Então a vida não vale a pena? Nada disso! É justamente esse nada que nos leva a fazer tudo. Que nos amarra uns aos outros

 

Roberto DaMatta,Antropólogo

O inusitado da minha morte digital aliada à cultura de “progressismo populista”, inventora compulsiva de novidades de consumo, tem despertado temores infundados e preocupações legítimas nos especialistas. E, como eu não sou especializado em coisa alguma, exceto — como aprendi com Millôr — em “ciências ocultas e letras apagadas”, assinalei que não poderia haver inteligência sem complementar burrice, essa irmã dos imprevistos promovidos pela nossa sabedoria. Aí está a mudança climática que não me deixa mentir.

Os relatos da minha morte são muito exagerados. Vale citar, lembrou meu querido amigo Enylton de Sá Rego, o notável Mark Twain para remarcar que o cemitério em vida me concede a excepcional oportunidade de falar para os vivos com a licença poética dos mortos.

Morrer é como dormir e, dizem os desencarnados, é indubitável e não dói. No astral, logo você descobre que Deus não é gordo, como afirmou Vadinho a Dona Flor. Aliás, pude ouvir aqui que Ele está de dieta. Nas terras celestiais, fiz antropologia e visitei trabalho de campo, nos animados coquetéis do Purgatório, espaço de movimento incessante (almas chegando e saindo), e, com ajuda de Dante, mamãe e de Chico Xavier, escapei do Diabo de Machado de Assis, que me convidava para ser ministro de sua igreja, hoje finalmente próspera “no seu país”, conforme arrazoou com um riso polarizado.

Mas, como somos do privilégio — o código privativo de poucos —, decidi aproveitar a inusitada condição de ter estado nem lá nem cá para dizer algumas coisas.

O morto é sempre resgatado como bom. Quando é amado, provoca tristeza porque, ao vê-lo, perdemos a oportunidade de lhe dizer — cara a cara, coração a coração — como foi admirado nesta terra do bem limitado. País onde pensamos que o sucesso é concebido como pequeno e feito para poucos. Se um o alcança, estamos crentes que ele tira a vez dos outros quando, na verdade, cada pessoa bem-sucedida abre saídas — êxitos — para seus pares.

Que o leitor entenda que, como morto, falo de um campo intermediário — aquela área dos tresloucados —, dos que não sabem se são queridos ou rejeitados. Mas, pasmem, é bom ser morto. Estamos fora do palco, podemos sair do texto...

Entramos aí num drama mais complicado: da saudade. Dos elogios e gratidões que — valha-me Deus! — eu poderia ter feito, mas, por inveja, raiva, despeito ou ciúme, não fiz.

Os vivos têm muitas possibilidades, inclusive a de morrer. Os mortos entram no nada, porque saíram de todas as fantasias e possibilidades. Mas, como dizia Manuel Bandeira, dormem profunda e — eu, afoito, acrescento — refrescantemente.

Então a vida não vale a pena? Nada disso! É justamente esse nada que nos leva a fazer tudo. Que nos amarra uns aos outros pela fortaleza e vertigem da carne — muito mais pelo amor da temporalidade reversível da saudade, essa encarnação suprema do amar.

Morto digital que fui, não pedirei nada porque vi o sofrimento das almas penadas (elas são uma multidão), que viveram sem entrega e sem doação, confissão e comiseração. O que me faz voltar compulsivamente, o que posso, diz-me numa entrevista uma dessas pidonas almas penadas, é o amor que neguei, o perdão que não concedi, a compaixão que me metia medo, minha incrível sovinice — e o terror da minha finitude. Só agora, morto, descobri que a realidade da finitude nos leva ao infinito impensável. E nessas entrelinhas sentimos a chama intensa do humano em nós. Porque o humano é o acaso — esse procurado angelical do eterno. Esse eterno dono do universo que chamamos Deus!

Tal como fui terminado pela IA e, um dia, serei silenciado pelo implacável que chamamos de “a nossa hora”. O caminho sem retorno, sem o qual nem eu nem vocês, leitores queridos, teríamos a inútil, mas essencial volúpia de gozar a vida. Fonte: https://oglobo.globo.com