Frei Joseph Chalmers O. Carm. Ex-Prior Geral da Ordem do Carmo.

Invocação

Pai, revelaste a infidelidade de Acab por intermédio do profeta Elias. Ajuda-me a ser sempre fiel e envia teu Espírito ao meu coração para que eu possa ouvir tua voz e tua Palavra possa transformar minha vida. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Texto

Leia o texto atentamente pela primeira vez para compreender o sentido geral e para conhecer a história em detalhes.

1Rs 18,17 Logo que viu Elias, Acab lhe disse: “Estás aí, flagelo de Israel!”

18 Elias respondeu: “Não sou eu o flagelo de Israel, mas és tu e tua família, porque abandonastes Iahweh e seguiste os baals.

19 Pois bem, manda que se reúna junto de mim, no monte Carmelo, todo o Israel com os quatrocentos e cinqüenta profetas de Baal, que comem à mesa de Jezabel.”

Ler

Elias e Acab finalmente se encontram. O rei acusa o profeta de ser o flagelo de Israel (v. 17). Provavelmente o rei queria dizer que Elias enfureceu Baal e, por isso, o ídolo não enviou chuva. Mas Elias devolve a acusação a Acab. Foram o rei e sua família que causaram muitos problemas a Israel porque se esqueceram dos mandamentos de Iahweh e seguiram os baais (v. 18). A palavra está no plural porque existem muitas manifestações de Baal de Canaã. Elias quer provar quem é Deus em Israel. Ele pede que Acab reúna todo Israel para testemunhar uma disputa com os profetas de Baal no Monte Carmelo (v. 19). Para Elias trata-se de uma disputa de “tudo ou nada”. Ou Iahweh ou Baal é Deus em Israel. Não há lugar para os dois.

Refletir

Releia o texto de 1Rs 18,17-19.

As perguntas a seguir servem para ajudar sua reflexão sobre esse texto e facilitar que ele esteja mais próximo de sua experiência de vida.

  1. Acab diz que Elias é o flagelo de Israel. Uma pessoa santa nem sempre agrada porque mostra a falta de discernimento de outras pessoas. Você já encontrou alguém realmente santo? Como você se sentiu na presença de tal pessoa?
  2. Elias revelou a infidelidade de Acab. De que maneiras você é infiel a Deus?
  3. Se você tem consciência de alguma infidelidade ou pecado, o que está fazendo sobre essa questão? O que mais você pode fazer para crescer em seu relacionamento com Deus?
  4. O profeta Elias mencionou os 400 profetas de Baal que comiam à mesa de Jezabel. Existe sempre uma tentação de deixar de lado nossos princípios pelo bem da segurança. Seus princípios são intocáveis?

De acordo com a carta de Timóteo: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra” (2Tm 3,16-17).

A história do encontro entre Elias e Acab é bem curta. Você encontrou algo nessa história que pode ajudá-lo?

Responder

Releia o texto de 1Rs 18,17-19 para ouvir o que Deus tem a lhe dizer.

O profeta Elias parece estar repleto de confiança em Deus. Você confia em Deus? Converse com Deus agora. Talvez você queira rezar por uma confiança maior ou talvez por perdão. A oração a seguir, tirada dos salmos, pode ajudá-lo.

Bendigo a Iahweh que me aconselha, e, mesmo à noite, meus rins se instruem.

8 Coloco Iahweh à minha frente sem cessar, com ele à minha direita eu nunca vacilo.

9 Por isso meu coração se alegra, minhas entranhas exultam e minha carne repousa em segurança;

10 pois não abandonarás minha vida no Xeol, nem deixarás que teu fiel veja a cova!

11 Ensinar-me-ás o caminho da vida, cheio de alegrias em tua presença e delícias à tua direita, perpetuamente (Sl 16,7-11).

Repousar

A contemplação é um processo de crescimento que requer nossa fidelidade e cooperação. Os caminhos do Senhor não são os nossos, por isso somos convidados a começar uma jornada rumo ao desconhecido. Trata-se do desconhecido mas conhecemos o final da jornada, ou seja, nos tornaremos um com Cristo!

A contemplação é, acima de tudo, um caminho de fé. Não podemos julgar esse caminho com nossos sentidos comuns porque a fé vai além de nossa maneira humana de julgar. O único modo de julgar se a contemplação é verdadeiramente um encontro com Deus, é através de seus frutos, isto é, seus efeitos no nosso dia a dia.

Durante a oração profunda, deixamos de lado nossos próprios interesses e entramos no mundo de Deus. Pouco a pouco assumimos o sentimento de Cristo:

Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus:

6 Ele tinha a condição divina, e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente.

7 Mas esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana. E, achado em figura de homem,

8 humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz!

9 Por isso Deus o sobreexaltou grandemente e o agraciou com o Nome que é sobre todo o nome,

10 para que, ao nome de Jesus, se dobre todo joelho dos seres celestes, dos terrestres e dos que vivem sob a terra,

11 e, para glória de Deus, o Pai, toda língua confesse: Jesus é o Senhor (Fl 2,5-11).

Isso nos leva à virtude do desprendimento, que significa estar num relacionamento correto com tudo e com todos. De acordo com São João da Cruz e Santa Teresa d’Ávila, o desprendimento é uma das virtudes mais importantes da vida cristã.[1]  Muitas vezes nos definimos por nosso papel: professor, dona de casa, religiosa, padre e assim por diante. Se percebermos que algo está ameaçando esse papel, pode ser uma ameaça a toda nossa personalidade, todo nosso mundo.

Desprendimento significa nos libertarmos gradativamente das ligações desordenadas que temos com as pessoas e as coisas para obtermos a liberdade de filhos de Deus, e assim outras pessoas também se libertarão. A palavra “coisas” inclui muitas realidades diferentes. Ela inclui coisas materiais, idéias, sentimentos, emoções etc. As coisas materiais são boas e foram criadas para o uso de todos, mas é muito fácil deixar que as coisas escravizem nossos corações. São João da Cruz escreveu: “Pouco importa se o fio que prende a ave é fino ou grosso, pois ela permanece amarrada até que o fio se parta. É verdade que o fio mais fino pode ser partido mais facilmente; mas se não for partido, a ave não poderá voar”.[2]

Quando estamos muito próximos das coisas materiais, elas podem nos cegar para a realidade. Mas quando existe uma distância entre as coisas e nós, podemos vê-las numa luz verdadeira e apreciá-las pelo que elas são. Também devemos observar nossos sentimentos e emoções. Não é bom ignorá-los, mas se eles nos guiam e controlam, não somos livres. É muito perigoso e sem sentido reprimir emoções e sentimentos porque eles continuarão a emergir de algum modo até que prestemos atenção ao que eles estão nos dizendo. Um compromisso fiel com a oração nos ajuda a nos libertarmos de nossas emoções. Deus pode revelar lentamente nossos “interesses ocultos”, ou seja, aquilo que realmente nos motiva muitas vezes inconscientemente. Gostamos de pensar que nossos motivos são sempre cristãos, mas a verdade muitas vezes é outra.

Existe uma tendência dentro de nós de tentar dominar outras pessoas. Também existe uma tendência de transformar as pessoas em coisas para satisfazer nossas necessidades. Nosso chamado é para amarmos os outros como Deus os ama porque o amor divino é libertador. As pessoas são livres para se tornarem elas mesmas, quer isto aconteça para nos agradar ou não. Ao confiarmos em Deus em vários níveis de nossa personalidade, podemos começar a dar vida aos outros.

Desprendimento não significa rejeitar ou desprezar as coisas e muito menos as pessoas, caso elas prejudiquem de algum modo nosso precioso relacionamento com Deus. Isso não seria cristão nem humano. Não significa negar que temos certas emoções ou tentar reprimi-las porque pensamos que elas não podem fazer parte da imagem que temos de nós mesmos. Isso não ajuda em nada. Os sentimentos e as emoções não são bons nem ruins. Devemos aceitá-los como parte de nós mesmos. Talvez eles sejam uma parte que preferimos não reconhecer, mas contudo, eles são uma parte importante. Através de um relacionamento pessoal com Deus, a oração me ajuda a aceitar a mim mesmo como sou, do mesmo modo que Deus me aceita. Se Deus quisesse que fôssemos anjos, ele teria nos criado dessa maneira. O Filho de Deus tornou-se um de nós para que Deus pudesse experimentar o que significa ser humano. Insultamos Deus se tentamos reprimir nossa natureza humana, mas somos chamados a seguir rumo à maturidade, que significa tornar-se plenamente humano e plenamente vivo.

Existem certos estágios do desenvolvimento humano pelos quais devemos passar. O crescimento humano não cessa quando nos tornamos fisicamente adultos, mas o processo continua pelo menos até a morte. Uma parte importante do crescimento humano é a chamada “vida espiritual”. Existem vários estágios de desenvolvimento da vida cristã. Podemos ler sobre os grandes santos e talvez desejar ser como eles, mas somos chamados a sermos santos do nosso próprio modo através de nossa humanidade. Somos chamados a manifestar a imagem de Deus na qual fomos criados. Cada um de nós possui um dom único para revelar um aspecto particular de Deus através de nossa personalidade. Não podemos nos tornar santos num dia. O caminho para a perfeição de nossa humanidade é longo. O Êxodo é um bom modelo para a jornada que cada um de nós deve empreender. Os israelitas estiveram 40 anos no deserto antes de terem a permissão de entrar na Terra Prometida. Precisamos de um pouco de paciência com o processo e, acima de tudo, conosco.

Não podemos passar de um estágio de crescimento para o outro até que tenhamos nos ocupado com o que precisa ser trabalhado a cada etapa. Contudo, existe um tempo para continuar e não se atrasar. O que é bom num momento pode tornar-se um obstáculo mais tarde. Como diz São Paulo, “Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei homem, fiz desaparecer o que era próprio da criança” (1Cor 13,11). Devemos abandonar o que não ajuda no momento certo. Pode ser doloroso deixar para trás muitas coisas que foram importantes para nós, mas isso é necessário para que possamos continuar a jornada sem estarmos sobrecarregados com muita bagagem desnecessária.

Nossa tendência é nos apossarmos espontaneamente das pessoas e das coisas pensando que elas nos trarão felicidade. No entanto, em algum momento de nossa vida descobriremos que isso não é verdade. Com a ajuda de uma oração constante e comprometida descobrimos que apenas Deus pode responder aos desejos de nosso coração. Deus é a fonte e o objetivo de todos os nossos desejos. Gradualmente alcançamos a compreensão de que só Deus pode nos satisfazer plenamente. Francisco de Assis é um modelo importante de uma pessoa realmente livre. Ele amou toda a criação com grande paixão, mas por causa de seu amor por Deus, Francisco não se deixou escravizar por nada.

Lenta, mas seguramente, ao crescermos em nosso relacionamento com Deus podemos deixar de lado as ligações óbvias. É um processo lento, mas certo. Então devemos nos dedicar as ligações mais sutis. Do mesmo modo que nos apossamos das coisas materiais ou das pessoas, também podemos nos apossar das coisas e até mesmo dos sentimentos espirituais.

A oração em segredo, método que pode ser encontrado no Apêndice I, nos ajuda a deixar de lado o controle quando se trata de oração. A princípio deixar de lado o controle não será agradável porque gostamos de ter controle sobre o que está acontecendo. Mas ao fazermos isso, descobrimos que estamos em boas mãos, isto é nas mãos de Deus. No decorrer desse processo, precisaremos confrontar várias tentações que são modos de tomar o controle de Deus.

Deixe de lado suas palavras, idéias, opiniões, pensamentos e deixe um pequeno espaço para Deus falar ao seu coração. Para ajudar a mantê-lo alerta no silêncio, sugiro a oração em segredo, que está detalhada no Apêndice I. A única verdadeira distração nesse tipo de oração é levantar-se e sair antes do final do tempo que você decidiu dedicar a ela. Todos os pensamentos, mesmo os mais interessantes, não são necessariamente distrações. Não resista, retenha ou reaja a nenhum pensamento. Quando você perceber que está distraído, volte sempre calmamente à sua palavra sagrada, símbolo de sua intenção de permanecer na presença de Deus e de estar aberto à ação divina.

Agir

Escolha uma palavra ou frase do texto ou de sua própria reflexão e continue seu relacionamento com Deus para que sua oração se prolongue durante o dia. Não estou sugerindo nenhuma palavra ou frase do texto que usamos neste capítulo.

Qualquer método de oração é útil porque nos ajuda a crescer em nosso relacionamento com Deus. Se esse relacionamento está realmente crescendo, ele afetará todo aspecto da vida. A oração em segredo não é simplesmente um método de oração que podemos usar uma vez ou duas durante o dia. Trata-se de uma disciplina espiritual e o método é apenas uma parte dela. Em primeiro lugar, essa oração em segredo não substitui todas as outras maneiras de nos relacionarmos com Deus. Devemos continuar a desenvolver nosso relacionamento com Deus, usando tudo que possa nos ajudar. Seria normal se uma prática constante da oração em segredo nos ajudasse a apreciar mais profundamente nossas devoções tradicionais. A oração em segredo vem da tradição da Lectio Divina, e combina com a leitura habitual da Bíblia. Ela nos ajuda a entrar mais profundamente na Bíblia e a apreciá-la sob um outro ponto de vista. A Bíblia não contém apenas histórias sobre pessoas que morreram há muito tempo. Ela contém a Palavra de Deus para cada um de nós neste exato momento. Quando não temos muito tempo, podemos escolher uma Palavra ou frase dos Evangelhos para levar conosco durante o dia. Quando escutamos Deus no silêncio de nosso coração, tomamos consciência de que Deus está realmente nos falando na Bíblia. Para ter certeza de que o silêncio não está vazio, não devemos desprezar o alimento que Deus nos oferece durante o dia.

É muito importante que sejamos fiéis ao nosso encontro diário com Deus. Muitas pessoas dizem que não têm tempo para a oração. Isso pode ser verdade, mas muitas vezes essas palavras simplesmente transmitem as prioridades de quem fala. Sempre encontramos tempo para fazer o que queremos. Talvez seja verdade que não temos muito tempo para oração, mas não precisamos realmente de muito tempo. Para um método como o da oração em segredo, o tempo normalmente recomendado é de 20 minutos duas vezes ao dia.

Só podemos fazer o que é possível. A oração é nossa resposta à iniciativa de Deus. Deus não precisa de tempo como nós. Deus pode fazer maravilhas sozinho, mas Ele normalmente busca nossa cooperação. Quando damos tempo a Deus, demonstramos que estamos levando a jornada espiritual a sério. Devemos ser criativos para encontrar oportunidades de estar com Deus e para fazer uso dessas oportunidades. O que realmente importa é nossa intenção. Se realmente desejamos que Deus se aproprie de nossos corações, devemos tornar esse desejo uma realidade vivendo uma existência centrada em Deus. Se aceitarmos as conseqüências, tudo sairá bem. Não é possível ser mais generoso do que Deus.

A formação espiritual também é importante. Parece que hoje algumas pessoas preferem uma religião na qual possam escolher as partes que gostam. A formação espiritual de muitos cristãos parece limitada ao que elas aprenderam no catecismo e no sermão de domingo. A prática da oração em segredo vem da tradição contemplativa cristã. Quando a pessoa inicia uma prática como essa, ela se interessa em aprender mais sobre essa tradição. A tradição contemplativa cristã contém a sabedoria de séculos e a experiência dos grandes santos. Ela está aberta àqueles que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir, e também àqueles que querem aprender mais sobre a fé. Não é necessário ser muito inteligente ou ter formação para ter um relacionamento profundo com Deus. Mas a ignorância culpável não pode ser considerada uma virtude.

Tente ouvir seu coração durante o dia. O que é realmente importante para você? Você está realmente buscando apenas Deus ou existem outros “deuses” em sua vida?

*Do Livro; O Som do Silêncio.

[1] Caminho da Perfeição, 8; Noite Escura, 12.

[2] Ascensão do Monte Carmelo, I, 11,4.