professas solenes em monjas de clausura, na Itália e na Espanha as pinzocheras continuaram a vida florescente de professas solenes isoladas, ou que, refutando a clausura, viviam por vezes em comum (por exemplo já em 1498, as pinzocheras de Santa Maria da Esperança em Veneza,).

Não vivendo em clausura, ocuparam o terceiro lugar na escala dos grupos que formavam então a Ordem (religiosos, monjas, irmãs pinzocheras). Em diversas partes da Itália adotaram o nome de Terceiras, termo que se liga à divisão tripartida da Família espiritual.

Surge uma duvida a respeito da vocação das pinzocheras isoladas ou monjas-bizzoche di casa, fenômeno que dura geralmente até o século XVII-XVIII, ainda que pudesse haver nelas fortes motivações devocionais. Pensa-se que, no contexto da época, o celibato feminino podia ser incentivado ou até mesmo imposto pelos próprios pais das jovens, para as outras exigências não estritamente ligadas a uma genuína vocação ou devoção. Pode-se dizer que ha um paralelo entre esta vocação e a dos rapazes que eram encaminhados pela família para os estudos sacros em vista de um patrimônio eclesiástico ou de uma boa posição social . Aquelas que permaneciam na família recebiam uma certa quantidade de dinheiro (não propriamente com o valor de um dote ou parte devida da herança, mas chamado de legítima - por ser concedido a filha legitima). Ao invés, o Padre assegurava à família os proventos da sua atividade e do patrimônio eclesiástico de que usufruía. A monja isolada, renunciando ao matrimônio não constituía problema para o dote e herança, assumindo um papel de criada, submissa ao pai e aos irmãos.

Existem casos de monjas bizzoche di casa, que não sendo mais necessárias às famílias, por não terem descendência , após a morte dos irmãos achavam-se isentas dos votos e contraiam matrimônio  . Muitas vezes, na documentação da época, a vida deste tipo de mulher é descrita como sendo uma luz ambígua:  andam por toda a parte e até se pode  sentir muito mal cheiro por onde andam pois vivem falando de tudo e de todos, fazendo mexerico aqui e ali.  Em vista disto, no decorrer do tempo, o termos bizzoca, pinzochera e bigotta  assumem um sentido irônico, irrisório, negativo e de desprezo.

O nome Terciária ou Terceira gerava confusão: não se podia considera-las como seculares, pois não o eram, como no caso de terceiras de outras Ordens Mendicantes. Eram verdadeiras religiosas de profissão solene, agregadas aos conventos dos frades, e observantes da Regra e das Constituições dos frades.

Tal confusão, no clima geral do tempo, crescia também em ambientes não carmelitanos. Por conseguinte, depois do Concilio de Trento, houve uma série de decretos de Pio V que esclareceram com rigorosa interpretação o pensamento de Trento sobre a vida religiosa destas Terceiras: não se reconhecia mais como solenes os votos das pinzocheras ou Terceiras que não vivessem em clausura e, por isso, estas não eram verdadeiras religiosas, mas seculares. Em seus confrontos os bispos se mostravam reservados ou cheios de suspeitas: o Arcebispo de Trani, Scipione della Tolfa, com base nas intervenções de Pio V e Sixto V ameaçou com gravíssimas penas de suspensão a divinis  e de exílio a todos os regulares de qualquer Ordem que tratassem em qualquer modo com as bizzocare, que por sua vez também seriam despojadas do próprio hábito de forma ignominiosa.

Aos Decretos  de Pio V e de Sixto V a Ordem não reagiu de modo uniforme. Nos documentos da época que se referem às Pinzocheras ou Terceiras que usavam o hábito carmelitano, nem sempre é claro até que ponto estas gozavam dos privilégios e imunidades eclesiásticas concedidas pela Ordem a suas beatas. Com base na referida documentação, pode-se dizer que a Ordem mesmo segue duas direções:

-A manutenção dos três votos, a serem emitidos não mais segundo a Regra da Ordem (coisa a ser feita só pelas monjas de clausura) mas segundo um regulamento e estatuto proprio;

-Eliminou-se o voto de pobreza, tornando-se o de castidade segundo o próprio estado celibatário ou matrimonial (e, portanto, permanecia a possibilidade de contrair matrimônio).

Tal distinção dá origem a dois grupos de terceiras:

-As terceiras celibatárias com voto expresso de castidade (impedidas neste caso de contraírem matrimônio), e que observavam regulamentos próprios. Têm pleno gozo dos privilégios da Ordem Terceira, da qual acabam monopolizando o título;

-As mulheres não obrigadas ao celibato (as casadas), que eram consideradas como classe inferior às primeiras e  que foram praticamente, com o tempo, assimiladas ás co-irmãs da Ordem (ou seja, agregadas á confraria da Ordem).

Estas co-irmãs da Ordem não emitiam a profissão e, portanto, eram seculares. Contudo, participavam da fraternidade da Ordem, aceitando compromissos de vida espiritual não diferentes daqueles aceitos pelos terceiros Dominicanos e Franciscanos. As co-irmãs são a variante feminina dos confrades da capa branca, que tinham sua própria regra, e que na Espanha foram chamados de terceiros. Em 1476, Xisto IV tinha permitido aos Carmelitas de organizá-los como e segundo o modelo da Ordem Terceira de penitência dos outros Mendicantes.

Nos fins do século XVI estamos portanto diante de quatro grupos:

-Religiosos,

-Monjas, mulheres com voto expresso de castidade e impropriamente chamadas de terceiras que viviam isoladas ou em grupos;

-Co-irmãs e confrades de Hábito da Ordem, aos quais com maior exatidão deveria corresponder o nome de Terceiros ou Terciários.

 Deste último grupo se aproxima e se assemelha, ainda que em forma confusa, uma outra espécie de agregados: os membros das Confrarias do Escapulário.

*Frei Emanuele Boaga, O.Carm e irmã Augusta de Castro Cotta, Cdp

Missa

A oração louva a Deus que comunicou ao Beato Tito a força de seu Espírito para que superasse, na caridade e na fortaleza, os vários meses de tortura no campo de concentração hitleriano.

Esta caridade levou-o a doar a própria vida em testemunho e defesa da liberdade da Igreja, através de seu apostolado de jornalista defendendo a dignidade do homem, opondo-se, decisivamente às falsas doutrinas nazistas. Ele é assim modelo para a pregação do Evangelho e anúncio profético do Reino de Cristo no mundo atual..

Liturgia das horas

Como segunda leitura do Ofício das leituras foi apro­vado um texto do próprio Beato, escrito como Prefácio ao livro Divinus reditus dolor de A. Tanquerey, como também um outro, em alternativa, dos pensamentos do beato sobre a heroicidade e as virtudes dos santos Villibrordo e Bonifácio. Tal leitura reflete sua visão espiritual e a caridade de seu coração.

*Curso de Formação Carmelitana em módulos- Módulo VI - Testemunhas da Vivência Carmelitana.

MEMÓRIA DO CARMO: Foto: Dom Gabriel Paulino Bueno Couto, Carmelita (Curta a nossa nova página do olhar em homenagem aqueles e aquelas que marcaram a história do Carmo no Brasil e fizeram história). Clique aqui: https://www.facebook.com/MEMORIA16CARMELITAS/

Frei Pedro Caxito, O. Carm. In Memoriam  (* 31/12/1926 + 02/09/2009)

O Visconde de Cairu (José da Silva Lisboa)

 Nasceu na Bahia no dia 16 de julho de 1756 e faleceu no Rio de Janeiro no dia 20 de agosto de 1835. Jurisconsulto, jurista e político.  Com oito anos de idade já estudava música e piano, filosofia e moral no Convento dos Carmelitas da Bahia. Devido à precocidade da sua inteligência foi mandado a Portugal e estudou retórica, direito canônico, medicina, filosofia, latim, grego e hebraico em Coimbra. O pai exigiu que se fizesse padre, mas ele resistiu por não ser a sua vocação, e quando o pai lhe cortou a mesada, foi, graças aos seus talentos, nomeado substituto do catedrático das matérias, que dominava.

De volta ao Brasil ocupou a cátedra de Filosofia Moral e Grego. Voltou a Lisboa e foi jubilado como Professor Régio. O Príncipe Regente, Dom João VI, nomeou-o deputado e secretário da Mesa de Inspecção da Bahia e assim José da Silva já pôde demonstrar o seu grande interesse pela agricultura e pelo comércio como fonte dupla do progresso da sua terra. Quando Dom João VI fugia de Napoleão e passava pela Bahia, Cairu conseguiu, por intermédio do Marquês de Aguiar, convencer o Príncipe a abrir os portos do Brasil para as nações amigas a 28 de janeiro de 1808. E, por isso, o Visconde de Cairu é o Patrono do Comércio, cujo dia é celebrado no festa de Nossa Senhora do Carmo, data do seu nascimento.

Acompanhou o Príncipe ao Rio de Janeiro e, mestre de Política Econômica, foi para D.João VI como um "Ministro sem Pasta". Nomeado catedrático de Economia Política no Rio de Janeiro, não lhe permitiram lecionar, por ser considerado muito avançado  em idéias econômicas.

Foi um dos mais ativos promotores da Independência e já velhinho mandava imprimir folhetos em favor da emancipação do Brasil e os lançava pelas janelas no meio da rua.

Deixou mais de 90 trabalhos (livros, estudos, opúsculos, folhetos, pareceres, discursos etc.) Foi correspondente do Instituto de França e vários outros Institutos estrangeiros: da Baviera, dos Estados Unidos e do Reino de Nápoles.

Publicou "Princípios de Direito Mercantil", "Princípios de Economia Política", "Observações sobre o Comércio Franco do Brasil", "Reclamações", "Bem Comum", "O Conciliador do Reino Unido" e ainda, a pedido de Dom Pedro I, "História dos principais recursos políticos do Império do Brasil" (1826-1830). O mesmo Dom Pedro I o nomeou Barão de Cairu em 1825 e, no ano seguinte, o elevou a Marquês. Na sala do Convento do Carmo de Bahia, onde em 30 de abril de 1625 os holandeses assinaram a capitulação, ele presidiu à primeira reunião da Assembléia Legislativa de Bahia no dia 1º de dezembro de 1828[1].

Foi fiel Carmelita Terceiro e ainda escreveu muito sobre moral cristã e religião. Já quase setuagenário defendeu os princípios da Igreja contra sacerdotes iluministas ou liberalistas como Diogo Feijó. Todos admiravam o seu desprendimento, pois nunca se deixou cegar pelas riquezas, apesar de ser tão bom economista político. Diz Tristão de Ataíde:"(...) o nosso grande Cairu, no seu tratado de 1819, mencionando embora a ação de cada um destes dois elementos (a terra e o trabalho), dá sobre eles a preeminência a outro fator, que só modernamente, depois da luta entre o socialismo e o liberalismo de todo o século XIX, é que viria a ser destacado - a Inteligência. (...) Cairu é o precursor de Ford, de Taylor, de Stakhanoff, a um século de distância".

No seu Compêndio da História da Igreja, diz Frei Dagoberto Romag OFM (3º vol. p. 271 - 1941): "Todavia (quer dizer, apesar dos clérigos galicanistas), a Constituição jurada aos 25 de março de 1824 proclamou o catolicismo religião do Estado(Leis 1824, I 7), devendo-se esta vitória aos enérgicos protestos do venerável ancião e grande brasileiro José Maria da Silva Lisboa, futuro Visconde de Cairu (m.1835), verdadeiro pioneiro da causa católica. Foi provavelmente também ele quem inspirou ao Imperador a idéia de organizar a Igreja do Império". Diz o Eclesiástico (44,1): "Louvemos então os homens piedosos, nossos antepassados, ao longo das gerações".

 [1]. Fr.André Prat em O Convento do Carmo da Bahia  Mensageiro do Carmelo Ano XXVII p.306

 Pedro Pomar - 1974

A 13 de janeiro de 1825 - faz exatamente 150 anos - morria fuzilado em Recife, por ordem terminante de Pedro I, Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, grande herói da luta do povo brasileiro pela independência do jugo colonial português, eminente figura de nossa intelectualidade revolucionária, nacionalista.
As classes dominantes relegaram-no ao esquecimento. Chegaram mesmo a escarnecê-lo como fez o ditador Médici, em 1972, ao mandar passear pelas ruas das capitais dos Estados os ossos de Pedro I. Nossos pseudo-liberais temem falar sobre ele. Em contraste, o proletariado revolucionário exalta a sua memória como um dos mais admiráveis exemplos de combatente da causa da libertação nacional e da soberania popular. São raras as pessoas que, como ele, revelaram tal grau de rebeldia militante contra os opressores do país e do povo, tanta intransigência em face dos inimigos, tamanho destemor perante a morte. As lições de sua vida e de sua luta são fontes perenes de inspiração para todos os patriotas e democratas, conservam bastante atualidade.

Frei Caneca nasceu na capital pernambucana, em 1774, quando no mundo feudal surgiam e se desenvolviam as idéias burguesas de emancipação política, os conceitos de pátria e de nação e, quando em terras brasileiras, sob o domínio de Portugal, brotavam os fermentos da autonomia. Era de origem humilde. O apelido que o honrava adveio do fato de, na infância, ter ajudado o pai, um tanoeiro, vendendo canecas. Certamente, por vocação religiosa e pelo desejo de estudar, ingressou na Ordem dos Carmelitas. Naquele tempo, e durante dezenas de anos depois, a Igreja Católica monopolizava a cultura na Colônia. Para instruir-se e ascender socialmente, os moços das camadas mais pobres da oprimida e acanhada sociedade colonial deviam ordenar-se frades ou padres. Outro recurso era ir estudar em Coimbra, o que só os filhos dos grandes proprietários e senhores de escravos podiam fazer. No entanto, não foi a confissão religiosa que converteu, desde os albores do século XIX, o jovem Frei Caneca num ardoroso partidário da independência do Brasil e dos direitos do povo. Ao contrário, a Igreja, como instituição reacionária, além de possuir muitas propriedades e riquezas, sempre esteve umbilicalmente ligada às classes dominantes, sustentou-as por todos os meios. A verdade histórica é que, nas jornadas de 1817 e 1824 - as primeiras gloriosas tentativas de nossa revolução nacional e democrática - Frei Caneca e a brilhante falange de seus companheiros, a maioria de procedência igualmente humilde, não representavam na revolução, de maneira alguma, o clero, e sim as forças radicais da sociedade brasileira. Pertenciam à intelectualidade revolucionária, camada mais avançada da luta libertadora. Eles sentiram, como ninguém, o quanto era intolerável o domínio da metrópole portuguesa, o quanto pioravam as condições de vida do povo. Simultaneamente, recebiam a influência das novas idéias revolucionárias e tomavam conhecimento da vitória da Revolução Francesa de 1789, dos movimentos emancipadores dos Estados Unidos, da América espanhola, do Haiti. Daí a decisão de empunhar com valentia a bandeira da autonomia nacional e das reivindicações liberais burguesas. De modo coerente, passaram a integrar a ala radical do "Partido Brasileiro", da união das correntes patrióticas favoráveis à independência, ala que pregava a liquidação da dinastia dos Bragança, sem regateios nem conciliações prejudiciais à nação.

Em 1822, depois do famoso grito do Ipiranga e do acordo que permitiu a Pedro I aparecer à frente do novo Estado Nacional, a linha da intelectualidade nacionalista, oriunda do clero pobre, chocava-se com a da Igreja oficial. Enquanto esta, já aderida à situação criada, acusava Frei Caneca de indisciplina e sustentava que a autoridade de Pedro I tinha origem divina, ele respondia, denunciando as manobras traidoras do régulo, seu absolutismo e proclamando que a única e verdadeira fonte do poder é o povo.
Não apenas como pensador, mas também por suas qualidades políticas e organizativas, Frei Caneca destacou-se dentre todos os seus companheiros e contemporâneos. Junto com os padres João Ribeiro, Roma, Miguelinho, Mororó e dezenas de outros, foi um dos dirigentes da Revolução de 1817, quando pela primeira vez esteve em mãos de patriotas brasileiros o poder no país. Ao sobrevir a derrota, se bem que não tivesse sido enforcado ou arcabuzado, como alguns daqueles dirigentes, padeceu inomináveis torturas e ficou encarcerado na Bahia até 1821, sob a acusação de ter conclamado o povo à guerra revolucionária e organizado guerrilhas. Efetivamente, assim procedeu, expressando opiniões como as que seguem: "Quando a pátria está em perigo, todo cidadão é soldado, todos devem se adestrar nas armas para rebater o agressor. Não é bastante, que na ocasião do aperto maior, saiam de suas casas com algumas pistolas ou facas, ou outras quaisquer armas, sem disciplina, sem ordem, sem chefe hábil nos negócios da guerra; tal estado de coisas só pode causar a confusão e a desordem. O tempo é de atropelo, devem vosmecês atropelar também a economia de suas ações?" Não sem motivo, tornou-se conhecido, desde então, como o "frade guerrilheiro".
As posições combativas, revolucionárias, nortearam toda a sua vida. Libertado, voltou logo a Pernambuco para participar da deposição das autoridades coloniais e da instauração de um governo provisório provincial até que, no plano nacional, a Assembléia Constituinte, já convocada, indicasse os verdadeiros rumos do novo Estado e da nação. Ao saber que Pedro de Bragança se entronizava como Imperador do Brasil, condicionou seu apoio a esse governante à exigência de que prevalecesse, na Constituição que se elaborava, a vontade soberana do povo. Com tal objetivo, fundou, em fins de 1823, o jornal Tifnis Pernambucano. Defendia a instituição de um regime constitucional, representativo, capaz, segundo ele, de assegurar a independência recém-conquistada. Afirmava que a unidade nacional devia ser baseada na autonomia das províncias, de acordo com as tradições brasileiras e como demonstrava a experiência positiva dos Estados Unidos da América do Norte. Considerava indispensável que o Brasil se constituísse numa federação, unida pelos interesses e pelos sentimentos do povo de todo o país. Percebia que a nação, apesar de jovem, já possuía fortes laços de solidariedade e condições para sobreviver e progredir, percepção que, ainda hoje, certos elementos ditos progressistas não alcançaram. Embora jamais tivesse acreditado no liberalismo de Pedro I, mostrou-se disposto a aceitar o regime monárquico, contanto que a autonomia das províncias fosse preservada, assim como respeitada a soberania popular. Por isso, a dissolução pela força da Assembléia Constituinte encontrou de sua parte firme repulsa. E ao ser informado da imposição da Carta Constitucional, elaborada nos corrilhos palacianos, conferindo todos os poderes a Pedro I, escreveu, indignado, a um amigo: "Não admitimos mais imposturas, conhecemos o despotismo, vamos decepá-lo".

A Confederação do Equador, de 2 de julho de 1824, teve em Frei Caneca seu principal cérebro, seu autêntico fundador. A República sonhada englobaria as províncias do Norte, as quais ficariam unidas por uma Constituição, cujas bases ele publicara em seu jornal, na véspera da Revolução. Nesse projeto de Lei Magna, propôs enfaticamente a liberdade política, a igualdade civil, todos os direitos inalienáveis do homem. Estabeleceu itens relativos à liberdade de imprensa e de opinião. Destacou, especialmente, a abolição da escravatura nos seguintes termos: "Todo homem pode entrar a serviço de outro pelo tempo que quiser, porém não pode vender-se, nem ser vendido". O conteúdo de seu ideário era nitidamente burguês, democrático. Não obstante, pareceu muito radical, bastante avançado para aquele período.
Mas a Confederação do Equador só conseguiu o apoio das províncias da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Sem a adesão das demais, sobretudo da Bahia, cujo movimento popular revelara pujança e combatividade na luta contra as tropas do general português Madeira, a nova República duraria pouquíssimos meses. De seu lado, o governo imperial tomara incontinenti medidas para debelar a revolução a ferro e fogo. Cercado por terra e por mar, o governo confederado não pôde manter-se. A derrota deveu-se, fundamentalmente, a certas condições internas adversas da época, ao profundo atraso do país. Diferentemente dos Estados Unidos, onde vencera a Revolução da Independência com sentido democrático, no Brasil existia ainda um forte sistema feudal-escravista, que não deixou surgir nem florescer um núcleo numeroso de colonos livres. Os centros urbanos brasileiros eram então bastante débeis, distantes e dispersos. Além disso, a revolução não interessou direta e profundamente ao grosso da massa de escravos. Posto que condenasse formalmente a escravidão, não pretendia aboli-la imediata e radicalmente, mas sim de modo gradual. Em suma, por não terem compreendido a importância da participação da grande maioria da população escrava na luta pela independência, os líderes do movimento emancipador de 1817 e 1824 fatalmente seriam esmagados pela reação feudal e escravocrata.
Frei Caneca não cedeu facilmente. Julgou encontrar no interior de Pernambuco condições políticas e topográficas propícias à continuação da luta. Como não podia deixar de ser, enveredou pelo caminho da resistência armada, recorrendo ao método da guerra de guerrilhas. Mas quase tudo lhe foi hostil. Até uma tremenda seca contribuiu para obstar-lhe os planos. Suas colunas rarearam cada vez mais diante das dificuldades. Havia defecções dos que não tinham igual confiança na vitória. Mesmo sem recursos, passando fome, rompeu diversos cercos, travou alguns combates com vantagens e penetrou no sertão do Ceará, em busca de apoio. Só a 29 de novembro, em decorrência da situação insustentável em que se achava, aceitou a proposta de rendição formulada pelo comandante das tropas imperiais, em troca do respeito pela vida dos guerrilheiros e do compromisso de que o governo não faria vinditas.
Dessa forma, veio a cair nas mãos de Pedro I o mais intrépido defensor da causa emancipadora e democrática, o patriota que a reação mais temia e odiava. A Justiça Militar, nomeada a propósito pelo Imperador, empreendeu de imediato seu julgamento sumário. Frei Caneca não procurou justificar-se, pessoalmente; sustentou com bravura suas idéias, seu direito à promover a revolução; não claudicou nem se prestou a qualquer compromisso com os inimigos da pátria e do povo. Compreendia que Pedro I queria vê-lo rápida e severamente castigado para exemplo dos que se atrevessem a levantar-se contra a tirania. Seu comportamento altivo e digno, contribuiu para desmascarar o não cumprimento da promessa de que os prisioneiros teriam suas vidas poupadas. O desassombrado lutador deveria morrer na forca - tal a decisão dos juízes militares, antecipadamente tomada.
Longe de ficar abatido, Frei Caneca, em virtude de sua fibra moral e de suas profundas convicções, revelou-se mais animoso do que nunca. O desprezo pela morte, a consciência de cumprir em qualquer circunstância seu dever de patriota, de sacrificar a vida pelo bem comum, forjaram nele um dos mais belos e íntegros caracteres de homens públicos populares que registra a história brasileira. Cantou tais sentimentos em versos como estes:

"O Patriota não morre:
Vive além da eternidade;
Sua glória, sem renome.
São troféus da humanidade." Pouco antes de ser fuzilado, ainda compôs outro poema que diz: "Tem fim a vida daquele
Que a pátria não soube amar;
A vida do patriota
Não pode o tempo acabar"

O episódio final do seu suplício mostra até que ponto ia a sanha da repressão. A agonia arrastou-se praticamente por três dias, nos quais sua figura se agigantou pela coragem, ao passo que a dos seus verdugos se amesquinhou pela crueldade. Desde o dia 10 de janeiro se haviam iniciado os preparativos para o enforcamento. Mas, nesse instante, a Igreja resolveu interceder junto a Pedro I em favor da vida do condenado, solicitando que a pena capital fosse comutada em prisão. O Imperador, além de recusar, ameaçou. A Igreja desistiu. Dia 13, pela manhã, já no patíbulo, ele foi submetido à degradação canônica, isto é, despido de seus hábitos religiosos e da condição de frade. Entretanto, o preso comum destinado a colocar-lhe o laço no pescoço, negou-se a fazê-lo. Ali mesmo foi pisoteado, surrado. Outros dois presos comuns convocados para a mesma bárbara função, também não a aceitaram. Diante disso, o representante de Pedro I, brigadeiro (como então se chamava ao general) Lima e Silva, optou pelo fuzilamento. Entrementes, Frei Caneca, que fora despertado do sono em que estava mergulhado para subir ao patíbulo, continuava sereno, procurando falar ao povo e auxiliar os carrascos a terminarem com a execução. Até que o ato infame se consumou.

Há 150 anos do holocausto do grande herói popular, cumpre às forças revolucionárias não apenas homenageá-lo como compreender o sentido de suas idéias e de sua luta, assim como continuá-la nas novas condições históricas. Nesse período, ocorreram enormes transformações no mundo e em nosso país. O socialismo venceu em alguns países e avança vitorioso, enquanto o capitalismo está apodrecendo. As contradições sociais e políticas se aguçaram. No Brasil, as forças que se opõem ao progresso, à democracia e à independência nacional já não são senhores de terras e escravistas junto com o colonialismo português, mas sim os latifundiários e a grande burguesia associada ao imperialismo, sobretudo ao norte-americano. Por outro lado, as forças interessadas na revolução são outras, muito mais poderosas. O papel que representam é também diverso do daquele tempo. Agora, apenas uma parte da burguesia, a não-ligada aos interesses estrangeiros e à reação, pode participar da revolução, mas não encabeçá-la. Tampouco a intelectualidade progressista, inclusive a provinda do clero, tem condições de ser a vanguarda revolucionária. A direção da revolução cabe ao proletariado, através de seu Partido marxista-leninista. Nessas circunstâncias, o caráter nacional e democrático da revolução, embora permaneça formalmente o mesmo, ganhou um novo conteúdo. Sob a liderança da classe operária e na base da aliança operário-camponesa, ela será inevitavelmente vitoriosa e abrirá caminho para o socialismo.
Todavia, muitas das idéias e das medidas expostas e propugnadas por Frei Caneca têm atualidade, estão na ordem-do-dia. Igualmente, o caminho revolucionário, a luta armada, e a intransigência que preconizou e revelou são fundamentalmente os mesmos que hoje devemos trilhar e praticar no combate para pôr abaixo a ditadura militar e varrer com a dominação do imperialismo estadunidense.
Honra e glória eternas ao grande precursor da luta do povo brasileiro pela independência e pela democracia!

(Artigo de Pedro Pomar publicado no jornal A Classe Operária, 1974.)

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