Texto que critica neoliberalismo e populismo inclui trecho da letra da música 'Samba da Bênção'
A primeira página do jornal do Vaticano, L'Osservatore Romano mostra o Papa Francisco com sua última encíclica intitulada "Fratelli Tutti" Foto: REMO CASILLI / REUTERS
Ansa e El País
ROMA - Em meio a um forte discurso de apelo social e político, a nova encíclica do Papa Francisco, "Todos Irmãos" ("Fratelli Tutti", no original em italiano), traz uma citação do poeta e compositor brasileiro Vinicius de Moraes (1913-1980).
No sexto capítulo do texto, dedicado ao "diálogo" e à "amizade social", Francisco menciona uma passagem da letra da música "Samba da Bênção": "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida".
Em seguida, Francisco escreve que "várias vezes" já convidou a fazer crescer "uma cultura do encontro que supere as dialéticas que colocam um contra o outro". "É um estilo de vida que tende a formar aquele poliedro que tem muitas faces, muitos lados, mas todos compõem uma unidade rica de matizes, porque o todo é superior à parte", diz o Papa.
A necessidade de diálogo é um dos principais temas da terceira encíclica assinada pelo Papa em quase oito anos de Pontificado. No documento, o Pontífice mergulha na definição de conceitos como populismo e neoliberalismo, rejeitando-os abertamente, e defende uma concepção de mundo com valores próximos aos de um socialismo democrático.
Desde o seu título, a encíclica é dedicada a a São Francisco de Assis, tendo sido publicada no dia do seu nome. Ela foi assinada no sábado no mosteiro onde viveu o monge de quem o Papa tomou o nome após o conclave de 2013. A cerimônia foi sua primeira saída de Roma em sete meses, devido à pandemia.
As ideias políticas que Francisco expõe não são novas, e a maioria faz parte de seus discursos públicos. "Todos Irmãos", basicamente, funciona como uma síntese de seu programa político. O Papa ataca o consumismo, a globalização implacável, o liberalismo econômico, a tirania da propriedade privada sobre o direito aos bens comuns, a falta de empatia com os imigrantes e até o controle que as empresas digitais exercem sobre a população e a informação.
O neoliberalismo e as formas menos compassivas de capitalismo são mais uma vez objeto de críticas abertas na proposta política detalhada pelo Papa. Há também críticas à falta de aprendizado após a última crise econômica, que não serviram para que a "atividade financeira especulativa e a riqueza fictícia" fossem regulamentadas. “O mercado sozinho não resolve tudo, embora mais uma vez eles queiram que acreditemos neste dogma da fé neoliberal. É um pensamento pobre e repetitivo, que sempre propõe as mesmas receitas diante de qualquer desafio que surja ”, afirma. “Existem regras econômicas que foram eficazes para o crescimento, mas não para o desenvolvimento humano integral”, insiste o texto.
"Todos Irmãos", cujo título foi criticado antes de sua publicação por associações de mulheres cristãs por se referir somente a metade dos fiéis, começou a ser escrita durante a pandemia. O Papa inspirou-se, em parte, nas desigualdades e falhas do sistema que o período pandêmico explicitava, ele explica numa introdução pessoal.
“Além das várias respostas dadas pelos diferentes países, ficou evidente a incapacidade de agir em conjunto. Apesar de estar hiperconectado, houve uma fragmentação que dificultava a solução dos problemas que afetam a todos. [...] O mundo avançava implacavelmente para uma economia que, com os avanços tecnológicos, buscava reduzir os 'custos humanos', e alguns querem que acreditemos que mercados livres bastam para que tudo esteja garantido. Mas o duro e inesperado golpe desta pandemia descontrolada obrigou-nos pela força a pensar de novo no ser humano, em todos, mais do que em benefício de alguns ”.
Radicalmente social, o postulado revisita ensinamentos de São Francisco de Assis em um mundo em crise, mas não encontrou apoio claro em uma Igreja profundamente dividida durante esses anos. A tentativa de construir pontes entre mundos diferentes — também em ambientes leigos e não católicos, onde às vezes é mais bem recebida — tem sido arriscada e muitas vezes malsucedida. A encíclica fornece alguns elementos para melhor compreender seu roteiro de todos esses anos.
Francisco defende o direito às migrações e cobra uma reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) e do sistema financeiro mundial. Além de Vinicius, Francisco também cita Martin Luther King, Desmond Tutu e Mahatma Mohandas Gandhi. Anteriormente, o argentino já havia publicado as encíclicas "Lumen Fidei" ("Luz da Fé"), iniciada por Bento XVI, e "Laudato Si'" ("Louvado Sejas"), a primeira na história da Igreja Católica dedicada à ecologia. Fonte: https://oglobo.globo.com