Santa Teresinha do Menino Jesus, Carmelita.

“Minha vocação é o AMOR”. (Ms B, f. 3r)

“O amor pode suprir uma longa vida. Jesus não considera o tempo, pois no céu o tempo não existe mais. Ele só deve considerar o AMOR”. (CT 111)

Para Santa Teresinha Jesus é, no plano doutrinal, o Cristo. Entretanto, no plano afetivo, ao empregar o nome Jesus, demonstra familiaridade e pro­ximidade com Ele, entrega amorosa “nota dominante” de sua dou­trina e de sua vida e característica de sua santidade. Queria amar o bom Deus de forma muita intensa. E “o bom Deus” é Jesus. Na parede de sua cela escrevera: “Jesus é o meu único amor” (Proc. Ord., 1730). “Com o amor não somente avanço, mas vôo” (Ms A, f. 80v). Sua divisa carmelitana era “O amor, só com amor se paga”, lema tomado de João da Cruz (Cântico espiritual, estr. 9,7). “A cada instante o Amor Misericordioso me renova, purifica e não deixa em meu coração ve­s­tígio algum de pecado” (Ms A, f. 84r). O amor é para Santa Teresinha a fonte de energia que fecunda toda a sua vida espiritual.

Para compreender o amor de Deus e traduzi-lo em palavras compreensíveis desde a Bíblia, passando pela Liturgia e pelos santos, pre­cisamos de usar muitos raciocínios e elecubrações. Santa Teresinha pouco usa a literatura teológica para compreender o AMOR. Sua atitude prefe­rida, no amor como em tudo o mais, é uma atitude vivencial muito profunda: aquela que re­conhece a transcendência divina e os privilé­gios da graça da filiação divina, conciliando com audaciosa confiança a di­mensão da justiça e da mi­sericórdia do amor de Deus. O caráter fi­lial de seu amor é o corolá­rio de sua síntese de vida: permanecer sempre “bem pequenina” em face de Deus, confiante como a criancinha em seu pai, sabendo ser-lhe agradecida seja quando está adormecida, seja quando está acordada (Ms A, f. 75v).

Santa Teresinha expressa seu amor em gestos concretos, para “agradar a Jesus”, num eco ao próprio Jesus: “Faço sempre aquilo que é do agrado de meu Pai” (Jo 8,29). Perguntava-se às vezes angustiada: “O puro amor existirá mesmo em meu coração? Meus imensos desejos não são um sonho, uma loucura? ” (Ms B, f. 4v). Desejava viver um amor desinteressado; amar o bom Deus por Ele mesmo, sem qual­quer introversão egoística. São frequentes as suas palavras confir­mando este anseio. Numerosas vezes fala deste seu desejo ardente e confidencia que teria medo se “Jesus me dissesse que sou egoísta” (CT 65).

*Retiro Espiritual Carmelitano n. 6: A CAMINHO COM TERESA DO MENINO JESUS- Subsídio elaborado por AUGUSTA DE CASTRO COTTA C.D.P. e EMANUELE BOAGA O.Carm. In Memoriam.

Beato Frei Tito Brandsma, Carmelita. 

               A característica principal do grande Profeta é a oração, de que a sua vida está impregnada. Por isso, São Tiago apresenta-o como modelo vivo de contínua oração. Descobrimos na oração de Elias uma união providencial da oração oral e da oração contemplativa, esta última entendida no duplo significado de ativa e passiva.

               Temos nele um exemplo de oração litúrgica, pois na escola dos Profetas dava-se muito realce ao canto dos louvores divinos. A significação da palavra "Profeta" era na Lei antiga muito mais ampla do que agora. Profeta era não só aquele a quem Deus havia dado o dom da profecia, de vaticinar, mas também o que cantava as glórias de Deus juntamente com os outras, geralmente sete vezes por dia. Lemos, por exemplo, na história de Israel, que Saul contava-se entre os profetas não por possuir o dom da profecia, mas por haver-se unido a estes grupos peculiares no canto das glórias divinas. Elias foi Profeta em todos os sentidos que a palavra tem. Tinha uma escola e vários discípulos espalhados por diversos lugares; provavelmente presidia-lhes na oração, feita a horas determinadas.

               Podemos, pois, dizer que a oração litúrgica tem uma antiquíssima tradição, não obstante a posição secundária que ocupa em confronto com a oração mais profunda da meditação e da contemplação.

               A nossa Ordem não é uma Ordem de oração litúrgica como o é a antiga Ordem oriental dos monges de S. Basílio ou a ocidental dos Beneditinos; porém, o rito próprio da Ordem não deixa de dar-lhe singular relevo. Ocupa posição muito importante na nossa vida com Deus. A Regra convoca-nos para a celebração litúrgica em Coro do Ofício divino.

               Santa Teresa, atraída pela estima da oração litúrgica, impregnou-a de tal maneira com santas considerações, que transformou, em certo sentido, em oração contemplativa, em oração de contemplação ativa. Foi sempre notável a influência e atração da singela e devota oração litúrgica na Ordem do Carmo. Mais de um Carmelo se fundou por este motivo na Europa.

Beato Frei Tito Brandsma, Carmelita. 

               É de suma importância, tanto na vida espiritual como na vida comum de cada dia, termos um modelo em que inspirar-nos, um exemplo que possamos imitar. A espiritualidade Carmelita possui tal modelo.

               A Ordem do Carmo recebe o seu nome do monte sagrado em que teve origem. Na Terra Santa, onde cada montanha possui as suas grandes tradições e memórias, o Monte Carmelo pode gabar-se de algumas das mais santas e veneráveis. O Carmo ou o Carmelo é um nome afamado e conhecido, em todo o mundo cristão. A sua formosura natural rivaliza com a beleza das recordações que evoca. O seu perfil harmonioso eleva-se das águas do mediterrâneo, e do seu cume avista-se a ampla planície de Esdrelon a estender-se até ao longínquo horizonte, onde a alma contemplativa se debruça amorosamente sobre o mistério de Nazaré.

               O Carmelo é o sítio natural dos contemplativos. Não admira que nas suas vertentes se erga o Mosteiro do Carmo, o berço da Ordem. Sobranceiro ao redemoinho da vida e ao mar tempestuoso do mundo, a sua solidão está fora do alcance da inconstância da vida febricitante. Envolve-o a paz de Deus. Gostamos de identificar esta paz com o Carmelo, mas há outras recordações mais excitantes e mais turbulentas. A memória da tremenda luta espiritual de Elias contínua estreitamente vinculada ao monte santo. Foi aqui que o Profeta reuniu todo o povo de Israel para dirigir-lhe o seu mordaz desafio: "Até quando claudicareis com os dois pés? Se o Senhor é Deus, segui-O!" No Carmelo, Israel ouviu o seu repto na tocha flamejante de suas palavras de fogo. Elias, porém, foi mais do que o Profeta da espada, foi também aqui neste monte o primeiro da longa estirpe dos que adoram a Deus em espírito e em verdade. Reuniu à sua volta discípulos que dele aprenderam os profundos segredos da oração e da união com Deus. O seu duplo espírito passou para Eliseu, e deste para a escola dos Profetas, e pelos séculos afora a vida de Elias encontrou continuadores e renovadores nos ermitões que se deixaram inspirar por este seu grande modelo.              

               Quando a Europa foi sacudida pelo grito de guerra dos Cruzados: "Deus o quer!", e estes partiram para reconquistar os lugares santos, um dos primeiros pontos a ser ocupado foi o Monte Carmelo. Lá se encontraram as ruínas dos antigos santuários. Dizem que alguns ficaram na montanha para aí restaurar a vida antanho. Pela narrativa do monge grego João Focas (1177) sabemos que um dos Cruzados, São Bertoldo, foi exortado pelo Santo Profeta Elias a congregar os que no Monte Carmelo praticavam a vida eremítica, unindo-os numa comunidade religiosa. Isto talvez tenha acontecido em 1155. O Profeta, portanto, está no limiar da Ordem. Para prová-lo, apoiamo-nos não tanto em investigações históricas, mas sim nas marcas profundas que a sua memória e a sua vida deixaram na vida da Ordem. Elias foi sempre o grande modelo da Ordem. De fato, a sua influência tem sido tão constante que São Jerônimo o chama "pai de todos os eremitas e monges". Na sua carta a Paulino (Ep. 58 Ed. Migne, P. L. t. 22. pág. 583), refere-se a Elias, Noster princeps Elias, nostri duces filli Prophetarum (Elias, o nosso chefe: os filhos dos profetas, os nossos guias). Do mesmo modo, Cassiano, que nas sua Conferências, o aponta como o grande exemplo de todos os monges. O testemunho de Focas, já citado, confirma-se pelo de Tiago de Vittry, então Bispo de São João de Acre, que conhecia bem os eremitas. Escreveu-o em 1221, afirmando que muitos Cruzados permaneceram por devoção na Terra Santa, consagrando-se a Deus nos lugares santificados pela vida de Jesus Cristo. Alguns deles, continua o mesmo escritor, seguindo o exemplo de Elias, viviam nas grutas do Monte Carmelo ao pé da fonte do Profeta e do santuário de Santa Margarida. Não é providencial que os primeiros monges da Ordem do Carmo, como que para simbolizar a imitação de Elias, tenham bebido a água da fonte que dele recebeu o nome?

               Podemos mencionar também um velho manuscrito, "Institutio primorum Monachorum" (Vida dos primeiros Monges), que contém as mais antigas tradições da Ordem. Provavelmente foi composto no fim do século XIII ou no inicio do século XIV, depois da dispersão dos monges no Ocidente, mas em tempos passados era considerado de origem muito mais remota. Repositório de tradições consideravelmente mais antigas do que o próprio manuscrito, quer servir de guia seguro e permanente aos monges. Neste livro lemos que a direção dada a Elias pelo Espírito Santo e as promessas feitas aos Profetas hão-de ser os elementos normativos dos eremitas do Carmelo. A vida monástica deve seguir as linhas traçadas pela vida e experiência de Elias e refletir o seu duplo espírito, a saber, o apostolado e a prática da virtude na atividade individual ou social. Este duplo espirito tem uma tríplice significação.

Ontem fomos celebrar as maravilhas de Deus e contemplar as suas obras no Eremitério Fonte do Profeta Elias, no Alto do Rio das Pedras em Lídice, distrito de Rio Claro/RJ. Como o Senhor é compassivo e amoroso. Que Dia lindo preparou para nós. Fonte: Facebook: Lili Paula/ Angra dos Reis-RJ.

Último dia do Encontro de formadores e formadoras da Ordem Terceira do Carmo em São Paulo.

Frei Joseph Chalmers O. Carm.

 

  1. A Regra de Santo Alberto é um documento carismático que está no princípio de todas as formas de vida carmelitana. Neste breve texto estão os elementos essenciais do carisma carmelitano em sua fase inicial. Estes elementos foram plenamente trabalhados através dos anos seguintes e a tradição carmelitana foi enriquecida pelas vidas de um grande número de pessoas e especialmente por nossos santos. Toda pessoa que é chamada a viver de acordo com o modo carmelitano dá sua contribuição para a tradição e a transmite para os outros.
  2. Os religiosos carmelitanos têm Constituições por meio das quais a Regra de Santo Alberto é aplicada às condições dos dias de hoje. Do mesmo modo, a Ordem Terceira tem a sua regra. A primeira versão que conhecemos foi publicada em 1675 por Filipe da Visitação. Existem rumores de que, originalmente, ela foi redigida pelo Bem-aventurado João Soreth em 1455, o que é improvável. A atual regra da Ordem Terceira, como as Constituições dos religiosos, busca fazer a ligação entre o ideal carmelitano e a realidade atual daqueles que se empenham em vivê-la. Nestes últimos anos houve discussões e estudos, a nível nacional e internacional, com o objetivo de atualizar a regra da Ordem Terceira. Espero que, em breve, estejamos em posição de apresentar um texto adequado à Santa Sé, para posterior aprovação e publicação.
  3. Por todo mundo existem muitos padres diocesanos e diáconos permanentes que são membros da Ordem Terceira. A vocação deles é diferente da maioria dos leigos. No entanto, para todos os membros, a espiritualidade carmelitana é a inspiração na vivência que eles têm da mensagem do Evangelho em sua vida diária.
  4. A regra da Ordem Terceira define a missão dos leigos carmelitanos, que está enraizada no batismo e pelo qual cada cristão partilha no mesmo sacerdócio de Cristo, na sua dignidade real e em seu ministério profético. Os leigos exercem estas funções participando plenamente da vida da Igreja e aplicando os benefícios da liturgia em sua vida diária. Desta forma eles contribuem para a santificação do mundo.
  5. Dentro desta vocação batismal comum, alguns leigos são chamados a participar do carisma de uma família religiosa particular. Professar como membro leigo carmelita é uma repetição intensificada de nossas promessas batismais. Entrando na Ordem eles assumem para si o carisma carmelitano, que é profundamente marcado pela oração. Portanto, a oração, tanto litúrgica quanto pessoal, é uma parte vital e integrante da vida do leigo carmelita. A participação, diária se possível, na celebração da Eucaristia, é a fonte da vida espiritual e da fecundidade apostólica. O ofício divino, como uma partilha na oração de Cristo, é encorajado pelo leigo carmelita e também é uma fonte de grande ajuda na jorna espiritual. A oração pessoal é vital para a vida dos leigos carmelitas e os meios tradicionais, encontrados na espiritualidade carmelitana, são especialmente enfatizados. Acima de tudo temos a lectio divina, a escuta orante da Palavra do Senhor, que quer nos abrir para um relacionamento íntimo com Deus, em e através de Jesus Cristo. A devoção a Nossa Senhora é marcante para o leigo carmelitano, porque ela é a Mãe do Carmelo.
  6. Como todos os carmelitas, o leigo carmelitano é chamado a alguma forma de serviço, parte integrante do carisma dado à Ordem por Deus. Os leigos têm a missão de transformar a sociedade secular. Eles podem fazer isto de diferentes formas, de acordo com suas possibilidades. O grande exemplo para a ação profética é Elias, cuja atividade se origina numa profunda experiência de Deus.

 

  1. A fraternidade também é um elemento essencial do carisma carmelitano. Os leigos carmelitanos podem criar comunidade de várias formas: em suas próprias famílias, onde a igreja doméstica pode ser encontrada; em suas paróquias, onde cultuam a Deus com seus companheiros e companheiras, tomando parte plenamente nas atividades da comunidade; em sua comunidade carmelitana leiga na qual encontram apoio para a jornada espiritual; no local de trabalho e no lugar onde moram. Este último necessita do testemunho daqueles que estão comprometidos com o amor ao próximo, como Cristo nos ensinou, contribuindo assim para a transformação do mundo de acordo com o plano de Deus.
  2. A contemplação é o que cimenta os outros elementos do carisma. Como todos os membros da Família Carmelitana, os leigos carmelitanos são chamados a crescer no relacionamento com Cristo até se tornarem seus amigos íntimos e, como tais, ser uma poderosa influência transformadora no mundo. A assistência tradicional para o desenvolvimento da contemplação está muitas vezes ausente de nosso mundo, que é marcado pela atividade frenética. Portanto, os leigos carmelitanos devem encontrar tempo, para deixar de lado os cuidados da vida diária por um instante e permitir que Deus fale a seus corações em silêncio. Fortalecidos por este alimento, eles podem continuar sua jornada e olhar para o mundo com novos olhos. Os contemplativos podem ver a presença de Deus em situações improváveis. Deus sempre nos precede e está presente em qualquer situação antes de chegarmos. É nosso dever descobrir a presença de Deus nas coisas que nos rodeiam e proclamar esta presença para nosso mundo.

O Desafio

  1. Ser um leigo carmelitano não é apenas uma vocação acrescentada à vida. É uma vocação. Por isso, uma formação sólida é essencial assim como para os frades, as monjas e as irmãs. O desafio principal que os leigos carmelitanos encaram é traduzir os elementos essenciais do carisma carmelitano para a vida diária. Vamos tomar como exemplo a devoção à Nossa Senhora. Esta é uma parte profunda da tradição carmelitana. O que esta devoção significa no início do século XXI? No ano de 2001, a Ordem celebrou o 750º aniversário do escapulário. O papa lembrou, em sua carta pelo ano mariano carmelitano, que o escapulário era essencialmente o hábito da Ordem e, por isso, aquele que o usa deve ter alguma ligação com a Ordem e com sua espiritualidade. O escapulário é um símbolo poderoso da presença de Nossa Senhora não apenas nesta vida, mas também na transição desta vida para a vida eterna com Deus. O escapulário também implica num duplo compromisso. Nossa Senhora é a Padroeira, a Irmã e a Mãe dos carmelitas e, como tal, cuida de nós. Por outro lado, devemos colocar em prática as virtudes de Maria em nossa vida diária. Portanto, uma devoção carmelitana à Nossa Senhora não é realizada simplesmente pela recitação de algumas orações, sejam elas poucas ou muitas.
  2. Sendo uma Ordem, redescobrimos, nestes anos recentes, a Lectio Divina como um poderoso caminho de oração e de vida. A Lectio Divina é a escuta orante da Palavra de Deus que, como toda oração, busca abrir-nos à contemplação. Nossa Senhora é o modelo daquela que escutou a Palavra de Deus. É claro que não é suficiente apenas ouvir a Palavra. Maria a colocou em prática e nós também devemos fazer isso (cf. Lc 8,21). Na proposta tradicional da Lectio Divina, existe um tempo para a meditação sobre a Palavra que escutamos e esta ponderação deve levar-nos à oração que, por sua vez, leva ao silêncio, um silêncio profundo e aberto à contemplação. São João da Cruz escreveu, “Busque na leitura e você encontrará na meditação. Bata na oração e ela se abrirá para você na contemplação” (Máximas e Conselhos, 79).
  3. Maria, a Mãe do Carmelo ouvir e viveu a Palavra. Ela acolheu a Palavra e a meditava da maneira como a Palavra chegava até ela, nos acontecimentos de sua vida. Na Anunciação, ela aceitou e cooperou com a vontade de Deus que lhe foi trazida pela mensagem do Anjo. Aos pés da cruz ela aceitou e cooperou com a vontade de Deus através de sua dor. Nas palavras do Magnificat encontramos Maria, a contemplativa a olhar para o mundo através dos olhos da fé e glorificando a Deus pela realização do plano divino.
  4. Todos os carmelitas têm um relacionamento pessoal com Maria. Os carmelitas leigos têm que viver este relacionamento, imitando suas virtudes, ouvindo a Palavra de Deus na vida diária. O mundo em que vivemos nos encara com muitos desafios. As estruturas sociais que amparam a fé desapareceram em muitas áreas e a opção de seguir a Cristo precisa de coragem. A vocação dos leigos cristãos, acima de tudo, é a de ser fermento no coração do mundo secular. Os leigos carmelitanos vivem esta vocação, inspirados pela tradição carmelitana. No Magnificat, Nossa Senhora dá glória a Deus porque ela está consciente que Deus está agindo na transformação da realidade mesmo que as aparências evidenciem o contrário. Os leigos carmelitanos também permanecem com Maria aos pés da cruz, cooperando com a misteriosa vontade de Deus que deseja salvar todos os homens e todas as mulheres. Vivendo o Evangelho diariamente como Maria, nossa Padroeira, Irmã e Mãe, os leigos carmelitanos exercem seu papel na transformação do mundo.

Conclusão

  1. Nos últimos anos o conceito de “Família Carmelitana” tornou-se parte de nosso modo normal de pensar. Todos os carmelitas, religiosos e leigos, são membros da mesma família e vivem a mesma vocação de modos diferentes de acordo com os diferentes estados na vida. Somos herdeiros de uma grande tradição e temos o dever sagrado de passar esta tradição aos outros. Temos de fazê-lo de uma forma harmoniosa, através nossas vocações pessoais.
  2. Como membros da mesma Família, estamos unidos uns aos outros através de nossa oração feita uns pelos outros, e também por nossa assistência mútua. Deste modo, seremos testemunhas poderosas, na Igreja e no mundo, de que o carisma carmelitano está vivo e inspira continuamente as pessoas a viver a mensagem de Jesus Cristo. Através dos séculos da existência da Ordem, existiram muitas formas pelas quais as pessoas encontraram inspiração no carisma carmelitano. A Igreja aprovou oficialmente algumas destas formas enquanto outras pessoas preferem uma ligação mais livre com a Família. Algumas destas novas formas de ser carmelita, que estão emergindo nos dias de hoje em diversas partes do mundo, podem ser o começo de um novo trabalho do Espírito. Permaneçamos abertos à inspiração do Espírito e, com discernimento, saibamos ler os sinais dos tempos. O carisma de nossa Ordem encerra uma grande criatividade. Demos graças a Deus por sermos chamados ao Carmelo e agradeçamos a Deus por todos os nossos irmãos e irmãs.
  3. Que Deus abençoe nossa Família e nos leve a todos e todas para nossa terra celestial. Que Nossa Senhora do Monte Carmelo nos ensine a ouvir a Palavra de Deus e saibamos colocá-la em prática em nossa vida diária.

* Ex- Prior Prior Geral. 25 de maio de 2002. Festa de Santa Maria Madalena de’ Pazzi.

Frei Joseph Chalmers O.Carm. Ex- Prior Geral.

No 550º- Quingentésimo Quinquagésimo aniversário da Bula Cum Nulla, também celebramos a incorporação dos leigos à Família Carmelitana. A grande maioria de leigos carmelitanos pertencem ao que ainda é geralmente chamado de “Ordem Terceira”. Os termos “Primeira”, “Segunda” e “Terceira” são tirados da Ordem Servita do começo do século XVI. Eles nunca tiveram a intenção de fazer referência a uma hierarquia, mas simplesmente refletiram a realidade histórica de que alguns grupos foram fundados oficialmente antes de outros.

Em algumas Províncias, os membros da Ordem Terceira são chamados pelo nome genérico de “leigos carmelitanos”, apesar deste termo cobrir muitas outras realidades e grupos. Em diversos países existem antigas Fraternidades e Confraternidades Carmelitanas. Também existem muitos grupos novos surgindo em várias partes do mundo. Estes novos grupos dão testemunho da energia criativa que existe dentro da Ordem. Não devemos esquecer, é claro, dos milhões de pessoas que usam o escapulário de Nossa Senhora do Monte Carmelo. O caminho carmelitano tem inspirado muitos leigos pelo mundo a viverem o Evangelho de forma profunda e, às vezes, heróica.

Quero enfocar particularmente nesta carta os membros da Ordem Terceira, ou qualquer que seja o termo usado em diferentes países. Acredito fortemente que os leigos carmelitanos, no sentido de membros da Ordem Terceira, têm uma verdadeira vocação e são portadores de um carisma carmelitano para os outros assim como os frades, as monjas e as irmãs.

Os elementos principais do carisma carmelitano são bem conhecidos: oração, fraternidade e serviço. Estes três elementos são cimentados pela contemplação. Acima de tudo, os carmelitas são chamados a seguir Jesus Cristo e a viver o Evangelho na vida diária. Em nosso seguimento de Cristo, somos inspirados por duas figuras bíblicas: Nossa Senhora e o Profeta Elias. Todo carmelita, religioso ou leigo, é chamado a viver este carisma. O modo como juntamos estes elementos vai variar de acordo com nossa situação na vida. Os leigos devem viver o carisma carmelitano precisamente como leigos. Jesus disse que não estava pedindo ao Pai para tirar seus amigos do mundo, mas para guardá-los do Maligno (Jo 17,15). Todos os carmelitas estão no mundo de alguma forma, mas a vocação dos leigos é precisamente transformar o mundo secular.

A Regra e os Leigos Carmelitanos

A Regra de Santo Alberto é um documento carismático que está no princípio de todas as formas de vida carmelitana. Neste breve texto estão os elementos essenciais do carisma carmelitano em sua fase inicial. Estes elementos foram plenamente trabalhados através dos anos seguintes e a tradição carmelitana foi enriquecida pelas vidas de um grande número de pessoas e especialmente por nossos santos. Toda pessoa que é chamada a viver de acordo com o modo carmelitano dá sua contribuição para a tradição e a transmite para os outros.

Os religiosos carmelitanos têm Constituições por meio das quais a Regra de Santo Alberto é aplicada às condições dos dias de hoje. Do mesmo modo, a Ordem Terceira tem a sua regra. A primeira versão que conhecemos foi publicada em 1675 por Filipe da Visitação. Existem rumores de que, originalmente, ela foi redigida pelo Bem-aventurado João Soreth em 1455, o que é improvável. A atual regra da Ordem Terceira, como as Constituições dos religiosos, busca fazer a ligação entre o ideal carmelitano e a  realidade atual daqueles que se empenham em vivê-la. Nestes últimos anos houve discussões e estudos, a nível nacional e internacional, com o objetivo de atualizar a regra da Ordem Terceira. Espero que, em breve, estejamos em posição de apresentar um texto adequado à Santa Sé, para posterior aprovação e publicação.

Por todo mundo existem muitos padres diocesanos e diáconos permanentes que são membros da Ordem Terceira. A vocação deles é diferente da maioria dos leigos. No entanto, para todos os membros, a espiritualidade carmelitana é a inspiração na vivência que eles têm da mensagem do Evangelho em sua vida diária.

A regra da Ordem Terceira define a missão dos leigos carmelitanos, que está enraizada no batismo e pelo qual cada cristão partilha no mesmo sacerdócio de Cristo, na sua dignidade real e em seu ministério profético. Os leigos exercem estas funções participando plenamente da vida da Igreja e aplicando os benefícios da liturgia em sua vida diária. Desta forma eles contribuem para a santificação do mundo.

Dentro desta vocação batismal comum, alguns leigos são chamados a participar do carisma de uma família religiosa particular. Professar como membro leigo carmelita é uma repetição intensificada de nossas promessas batismais. Entrando na Ordem eles assumem para si o carisma carmelitano, que é profundamente marcado pela oração. Portanto, a oração, tanto litúrgica quanto pessoal, é uma parte vital e integrante da vida do leigo carmelita. A participação, diária se possível, na celebração da Eucaristia, é a fonte da vida espiritual e da fecundidade apostólica. O ofício divino, como uma partilha na oração de Cristo, é encorajado pelo leigo carmelita e também é uma fonte de grande ajuda na jorna espiritual. A oração pessoal é vital para a vida dos leigos carmelitas e os meios tradicionais, encontrados na espiritualidade carmelitana, são especialmente enfatizados. Acima de tudo temos a lectio divina, a escuta orante da Palavra do Senhor, que quer nos abrir para um relacionamento íntimo com Deus, em e através de Jesus Cristo. A devoção a Nossa Senhora é marcante para o leigo carmelitano, porque ela é a Mãe do Carmelo.

Como todos os carmelitas, o leigo carmelitano é chamado a alguma forma de serviço, parte integrante do carisma dado à Ordem por Deus. Os leigos têm a missão de transformar a sociedade secular. Eles podem fazer isto de diferentes formas, de acordo com suas possibilidades. O grande exemplo para a ação profética é Elias, cuja atividade se origina numa profunda experiência de Deus.

A fraternidade também é um elemento essencial do carisma carmelitano. Os leigos carmelitanos podem criar comunidade de várias formas: em suas próprias famílias, onde a igreja doméstica pode ser encontrada; em suas paróquias, onde cultuam a Deus com seus companheiros e companheiras, tomando parte plenamente nas atividades da comunidade; em sua comunidade carmelitana leiga na qual encontram apoio para a jornada espiritual; no local de trabalho e no lugar onde moram. Este último necessita do testemunho daqueles que estão comprometidos com o amor ao próximo, como Cristo nos ensinou, contribuindo assim para a transformação do mundo de acordo com o plano de Deus.

A contemplação é o que cimenta os outros elementos do carisma. Como todos os membros da Família Carmelitana, os leigos carmelitanos são chamados a crescer no relacionamento com Cristo até se tornarem seus amigos íntimos e, como tais, ser uma poderosa influência transformadora no mundo. A assistência tradicional para o desenvolvimento da contemplação está muitas vezes ausente de nosso mundo, que é marcado pela atividade frenética. Portanto, os leigos carmelitanos devem encontrar tempo, para deixar de lado os cuidados da vida diária por um instante e permitir que Deus fale a seus corações em silêncio. Fortalecidos por este alimento, eles podem continuar sua jornada e olhar para o mundo com novos olhos. Os contemplativos podem ver a presença de Deus em situações improváveis. Deus sempre nos precede e está presente em qualquer situação antes de chegarmos. É nosso dever descobrir a presença de Deus nas coisas que nos rodeiam e proclamar esta presença para nosso mundo.

O Desafio

Ser um leigo carmelitano não é apenas uma vocação acrescentada à vida. É uma vocação. Por isso, uma formação sólida é essencial assim como para os frades, as monjas e as irmãs. O desafio principal que os leigos carmelitanos encaram é traduzir os elementos essenciais do carisma carmelitano para a vida diária. Vamos tomar como exemplo a devoção à Nossa Senhora. Esta é uma parte profunda da tradição carmelitana. O que esta devoção significa no início do século XXI? No ano de 2001, a Ordem celebrou o 750º aniversário do escapulário. O papa lembrou, em sua carta pelo ano mariano carmelitano, que o escapulário era essencialmente o hábito da Ordem e, por isso, aquele que o usa deve ter alguma ligação com a Ordem e com sua espiritualidade. O escapulário é um símbolo poderoso da presença de Nossa Senhora não apenas nesta vida, mas também na transição desta vida para a vida eterna com Deus. O escapulário também implica num duplo compromisso. Nossa Senhora é a Padroeira, a Irmã e a Mãe dos carmelitas e, como tal, cuida de nós. Por outro lado, devemos colocar em prática as virtudes de Maria em nossa vida diária. Portanto, uma devoção carmelitana à Nossa Senhora não é realizada simplesmente pela recitação de algumas orações, sejam elas poucas ou muitas.

Sendo uma Ordem, redescobrimos, nestes anos recentes, a Lectio Divina como um poderoso caminho de oração e de vida. A Lectio Divina é a escuta orante da Palavra de Deus que, como toda oração, busca abrir-nos à contemplação. Nossa Senhora é o modelo daquela que escutou a Palavra de Deus. É claro que não é suficiente apenas ouvir a Palavra. Maria a colocou em prática e nós também devemos fazer isso (cf. Lc 8,21). Na proposta tradicional da Lectio Divina, existe um tempo para a meditação sobre a Palavra que escutamos e esta ponderação deve levar-nos à oração que, por sua vez, leva ao silêncio, um silêncio profundo e aberto à contemplação. São João da Cruz escreveu, “Busque na leitura e você encontrará na meditação. Bata na oração e ela se abrirá para você na contemplação” (Máximas e Conselhos, 79).

Maria, a Mãe do Carmelo ouvir e viveu a Palavra. Ela acolheu a Palavra e a meditava da maneira como a Palavra chegava até ela, nos acontecimentos de sua vida. Na Anunciação, ela aceitou e cooperou com a vontade de Deus que lhe foi trazida pela mensagem do Anjo. Aos pés da cruz ela aceitou e cooperou com a vontade de Deus através de sua dor. Nas palavras do Magnificat encontramos Maria, a contemplativa a olhar para o mundo através dos olhos da fé e glorificando a Deus pela realização do plano divino.

Todos os carmelitas têm um relacionamento pessoal com Maria. Os carmelitas leigos têm que viver este relacionamento, imitando suas virtudes, ouvindo a Palavra de Deus na vida diária. O mundo em que vivemos nos encara com muitos desafios. As estruturas sociais que amparam a fé desapareceram em muitas áreas e a opção de seguir a Cristo precisa de coragem. A vocação dos leigos cristãos, acima de tudo, é a de ser fermento no coração do mundo secular. Os leigos carmelitanos vivem esta vocação, inspirados pela tradição carmelitana. No Magnificat, Nossa Senhora dá glória a Deus porque ela está consciente que Deus está agindo na transformação da realidade mesmo que as aparências evidenciem o contrário. Os leigos carmelitanos também permanecem com Maria aos pés da cruz, cooperando com a misteriosa vontade de Deus que deseja salvar todos os homens e todas as mulheres. Vivendo o Evangelho diariamente como Maria, nossa Padroeira, Irmã e Mãe, os leigos carmelitanos exercem seu papel na transformação do mundo.

Conclusão

Nos últimos anos o conceito de “Família Carmelitana” tornou-se parte de nosso modo normal de pensar. Todos os carmelitas, religiosos e leigos, são membros da mesma família e vivem a mesma vocação de modos diferentes de acordo com os diferentes estados na vida. Somos herdeiros de uma grande tradição e temos o dever sagrado de passar esta tradição aos outros. Temos de fazê-lo de uma forma harmoniosa, através nossas vocações pessoais.

Como membros da mesma Família, estamos unidos uns aos outros através de nossa oração feita uns pelos outros, e também por nossa assistência mútua. Deste modo, seremos testemunhas poderosas, na Igreja e no mundo, de que o carisma carmelitano está vivo e inspira continuamente as pessoas a viver a mensagem de Jesus Cristo. Através dos séculos da existência da Ordem, existiram muitas formas pelas quais as pessoas encontraram inspiração no carisma carmelitano. A Igreja aprovou oficialmente algumas destas formas enquanto outras pessoas preferem uma ligação mais livre com a Família. Algumas destas novas formas de ser carmelita, que estão emergindo nos dias de hoje em diversas partes do mundo, podem ser o começo de um novo trabalho do Espírito. Permaneçamos abertos à inspiração do Espírito e, com discernimento, saibamos ler os sinais dos tempos. O carisma de nossa Ordem encerra uma grande criatividade. Demos graças a Deus por sermos chamados ao Carmelo e agradeçamos a Deus por todos os nossos irmãos e irmãs.

Que Deus abençoe nossa Família e nos leve a todos e todas para nossa terra celestial. Que Nossa Senhora do Monte Carmelo nos ensine a ouvir a Palavra de Deus e saibamos colocá-la em prática em nossa vida diária.

Frei Donald Buggert, O. Carm.

Sabemos que a correção fraterna é uma ordem de Jesus (“Vá e avise a ele... traga a questão para a assembléia... faça aos outros”). É um comando semelhante ao do amor fraterno (Jo 13,34; cf. Lv 19,17-18). Também devemos saber que a correção feita por nós deve basear-se na pedagogia de Deus: “Ele corrige aqueles que ama” (Pr 3,12; Ap 3,19) e comporta-se frente à pessoa que erra como um médico ou um pai/mãe (Hb 12,7-11). Por esta razão, a tradição da Igreja sempre uniu a correção fraterna à caridade. Na verdade, ela afirma que devemos corrigir com caridade.

A partir disso, podemos chegar à nossa primeira conclusão: na medida em que não somos capazes de corrigir nosso irmão com caridade, falhamos em realizar o mandamento do amor fraterno. Existe outra razão que nos leva a considerar a importância da correção fraterna: a responsabilidade. Todo fiel é chamado a sentir-se responsável pelo outro, ser um guardião da vida e da vocação de seu irmão (Ecl 4,9-11; Lv 19,17; 2Tm 3,5; Gl 6,1-2). Na verdade, esta responsabilidade é outra dimensão do mandamento do amor fraterno.

A partir disso, podemos chegar a uma segunda conclusão: somos chamados a corrigir nosso irmão porque o amamos e nos sentimos responsáveis tanto por sua vida humana quanto pela vida cristã, além de nos sentirmos responsáveis também pelo mal que ele fez.

Qual é o critério fundamental da correção fraterna? A resposta é caridade. Esta é a virtude teológica que determina se a correção é ou não apropriada. Se a correção corre o risco de dividir a comunidade, se não é vista como uma ajuda, ou se provoca escândalo, é melhor adiá-la para um momento mais propício. Contudo, a correção não deveria ser adiada por causa da preguiça, da vergonha, da conivência, do medo de represálias ou do rancor. Nem deveria ser adiada quando existe um risco de que, por não corrigir um irmão, ele possa cair mais profundamente no pecado com dano irreparável tanto para ele quanto para a comunidade.

Além disso, não é apropriado corrigir alguém que nutre o ódio, a vingança ou um complexo de perseguição. Em vez disso, é apropriado corrigir alguém que deseja o bem do outro no seu coração, que é paciente e moderado, que odeia o pecado e ama o pecador.

Sob a luz deste critério fundamental da caridade, que predisposições são exigidas na pessoa que deve corrigir? Deveríamos explicar de imediato que estamos falando de pré-disposições por uma razão simples. A correção não é fácil, nem para a pessoa que a recebe, nem para a pessoa que a realiza. De fato, é a pessoa que administra a correção (dependendo das circunstâncias, outro irmão ou a pessoa responsável na comunidade) quem experimenta a maior dificuldade. É por isso que ela necessita da predisposição necessária, reconhecendo sua própria fraqueza e seu próprio pecado (Lc 6,39-42). Depois ela precisa jejuar e orar para que a eficácia da correção dependa apenas de Deus.

Esta predisposição nos permite abordar a outra pessoa de um modo desarmado sem quaisquer traços de orgulho ou vanglória, simplesmente sendo forte no Evangelho. Nosso método é aquele indicado em Mateus 18,15-20: primeiro uma abordagem pessoal, depois com um pequeno grupo e, finalmente, diante de toda a comunidade. Mas este método deveria ser integrado, se podemos dizer isso da Palavra de Deus, à proporção fraterna. Em outras palavras, o irmão que erra não deveria ser criticado apenas negativamente. Deveriam ser reconhecidos também seus pontos positivos e todo o seu potencial de bondade.

A experiência nos ensina que a correção pessoal e comunitária deveria agir da seguinte forma: começar com os atributos positivos do irmão, depois apontar os elementos negativos (a razão para a correção) e, finalmente, concluir com outra contribuição positiva, para que se possa vencer o mal pelo bem (Rm 12,21). É assim que nos tornamos instrumentos da vontade de Deus, que cria o que é bom nas pessoas a quem Ele ama. Podemos ver como a promoção fraterna pode ser compreendida como algo bem distinto da correção. Seu objetivo é abraçar tudo de bom, verdadeiro e belo que Deus está criando através da própria vida, do trabalho e dos esforços de nossos irmãos.

Vivemos num mundo onde até o amor é condenado como uma fraqueza a ser superada. Fora com o amor! – assim o dizem. Em vez disso, desenvolva sua própria força. Cada pessoa está correndo para ser a mais forte. O fraco pode simplesmente morrer.

Também dizem que a religião cristã com sua pregação sobre o amor já teve seus dias e deveria ser substituída por uma altiva força alemã.

Sim! Estas pessoas se aproximam de nós com essas doutrinas e encontram pessoas que as aceitam de boa vontade. O amor é repudiado. “O amor não é amado”, disse Francisco de Assis e, alguns séculos depois em Florença, Santa Maria Madalena de’ Pazzi, em êxtase, tocou o sino do convento carmelitano para contar as pessoas o quanto o amor era realmente belo.

Eu também gostaria de tocar os sinos para dizer ao mundo o quanto o amor é belo. Precisamente porque o neopaganismo (Nacional Socialismo) não quer mais o amor, derrotaremos este paganismo pelo amor. A história nos ensina. Não abandonaremos nosso amor. Ele devolverá os corações dos pagãos para nós novamente. A natureza é superior à teoria. Deixemos que a teoria condene e reprima o amor e que o chame de fraqueza. A práxis da vida continuará a torná-lo uma força que vencerá os corações dos homens e os manterá derrotados. “Vejam como eles se amam”. Esta frase, que foi usada pelos pagãos referindo-se aos primeiros cristãos, deveria ser usada novamente pelos neopagãos sobre nós. Deste modo, venceremos o mundo.

Foi internado no Hospital Santa Catarina/SP, na noite de hoje- quarta-feira 13- O Frei Tadeu Passos Camargo, carmelita, 87 anos, (foto), do Convento do Carmo da Bela Vista, São Paulo. 

Frei Carlo Cicconetti, O. Carm. Roma. Adaptação Para a Ordem Terceira do Carmo, Frei Petrônio de Miranda, Delegado Provincial

Contexto sociocultural e Autoridade

            A Autoridade, sem dúvida alguma, é um conceito dissonante para a nossa mentalidade, principalmente para a realidade corrupta e corrompida do poder da política no Brasil. Na Bíblia e na espiritualidade carmelitana o poder-autoridade é qualificado como graça de Deus e vocação desde as primeiras linhas espirituais da primeira comunidade cristã e da Regra da Ordem dos Irmãos da Bem-Aventura Virgem Maria do Monte Carmelo.

           A relação tradicional superior- súdito, é posta diante do visor do julgamento pela mentalidade caraterística da nossa época, que se caracteriza pela forte acentuação que se põe sobre a liberdade da pessoa e no desejo de reencontrar no indivíduo as últimas raízes do seu agir evitando qualquer formalismo. Por outra parte, cresceu no indivíduo a consciência da sua interdependência com relação aos outros seres humanos, não somente no pequeno mundo, onde estava acostumado a viver, mas também num mundo mais amplo, globalizado, no diálogo entre as culturas, as classes sociais, as nações, as economias.

(Um olhar Bíblico sobre o Poder- O Poder aprofunda as suas raízes no Ágape Divino e é expressão de amor. Leitura de Ef 4,7.11-16).

O "Poder Sagrado" na Igreja, mistério de comunhão

            A Autoridade ou o poder de dar uma ordem, de pretender que seja cumprida, na Igreja e, portanto, em um Sodalício da Ordem Terceira do Carmo, tem uma componente mística, que está relacionada com o Mistério da Igreja e em última análise, com o Mistério do Deus-Trindade.

            Dentro de um Sodalício, e em conformidade com o carisma carmelitano, a autoridade de superior procede do Espírito do Senhor em união com a hierarquia (Prior, Delegado Provincial, Padre Provincial e Prior Geral da Ordem do Carmo).

            A Autoridade na Ordem Terceira do Carmo está a serviço do progresso espiritual de cada um em particular e da edificação da vida fraterna do Sodalício. É uma autoridade espiritual que deve favorecer e sustentar nos irmãos e nas irmãs antes de tudo, a total dedicação ao serviço de Deus.

            O ofício de governar ou organizar um Sodalício traz consigo a exigência de competência e responsabilidade do Prior e seu conselho, de fazer convergir as suas ações, os seus dons e seus projetos comuns de vida espiritual e de missão da comunidade. É um ofício de unidade, de comunhão, mesmo no sentido da visibilidade e da real eficiência, seja embora a nível dos indivíduos, da comunidade, mas também da Paróquia, Diocese ou da Província Carmelitana de Santo Elias

            O Prior se esforça para que a Igreja da Ordem Terceira de Angra não seja simplesmente um lugar de reza, rito um aglomerado de sujeitos onde cada um vive uma história individual, mas seja uma comunidade fraternal em Cristo na qual se busque e se ame a Deus acima de toda outra coisa.

A Autoridade no Carmelo

           O grupo de eremitas, "moradores do Monte Carmelo junto à Fonte", apresenta-se logo sob o signo da Autoridade-Obediência: estão sob a obediência de Brocardo e desejam exprimir a sua voluntária e total "obediência" a Cristo Jesus, reconhecendo-Lhe a "Soberania" universal (Regra 1 e 2), sacramentalmente manifestada na sua Igreja e nos seus Pastores. Desde o início procuram a aprovação da Igreja. "Alberto, por graça de Deus chamado a ser Patriarca da Igreja de Jerusalém, aos amados filhos Brocardo e outros eremitas, que vivem debaixo da sua obediência junto à Fonte, no Monte Carmelo, saúde no Senhor e bênção do Espírito Santo" (Regra 1).

            A Autoridade veem de Deus, os superiores fazem as vezes de Deus, são um serviço e um "ministério" (Câns 618, 619- Os superiores se dediquem diligentemente a seu ofício e, juntamente com os membros que lhes estão confiados, se esforcem para construir uma comunidade fraterna em Cristo, na qual se busque e se ame a Deus antes de tudo. Nutram, pois, os membros com o alimento frequente da Palavra de Deus e os levem à celebração da sagrada liturgia. Sirvam-lhes de exemplo no cultivo das virtudes e na observância das leis e tradições do próprio instituto; atendam convenientemente a suas necessidades pessoais; tratem com solicitude e visitem os doentes, corrijam os irrequietos, consolem os desanimados, sejam pacientes com todos). Estas são afirmações válidas até o dia de hoje e que aprofundam as suas raízes na concepção teológica e antropológica da Bíblia, recebida da Patrística e da Tradição da Vida Monástica. Pressupõe-se, naturalmente, a fé, que leva à esperança e ao amor. Para a teologia cristã isto inclusive é válido para a autoridade civil: o homem é o fim e a medida de todas as instituições humanas e divinas.

Nos três ramos carmelitas; Ordem Primeira, Ordem Segunda e Ordem Terceira, a Autoridade está orientada para o bem e o serviço da própria Igreja e, mais diretamente, para o serviço daqueles fiéis que com a profissão religiosa abraçam a vida e a santidade da Igreja na Forma de Vida carmelita, aprovada canonicamente pela própria Igreja. (Regra da OTC Nº 12)

Homem da Unidade e do Carisma da Ordem.

          Santo Inácio da Antioquia na sua Carta aos Cristãos de Filadélfia chamava o responsável por uma Comunidade pelo nome de "Homem determinado à Unidade", governado pela preocupação com a unidade. Homem da unidade, seja das pessoas, seja das várias instâncias e funções da comunidade - no nosso caso, da comunidade do Sodalício.

           O bem do Sodalício, que é a primeira e indispensável contribuição para a missão da Igreja, é o Carisma Carmelitano vivido e testemunhado na cidade de Angra dos Reis pelos irmãos e irmãs que, livremente-repito- LIVREMENTE- através dos Votos Perpétuos ou Solenes (OTC-Regra Nº 14) assumem publicamente viver a espiritualidade sob a orientação ou autoridade de um Prior ( a ). Em outras palavras, viver em comunidade é, na verdade, viver todos juntos a vontade de Deus seguindo a orientação do dom do Carisma carmelitano sob a autoridade do Prior e seu Conselho. Portanto, a autoridade consolida a unidade da Ordem Terceira do Carmo em cada um dos 37 Sodalícios  baseada sobre a caridade e a cooperação harmoniosa na luta pelo ideal que nos propusemos através da nossa consagração pelos votos.

         O Prior da Ordem Terceira do Carmo (a ) não é o guardião do status quo, que procura não incomodar os irmãos que estão dormindo ou que se limita a atender eventuais iniciativas de cada um em particular. Ele, consciente de que ao centro da comunidade está presente Cristo com o seu Evangelho, coloca-se ao serviço da vontade de Deus e dos irmãos, guiando-os à obediência a Cristo por meio do diálogo e oportuno discernimento, embora deixando firme a sua autoridade de decidir e ordenar o que se deve fazer. O Prior é no Sodalício estímulo a viver o nosso Carisma e é sinal e estímulo de união. (Regra da OTC do Carmo Nº 61).

        Os ( as ) Priores não estão dispensados do voto de obediência às autoridades superiores (Delegado Provincial, Padre Provincial e Prior Geral da Ordem) e, sobretudo, à vontade de Deus, a quem diz o Concílio, - usando expressões que soam com o timbre de outros tempos - deverão prestar contas das almas, que lhes foram confiadas. Não nos esqueçamos de que também somos responsáveis pelo dever de correção fraterna. Não se pode forçar a amar, e em vista disto o poder coercitivo não obtém por autoridade este fim, a não ser que sirva para fazer o interessado refletir; mas a intenção de defender a comunhão dentro da vida religiosa, a fidelidade ao carisma, os compromissos com terceiros.

Estilo de exercício da Autoridade: Um olhar Bíblico sobre o Poder.

(O poder de governar é graça, carisma e dom de Deus para a edificação da sua Igreja. Leitura de 1Cor 12,4-11. 28).

         A teologia da Autoridade tem as suas consequências quanto ao estilo de exercício: é o estilo de Deus, manifestado em Cristo Jesus. "Fazer as vezes de Deus", ser dóceis à sua vontade, expressar o amor paternal de Deus defronte aos religiosos confiados aos nossos cuidados pessoais, isto é um compromisso ascético-místico de conformação com a caridade de Deus Pai, que trata como a "filhos", no seu modo de respeitar a dignidade e a liberdade do homem (Câns. 617-619- Cân. 617 - Os Superiores desempenhem seu ofício e exerçam seu poder de acordo com o direito universal e com o direito próprio- Pode-se mesmo pensar numa "Espiritualidade da Autoridade".

Perguntas para reflexão.

1- Que lugar o Carisma Carmelita ocupa no exercício da minha relação com a autoridade do Sodalício? 

2- Estou consciente da importância e da missão do prior e seu concelho no Sodalício?

3- Após este olhar sobre o poder a partir da Bíblia, dos Documentos da Igreja e da Espiritualidade Carmelitana, quem melhor representa para ser o futuro prior ( a ) ou conselheiro ( a ) para este Sodalício?      

*XVº- CONSELHO DAS PROVÍNCIAS. (REFLEXÕES TEOLÓGICAS SOBRE O PODER DE GOVERNO NA ORDEM DO CARMO).