"Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós, Deus Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre".
Com estas palavras solenes o sacerdote finaliza a oração eucarística cujo ponto central é o mistério da transubstanciação. Estas palavras expressam, de modo sintético, todo o sentido da oração da Igreja: honrar e glorificar ao Deus Trino, por Cristo, com Cristo e em Cristo. Embora aquelas palavras estejam dirigidas ao Pai elas são, ao mesmo tempo, glorificação do Filho e do Espírito Santo. O que a oração exalta é a majestade transmitida, por toda a eternidade, do Pai ao Filho e deles ao Espírito Santo.
Todo louvor a Deus se realiza por, com e em Cristo. Por ele porque somente por meio de Cristo a humanidade chega ao Pai e porque sua existência como Deus-homem e sua obra de salvação são a mais perfeita glorificação do Pai. Com Ele, porque toda oração verdadeira é um fruto da união com Cristo e, ao mesmo tempo, um aprofundamento desta união. Assim, todo louvor ao Filho é também um louvor ao Pai. Do mesmo modo, quando se louva ao Pai também o filho é louvado. Em Cristo, porque a Igreja em oração é o próprio Cristo - cada indivíduo que ora participa do seu Corpo Místico - e porque o Pai está no Filho. O Filho é o reflexo resplandecente do Pai, cuja glória manifesta. O duplo sentido de cada uma destas três expressões - "por ele", "com ele"e "nele- exprime, claramente, o papel de mediador do homem-Deus. A oração da Igreja é a oração do Cristo sempre vivo. Seu modelo original é a prece do Cristo durante sua vida humana.
A oração da Igreja como Liturgia e Eucaristia
Os evangelhos nos contam que Cristo rezou, como rezava um judeu devoto e fiel à Lei. Nos tempos prescritos ia a Jerusalém em peregrinação para participar - quando criança com seus pais e mais tarde com seus discípulos - das celebrações das grandes festas no Templo. Certamente ele cantou com santo fervor, junto com seu povo, os cânticos de regozijo que transbordavam a alegria antecipada dos peregrinos: "Que alegria, quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!"(Sl.122,1). Ele pronunciou as antigas orações de bençãos sobre o pão, o vinho e os frutos da terra, tal como são pronunciadas ainda hoje . Disto nós sabemos pela narração da ceia quando, pela última vez, ele reuniu seus discípulos para cumprirem um dos deveres religiosos mais sagrados: o cerimonial da ceia pascal, que celebrava o fim da escravidão no Egito. E é, talvez, precisamente esta última reunião que nos oferece o mais profundo vislumbre do interior da oração do Cristo e nos dá a chave para compreender a oração da Igreja.
"Durante a ceia, Jesus pegou o pão, pronunciou a benção, o partiu e o deu a seus discípulos dizendo: "Tomai, comei: isto é meu corpo". Depois, pegando uma taça e dando graças, ele a deu a eles dizendo: "Bebei todos vós, pois este é meu sangue, o sangue da Aliança, derramado por todos para a remição dos pecados."1 Abençoar, repartir o pão e o vinho pertencem ao rito da ceia pascal. Mas, aqui, eles receberam um sentido inteiramente novo. Foi aqui o começo da vida da Igreja. É bem verdade que somente em Pentecostes ela surgirá como comunidade visível e cheia do Espírito. Mas aqui, nesta ceia pascal, se realizou o enxerto dos brotos sobre a vinha, enxerto que tornou possível a efusão do Espírito. As antigas fórmulas de benção, na boca de Cristo, se tornaram palavras criadoras de vida. Os frutos da terra se tornaram seu corpo e seu sangue, repletos de sua vida.
A criação visível, no ceio da qual Ele já havia penetrado pela Encarnação está, agora, unida a Ele de um modo novo e misterioso. As substâncias que servem para sustentar a vida humano foram radicalmente transformadas e, aqueles que as consumir na fé, também serão transformados: passaram a participar da vida de Cristo, a Ele incorporados e, repletos de Sua vida divina. O poder do Verbo, criador de vida, está ligado ao sacrifício. O Verbo se tornou carne para libertar a vida que ele havia assumido; para oferecer a si mesmo e a criação redimida, por seu sacrifício, em louvor ao Criador. Pela última ceia do Senhor, a ceia Pascal da Antiga Aliança converteu-se na Páscoa da Nova Aliança - no sacrifício da cruz sobre o Gólgota, em cada uma das ceias alegremente celebradas entre a Páscoa e a Ascensão, quando os discípulos reconheciam o Senhor nas frações do pão e no sacrifício da missa, pela Santa Comunhão. 1Mt 26, 26-28
Ao pegar a taça, o Senhor deu graças; nós podemos considerar que aquelas palavras de benção exprimiam, tão somente, um agradecimento ao Criador. Mas nós sabemos, também, que Cristo acostumava dar graças cada vez que, antes de realizar um milagre, elevava os olhos para seu Pai do céu. Ele dava graças porque sabia, antecipadamente, que seria atendido. Ele dava graças, também, pelo poder divino que trazia em si e pelo qual manifesta, aos olhos dos homens, a onipotência do Criador. Ele dava graças pela obra de Redenção que lhe foi dada realizar, obra que foi, em si, glorificação da trindade divina pela qual ele restaurou, para a sua pura beleza a imagem de Deus que fora desfigurada. Pode-se considerar também o contínuo sacrifício do Cristo sobre a cruz, na santa Missa e na eterna glória do céu como sendo uma só e grande ação de graças: a Eucaristia. Como ação de graças pela criação, redenção e consumação. Cristo ofereceu a si mesmo em nome de toda a criação, da qual é o modelo original, e na qual desceu para renovar interiormente e conduzi-la à perfeição. Mas ele chama, também, todo o mundo criado para, em união com Ele, dar as graças devidas ao Criador.
Na Antiga Aliança, já havia uma certa compreensão deste caráter eucarístico da oração. A obra prodigiosa da Tenda da Aliança e, mais tarde, o Templo de Salomão, construídos segundo especiações divinas, foram consideradas como a imagem de toda criação, unida na adoração e no culto do seu Senhor. A tenda em volta da qual o povo de Israel acampava durante sua peregrinação no deserto, chamava-se "A casa de Deus entre nós"(Ex. 38, 21). Ela foi concebida como a "morada aqui de baixo"em oposição à "morada lá do alto". Ela "representava mais que o universo criado", por isto o salmista canta :"Iahweh, eu amo a beleza de tua casa e o lugar onde a tua glória habita."(Sl 26, 8). Assim, como o céu - segundo a história da criação foi estendido como um tapete, também foi prescrito que as paredes da tenda deveriam ser constituídas de tapetes.
Assim como as águas do céu foram separadas das águas da terra, também uma cortina, no Templo, devia separar o lugar santo do lugar santíssimo(Cf. Ex.26,33). O mar de "bronze" foi construído tendo por modelo o mar contido por suas praias. Na tenda, o candelabro de sete braços, representava as luzes do céu. Os cordeiros e os pássaros representavam a multidão de seres vivos que povoam a água, a terra e o ar. Da mesma forma que a terra foi entregue aos cuidados dos homens, o santuário foi entregue aos cuidados do sumo-sacerdote, "que foi ungido para agir e servir na presença do Senhor". Quando concluiu a construção da morada, Moisés a abençoou, consagrou com os santos óleos e a santificou , tal como Senhor havia bendito e santificado no sétimo dia, a obra de suas mãos (Dt. 30:19).
Assim como o céu e a terra dão testemunho de Deus, também a tenda devia ser, na terra, o Seu testemunho. Em lugar do Templo de Salomão, Cristo construiu um templo de pedras vivas: a comunhão dos santos. No centro deste templo ele se encontra como o Sumo e eterno Sacerdote; sobre o altar está, Ele mesmo, o eterno sacrifício ofertado. E toda a criação participa desta "liturgia", o solene serviço de adoração: os frutos da terra, reunidos em oferendas misteriosas , as flores e os candelabros, os tapetes e as cortinas do Templo, o sacerdote consagrado, como também, a unção e a benção da casa de Deus. Os Querubins não estão ausentes. Suas figuras visíveis, esculpidas pela mão do artista, foram postos como vigias ao lado do Santo dos Santos. E, como cópias vivas deles, os monges, "semelhantes aos anjos", rodeiam altar do sacrifício e asseguram que o louvor a Deus, jamais cesse, tanto na terra como no céu. Eles são a boca da Igreja que canta, suas orações solenes emolduram o Santo Sacrifício. Elas também impregnam, emolduram e santificam todas as outras tarefas do dia, de tal forma que a oração e o trabalho tornam-se uma única opus Dei, uma única liturgia. Suas leituras da Santa Escritura e dos Santos Padres da Igreja, do santoral da Igreja e dos ensinamentos de seus pastores são um grande, contínuo e crescente hino de louvor à ação da Providência e à realização progressiva do plano eterno da salvação. Seus cantos matinais de louvor convidam toda a criação a se unir no louvor ao Senhor: montanhas e colinas, rios e riachos, mares e terras e todos aqueles que neles habitam; nuvens e ventos, chuva e neve, todos os povos da terra, todos os homens - de todas condições e de todas as raças - e também, todos os habitantes do céu, anjos e santos. Os anjos participam da grande Eucaristia da criação, não somente por meio de suas representações feitas pela mão do homem ou de suas imagens humanas, mas em pessoa.2 Nós todos devemos nos unir, em nossa liturgia, aos seus eternos louvores a Deus. "Nós", aqui, não se refere somente aos religiosos que foram chamados para os louvores solene a Deus, mas a todo o povo cristão.
Quando o povo cristão vêm, nos dias santos, às catedrais e igrejas, quando eles participam ativa e jubilosamente nos corais e nas formas renovadas da vida litúrgica, este povo cristão está testemunhando que está consciente de sua vocação para louvar o Senhor. A unidade litúrgica da Igreja do céu e da Igreja da terra, que dá sua ação de graça "por Cristo", encontra sua mais forte expressão no Prefácio e no Sanctus da Santa Missa. Entretanto, a liturgia não deixa subsistir qualquer dúvida sobre o fato de que nós não somos, ainda, cidadãos plenos da Jerusalém celeste, mas somente peregrinos a caminho da nossa pátria eterna. Nós temos de nos preparar antes de poder ousar elevar os olhos para as alturas radiantes e unir nossas vozes ao «Santo, Santo, Santo...» do coro celestial. Toda coisa criada, para ser empregada no ofício divino, deve ser retirada de seu uso profano; deve ser purificada e consagrada. Antes de subir ao altar o sacerdote deve purificar-se, confessando suas faltas e, os fiéis como ele, devem fazer o mesmo. A cada nova etapa da Missa, ele deve renovar a oração pela remissão de seus pecados, daqueles que estão à sua volta e por todos aqueles que devem receber em abundância os frutos do sacrifício.
O sacrifício é sacrifício de expiação, que transforma os fiéis, assim como as oferendas, abrindo o céu para eles, tornando-os capazes de dar graças de um modo que seja agradável a Deus. Tudo aquilo de que necessitamos para sermos acolhidos na comunhão dos santos está resumido nos sete pedidos do Pai Nosso que o Senhor rezou, não em se próprio nome, mas para nos ensinar. Nós o dizemos antes da comunhão e, se o fizermos sinceramente e segundo a expressão utilizada por Erik Peterson em seu livro "Buch von dem Engeln - (Livro dos Anjos) Leipzig, Hegner, 1935 - que mostrou, de uma maneira insuperável, a união da Jerusalém celeste e da terra na celebração da liturgia.
de todo nosso coração e recebermos a santa comunhão com a disposição de um espírito apropriado, Ela nos trará a realização de todos nossos pedidos. A comunhão nos livra do mal porque nos purifica de todos os pecados e nos dá a paz do coração que afasta o aguilhão de todos outros "males". Ela nos dá o perdão dos pecados cometidos e nos fortalece contra as tentações. Ela é, em si mesma, o Pão da Vida de que necessitamos todosdos os dias, para lançarmos raízes e crescer até a entrada na vida eterna. Ela faz de nossa vontade um instrumento dócil à vontade divina. Além disso, ela põe as fundações do Reino de Deus em nós dando-nos lábios limpos e coração puro para glorificarmos o Santo Nome de Deus. De novo, portanto, se manifesta como o ofertório, a comunhão e o louvor divino são intrinsecamente unidos. A participação no sacrifício e na ceia sagrada transforma a alma em uma pedra viva da Cidade de Deus e, verdadeiramente, cada uma em templo de Deus.
O Diálogo solitário com Deus como oração da Igreja
A alma de cada ser humano é um templo de Deus - isto nos abre um novo e vasto horizonte. A vida de oração de Jesus pode ser a chave para compreendermos a oração da Igreja. Vimos que Cristo participou nas cerimônias públicas e prescritas do seu povo, isto é, participou daquilo que usualmente denominamos de "liturgia. "Ele estabeleceu a mais íntima relação entre esta liturgia e a oferta de sua própria pessoa e, também, pela primeira vez deu-lhe o pleno e verdadeiro sindicado, que é a ação de graça da criação para o seu Criador. Foi assim que ele fez a liturgia do Antiga Aliança realizar-se na Nova Aliança. Mas Jesus não participou somente das cerimônias públicas e prescritas. Talvez, com mais frequência que estas, os evangelhos nos falam de sua oração solitária no silêncio da noite, no alto das montanhas, no deserto, distante dos homens. Quarenta dias e quarenta noites em oração precederam a vida pública de Jesus.
Antes de escolher e enviar seus doze apóstolos, Ele retirou-se para rezar na solidão das montanhas. Com sua oração no monte das oliveiras se preparou para sua subida ao Calvário. O pedido que fez ao seu Pai, nesta hora que foi a mais difícil de sua vida, nos é contada em poucas palavras. Palavras que foram dadas a nós, como estrelas-guia, para nos orientar quando vivemos nosso calvário pessoal: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!" Como relâmpago, estas palavras iluminaram por um instante, para nós, a vida espiritual mais íntima de Jesus, o insondável mistério de sua existência como Deus homem e seu diálogo com o Pai. Este diálogo foi, certamente, contínuo e durante toda a sua vida.
Cristo rezava interiormente não somente quando se afastava da multidão, mas também quando estava entre seu povo. E, uma vez, ele nos permitiu olhar longa e profundamente este diálogo secreto. Foi pouco antes da hora do Monte das Oliveiras; na despedida: ao final da última ceia com seus discípulos que foi, como já vimos, a hora do nascimento da Igreja. "Tendo amado os seus ... amou-os até o fim."Ele sabia que esta era a última vez que estariam juntos, e procurou dar-lhes tudo o que era possível dar naquele momento. Ele teve que se conter para não dizer mais. Certamente sabia que eles não conseguiriam compreender mais nada , na verdade, eles sequer podiam entender o pouco que já haviam recebido até aquele momento. Era necessário que o Espírito da Verdade viesse abrir seus olhos para tudo o que estava acontecendo. Depois de ter dito e feito tudo o que podia dizer e fazer, ele ergueu seus olhos para céu e falou para ao Pai diante deles. Nós chamamos estas palavras de "Oração Sacerdotal" de Jesus. Esta conversação solitária com Deus também tem antecedente na Antiga Aliança.
Uma vez por ano, no maior e mais santo dos dias, o dia da reconciliação, o Sumo Sacerdote entrava no Santo dos santos para, diante da face do Senhor, orar" em favor da sua casa e em favor de toda assembleia de Israel", aspergia o trono da graça com o sangue de um novilho e de um carneiro anteriormente imolado e, deste modo, absolvia a ele mesmo e sua casa "das impurezas dos filhos de Israel e das rebeldias deles, isto é, de todos os seus pecados. "Ninguém podia estar na tenda (i.e., no lugar santo que se estendia diante do Santo dos Santos) quando o Sumo Sacerdote ficava na presença de Deus, neste temível e sublime lugar, neste local onde ninguém, exceto ele ingressava e somente naquela hora. Além disso, tinha que queimar incenso para que "a nuvem perfumada recobrisse o propiciatório ... para que ele não morresse. "Aquele encontro solitário se realizava no segredo mais profundo. O Dia de Reconciliação é, no Antigo Testamento, a figura da sexta-feira santa. O carneiro imolado pelos pecados do povo representa o Cordeiro imaculado de Deus (como o representa, também, aquele outro, que era enviado ao deserto, após ter sido escolhido pela sorte, para carregar os pecados do povo). E Sumo Sacerdote, da descendência de Aarão, simbolizava o Sumo e Eterno Sacerdote. Na última ceia Cristo previu sua morte como sacrifício e pronunciou a Oração Sacerdotal. Ele não tinha necessidade de oferecer sacrifício para si, pois Ele não tinha pecados. Ele não tinha que esperar a hora prescrita pela Lei e tampouco entrar no Santo dos Santos do templo. Ele está, sempre e em todos lugares, diante da face de Deus; sua alma é o Santo dos Santos, não somente como a morada de Deus, pois a Ele está unida de modo essencial e indissoluvelmente. Ele não tinha que se esconder de Deus por trás de uma nuvem protetora de incenso. Ele contempla, diretamente, a face do Eterno e não tem nada a temer. A visão do Pai não o mataria. E ele desvela o mistério do reino do Supremo Sacerdote. Todos que a ele pertencem podem entender como Ele falou ao Pai no Santo dos Santos do Seu coração; Todos que a Ele pertencem podem ter a mesma experiência, quando aprenderem falar ao Pai em seus próprio corações.3
A oração sacerdotal de Jesus desvela o segredo da vida interior: unidade íntima das pessoas divinas e habitação de Deus na alma. Foi, nestas secretas profundezas - no mistério do silêncio - , que a obra da Redenção foi preparada e se realizou. E é desse modo que continuará até que todos estejam reunidos, no final dos tempos. A Redenção foi decidida no silêncio eterno da vida divina. No segredo da silenciosa morada de Nazaré o poder do Espírito Santo cobriu, com sua sombra, a jovem virgem que orava na solidão e operou a Encarnação do Redentor. Reunida em torno da Virgem, orando silenciosamente, a igreja nascente esperou ardentemente a nova efusão do Espírito que lhe havia sido prometido para a vivificar, para lhe dar luz interior e tornar fecunda sua ação.
Na noite de trevas que Deus pôs em seus olhos, Saulo esperou, orando na solidão, a resposta de Deus para sua pergunta, "Senhor, o que queres que eu faça?". Foi também, na prece solitária que Pedro se preparou para sua missão junto aos gentios. Assim, através dos séculos, os acontecimentos visíveis da história-aqueles que renovam a face da terra - são preparados, sempre, no diálogo silencioso que as almas consagrado
3Os limites deste ensaio me impedem de transcrever integralmente a oração sacerdotal de Jesus. Devo pedir ao leitor que a leia no Evangelho de São João, cap. 17. Deus mantêm com o seu Senhor. A Virgem, que guardou em seu coração toda palavra que Deus lhe enviou, é o exemplo das pessoas que escutam e nas quais a oração sacerdotal de Jesus revive. E aquelas que, como ela, se entregam totalmente, esquecendo-se delas mesmas na imitação da vida e paixão de Cristo, são as escolhidas, preferencialmente, por Deus como instrumentos de suas grandes obras na igreja: uma Santa Brígida, uma Catarina de Sena, por exemplo. Quando St. Teresa, a enérgica reformadora de sua Ordem, na época da grande apostasia, quis ajudar a igreja, viu a renovação da autêntica vida interior como o meio para tal fim. Teresa estava muito transtornada pelas notícias do alastramento da apostasia: "...e, como se pudesse ou valesse alguma coisa, chorava como Senhor, suplicando-lhe para remediar tanto mal. Parecia-me que mil vidas daria eu para salvação de uma só alma das muitas que ali se perdiam.. Sendo mulher e ruim, senti-me incapaz de trabalhar como desejava para a glória de Deus. Tendo o Senhor tantos inimigos e tão poucos amigos, toda a minha ânsia era, e ainda é, que ao menos estes fossem bons. Determinei-me então a fazer este pouquinho a meu alcance, que é seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição possível e procurar que estas poucas irmãs aqui enclausuradas fizessem o mesmo. Confiava na grande bondade de Deus.... E, ocupadas todas em oração pelos defensores da Igreja, pregadores e letrados que a sustentam, ajudaríamos, no que estivesse a nosso alcance, a este meu Senhor, tão atribulado por aqueles a quem fizeram tanto bem. Até parece que esses traidores pretendem crucificá-lo e novo..... Ó minhas Irmãs em Cristo! Ajudai-me a suplicar isto ao Senhor, já que para este fim vos reuniu aqui. Esta é a vossa vocação."4
A Teresa parecia necessário fazer: "...como em tempo de guerra, quando o inimigo invade uma região. O soberano, em apuros, se recolhe a uma cidade, que fortifica muito bem. Dali sai para atacar os adversários. Os da cidadela são gente tão escolhida que podem mais, eles sozinhos, que muitos soldados, se estes são covardes. Desta maneira muitas vezes conseguem a vitória..... Mas para que vos digo isto? Para que entendais, minhas irmãs, o que havemos de pedir a Deus. É que neste pequeno castelo, já guarnecido de bons cristãos, nenhum se bandeie para os adversários. Que os comandantes deste castelo ou cidade, isto é, os pregadores e teólogos, se tornem ilustres no caminho do Senhor. Na maior parte eles pertencem às ordens religiosas, suplicai para que avancem na perfeição própria de sua vocação, .... 4Cf. Caminho de perfeição. Cap. 1
Eles são obrigados a viver entre os homens, a tratar com eles, a estar em palácios, e ainda algumas vezes a conformar-se exteriormente com as exigências dos mundanos..... E julgais, minhas filhas, que é preciso pouca virtude para tratar assim com o mundo, e viver no mundo, e se envolver em negócios do mundo, ... e, não obstante, ser no íntimo estranhos ao mundo...; em uma palavra: não ser homens, mas, anjos? Com efeito, se assim não fossem, nem merecem o nome de comandantes, nem permita o Senhor que saiam de suas celas. Fariam mais mal do que bem. Não é tempo agora de se verem imperfeições nos que devem ensinar.... Não é com o mundo que eles têm que negociar? Estejam certos: o mundo nada lhes perdoa, nem deixa de perceber as menores imperfeições. De muitas obras boas, os mundanos não farão caso e talvez nem as tenham nesta conta. Mas faltas ou imperfeições, não há dúvida, nada escapa! Causa-me espanto: quem lhes ensina a perfeição? Não para praticá-la - parece-lhes que disto não têm obrigação e muitos fazem se guardam sofrivelmente os mandamentos senão para tudo condenar e, por vezes, considerar comodismo o que é virtude.
Não penseis, por conseguinte, que seja mister pouco favor de Deus para esses soldados ....precisam de grandíssimo auxílio. Peço-vos, por amor de Deus, rogai a Sua Majestade que nos atenda. Eu, embora indigna, peço-o a sua majestade, pois é para sua glória e bem de sua Igreja que estão dirigidos meus desejos.... Se vossas orações e desejos, disciplinas e jejuns não se empregarem no que deixei indicado, ficai certas de que não realizais nem cumpris o fim para o qual o Senhor vos reuniu aqui".5 O que levou esta religiosa, que consagrou à oração décadas de sua vida na cela de um mosteiro, ao desejo apaixonado de fazer algo para a igreja e à lucidez para discernir as necessidades e demandas do seu tempo? Precisamente o fato de que ela vivia em oração e deixou que o Senhor a conduzisse, mais e mais profundamente, em seu "castelo interior" até que encontrasse àquela morada escura onde ele poderia lhe dizer, "que já era tempo de tomar como seus os interesses divinos. Por sua vez, ele cuidaria dos interesses dela."6 . Foi por isso que ela não pode fazer outra coisa senão "arder de zelo pelo Senhor, o Deus dos exércitos"[zelo zelatus sum pro Domino Deo Exercituum] (palavras de nosso Pai Santo, Elias, que estão presentes, como divisas, no brasão de nossa Ordem). (5O Caminho de perfeição - Essas duas citações são lidas, por nós, todos os anos no mês de setembro. 6 Castelo interior ou Moradas - 7,2,1)
Vida interior, forma exterior e ação
A obra da Redenção se realiza no silêncio e no segredo. No diálogo silencioso do coração com Deus as pedras vivas são preparadas para edificar o Reino de Deus e os instrumentos escolhidos são forjados para servir na sua edificação. O rio místico, que flui por todos os séculos, não é um braço isolado e secundário, separado da vida de oração da Igreja, ele é sua vida mais íntima. Quando este fluxo místico rompe as formas tradicionais, é porque o Espírito que vive nele, este Espírito que sopra para onde quer - ele que suscitou todas as formas antigas - está sempre está suscitando o novo. Sem ele não haveria nenhuma liturgia e nenhuma igreja. Não era a alma do salmista real uma harpa cujas cordas ressoaram sob o sopro suave do Espírito Santo? Do coração transbordante de alegria da virgem Maria, abençoada por Deus, fluiu o exultante hino do "Magnificat". Igualmente, o cântico profético do "Benedictus" abriu os ábios mudos do velho sacerdote Zacarias, quando se tornou realidade visível o que o anjo anunciara secretamente. Pois, o que jorra de um coração repleto do Espírito Santo procura exprimir-se em cânticos e hinos e se transmite de boca em boca. Cabe ao "Ofício Divino", mantê-los sempre vivos, ressoando de geração a geração. É assim que o rio místico forma seu canto de muitas vozes que vai se ampliando, sem cessar, em hinos de louvor ao Deus trino, ao Criador, ao Salvador, àquele que conduz todos à perfeição. Por isso, não faz sentido conceber a oração interior, mais livre, como "piedade subjetiva "em oposição à liturgia que seria a "oração objetiva "da Igreja. Toda oração sincera é oração da Igreja. Pela oração sincera algo acontece na igreja, e é ela própria que a ora, pois é o Espírito Santo, que nela vive, quem intercede por cada alma individual, "com gemidos inexprimíveis". Esta é a "oração verdadeira", pois "ninguém pode dizer, ’Jesus é Senhor’, a não ser pelo Espírito Santo".
O que seria a oração da Igreja se ela não fosse a oferta daqueles ardentes de um grande amor, doando-se ao Deus que é Amor? A doação de si a Deus, por amor e de modo ilimitado, é a mais alta elevação do coração e a resposta divina a esta doação - a união plena e constante - é a mais alta elevação atingível pelo coração, o mais elevado grau da oração. As almas que atingiram tal grau são o verdadeiro coração da igreja: nelas vive o mais alto amor sacerdotal de Jesus. Ocultas em Deus, com Cristo, só podem irradiar a outros corações o amor divino do qual estão plenificadas, participando assim, na perfeição de todos na união com Deus, que foi e é o grande desejo de Jesus. Foi assim que Marie-Antoinette de Geuser compreendeu sua vocação. Ela teve que empreender sua suprema missão de cristã no meio do mundo. Como o fez tem um valor exemplar muito significativo e de encorajamento para aqueles que, numerosos hoje em dia, sentem-se impulsionados para as coisas e causas da Igreja - tornando radicalmente séria sua vida interior-, mas não podem seguir o chamado na solidão de um mosteiro.
A alma que alcançou o mais alto grau da oração mística e, neste mais alto degrau entrou na "calma atividade da vida divina "nada mais pensa senão dar-se inteiramente ao apostolado para o qual Deus a chamou: "É um repouso na ordem e, ao mesmo tempo, atividade livre de todo o constrangimento. A alma administra a luta na paz, porque está agindo inteiramente dentro dos decretos eternos. Ela sabe que a vontade de seu Deus se realiza perfeitamente para sua maior glória, pois, se a vontade humana sempre limita a onipotência divina, esta acaba, ao final, triunfando e criando algo magnífico com o material que lhe restou. Esta vitória do poder divino sobre a liberdade humana, a qual ele permite seja usada como se queira, é um dos aspectos mais maravilhosos e adoráveis do plano de Deus para o mundo....7 Quando Marie-Antoinette de Geuser escreveu esta carta, ela estava próxima ao limiar da eternidade. Só um tênue véu ainda a separava daquela última realização que nós chamamos de vida gloriosa. Para essas almas santificadas que entraram na unidade da vida íntima de Deus, nada se diferencia: o repouso e a atividade, a contemplação e a ação, o silêncio e a fala, a escuta e a comunicação, receber dentro de si, no amor, o dom divino, e retribuir o amor em abundância, na ação de graça e louvor. Como nós ainda estamos a caminho - e tanto mais acentuadamente quanto mais distante é a meta de chegada - permanecemos presos às leis temporais e somos instruídos para tornar efetiva a vida divina em toda sua abundância, em nós mesmos, em cada um e em todos os membros, completando, mutuamente, uns aos outros.
Nós precisamos de tempo para escutar atenta e silenciosamente e permitir que a palavra de Deus aja em nós até que ela nos motive a levar os frutos em um oferecimento de louvor e em um oferecimento de ação. Nós precisamos das formas tradicionais, temos necessidade de participar do serviço divino público para que a vida interior permaneça desperta e sem desvios de modos a expressar-se de maneira apropriada. Deve haver lugares especiais na terra para o louvor solene a Deus, lugares onde este louvor se faça na maior perfeição da qual a humanidade é capaz. De tal lugar tal louvor, em nome da Igreja, pode subir ao céu. Agir sobre todos os seus membros; pode despertar suas vidas interior e estimular a buscar de uma harmonia exterior. Mas ela deve ser vivificada do interior, aqueles lugares, então, devem dispor de espaços onde se possa aprofundar na oração silenciosa. Caso contrário, ela perderá sua natureza própria e não será senão um louvor da boca para fora, rígida e sem vida.8 Uma proteção contra este perigo é oferecida por casas para a oração interior onde as almas se põem diante da face de Deus em solidão e no silêncio, para ser no coração da Igreja o amor que tudo vivifica. 7Maria da Trindade - Cartas de Consumata a uma Carmelita (Carmelo de Avignon, 1930), carta de 27-9-1917. 8"Há uma adoração interior ... adoração no Espírito, que permanece nas profundezas do ser, na sua inteligência e na sua vontade; é a adoração autêntica, adoração principal, sem a qual a adoração exterior fica sem vida."(citação retirada de: "Oh! meu Deus, trindade que eu adoro- Oração da Irmã Elizabeth da Trindade)
Cristo é o caminho que nos conduz à vida Interior e ao coro dos espíritos celestes que cantam o eterno Sanctus. Seu sangue é o véu, pelo qual entramos no Santo dos Santos da vida divina.. No batismo e no sacramento da penitência seu sangue nos purifica do pecado, abre nossos olhos para a luz eterna, abre nossos ouvidos atentos para acolher a palavra de Deus. Abre nossos lábios para cantar seu louvor, para rezar em expiação, em petição e agradecimento. Todas estas orações, sob diferentes formas, são uma só adoração, isto é, a homenagem que a criatura presta a Deus que é onipotente e pura bondade.
No sacramento da confirmação, esse sangue marca e fortalece os soldados do Cristo, para que confesse seu Nome, livre e resolutamente. Porém, acima de todos, está o sacramento no qual o próprio Cristo está presente em pessoa e nos torna membros do seu corpo. Quando participamos da Santa Missa e recebemos a Santa Comunhão, somos nutridos pela carne e sangue de Jesus, tornamo-nos, por esta via, sua própria carne e seu próprio sangue. E porque nos tornamos membros do seu corpo, seu Espírito pode nos vivificar e reinar em nós. "É o Espírito que vivifica, porque é o Espírito que dá vida aos membros. Mas o Espírito só vivifica os membros do seu próprio Corpo... O Cristão não deve temer nada, senão estar separado do Corpo de Cristo. Pois separar-se do seu corpo é deixar de ser um de seus membros, não podendo mais ser vivificado pelo Seu Espírito. ...".9 Tornamo-nos membros do Corpo de Cristo "não somente pelo amor..., mas em toda a realidade, sendo um, unido à sua carne, união que se opera pelo alimento que Ele nos dá, mostrando seu amor por nós. Por isso Ele desceu em nós e fez de nós Seu próprio corpo, para que sejamos um, do mesmo modo que a cabeça é unida ao corpo à cabeça....."10 Como membros de seu Corpo, animados por seu Espírito, nós nos oferecemos em sacrifício "por Ele, com Ele, e n’Ele "e unimos nossas vozes à eterna ação de graças. Então, depois de receber a comida santa, a Igreja nos permite dizer: "Enriquecidos com tão valiosos dons, fazei, Senhor, que os aproveitemos para a salvação, e por eles vos agradeçamos sem cessar"11
9 Santo Agostinho - Tratado 27 sobre o evangelho de São João 10São João Crisóstomo - Homilia
61 ao povo da Antioquia
11 Missal Romano - Oração para depois da comunhão do Primeiro domingo depois de Pentencoste. (Para a tradução utilizei o Missal Romano Quotidiano da Edições Paulinas de 1959. Atualmente esta oração passou para o 14ž domingo do tempo comum.- Nota do tradutor)