"Francisco está mais sozinho, de uma solidão institucional: as pessoas que estão em Roma certamente são leais e próximas - eu diria pelo menos seis - podem confortar o peso existencial que ela gera, mas não a anular; e podem apenas olhar para o círculo dos velhos abutres. Mas não é mais aquele de 1960. Os abutres de hoje não são velhos", escreve Alberto Melloni, historiador italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII de Bolonha, em artigo publicado por La Repubblica, 03-12-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

"A Roma que você conhece e da qual foi exilado não mostra sinais de mudança, como se imaginava que deveria ser no fim. O círculo dos velhos abutres, após o primeiro susto, retorna. Lentamente, mas retorna. E retorna com sede de novos tormentos, de novas vinganças." Assim, Dom De Luca escrevia ao cardeal Montini, em julho de 1960: e lia com o devido fatalismo o conflito entre a paciência mortal da cúria mais integralista e a primavera conciliar. Um conflito que havia favorecido a "recomposição" de um círculo antes fragmentado. Trata-se de um pensamento, este de 1960, que se adapta a essa fase em que o pontificado está entrando em um momento de solidão institucional.

O Papa, como todos sabem, fala que o tempo é superior ao espaço, os processos superiores às normas; e, portanto, não fez normas nem acelerou (com a única exceção do Secretário de Estado) a mudança de pessoas nas funções mais altas: com o resultado de que é ele mesmo que precisa cuidar de muitas coisas. A descrição do último escândalo financeiro que o papa forneceu aos jornalistas no avião que durante o retorno do Japão foi exemplar e comovente sob esse ponto de vista: o Papa mais evangélico de todos os tempos que deve bancar o "Papa-rei", fazer funcionar em seus pequenos domínios justiça e polícia, deve pedir demais, deve autorizar muitos e em demasia, e com isso perde os seus. E, portanto, é cercado por uma solidão não psicológica (esta, a um jesuíta, não incomoda em nada), mas uma solidão institucional, gerada após o incurável conflito político entre o secretário de Estado Parolin e o vice Becciu, foi resolvida tirando a Becciu seu escritório, mas dando a ele um título de cardeal.

solidão institucional do Papa se revelou em uma sequência de sinais que marcam sua vastidão. Primeiro sinal, em março de 2018, a demissão de Dom Dario Viganò: atraído para a armadilha por uma carta assinada Ratzinger: em seu lugar foi uma pessoa de valor como Paolo Ruffini, mas o sinal havia sido dado. Depois foi a vez, em dezembro de 2018, de D. Zanchetta, amigo do Papa e em função na APSA, atingido por acusações de assédio sexual, que chegaram imediatamente após o início das investigações sobre o caso de Londres. Depois, em outubro passado, pediu demissão, com o senso de dever e honra de um grande militar, Domenico Giani, o comandante da Gendarmaria: foi parado enquanto estava trabalhando, o que era um sinal. Finalmente, em 1º de dezembro, o padre Fabian Pedacchio deixou a função de secretário do papa: cargo invisível, mas decisivo para regular voz o acesso ao pontífice.

Sinais casuais? Até poderiam ser: mas não são casuais os efeitos que recaem todos sobre o Papa. Francisco está cada vez mais sem voz: basta pensar na condenação da posse de armas atômicas proferida do Japão, cujo peso geopolítico foi imenso e cujo eco foi nulo.

Francisco está mais vulnerável: porque os procedimentos de controle típicos dos Estados não impedem as operações opacas, nem as fotocopiadoras de investidores decepcionados, nem as tipografias que lembram os anos de Pecorelli.

Francisco está mais sozinho, de uma solidão institucional: as pessoas que estão em Roma certamente são leais e próximas - eu diria pelo menos seis - podem confortar o peso existencial que ela gera, mas não a anular; e podem apenas olhar para o círculo dos velhos abutres. Mas não é mais aquele de 1960. Os abutres de hoje não são velhos. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br