Não falta dinheiro, mas uma rotina de cuidado com as relíquias históricas e com a segurança dos turistas

 

O interior da Igreja da Ordem Primeira de São Francisco, em Salvador, onde teto desabou — Foto: Defesa Civil de Salvador/05-02-2025

 

O desabamento do teto da Igreja da Ordem Primeira de São Francisco, no Centro Histórico de Salvador, mostra o descaso com que o Brasil trata os turistas e o patrimônio histórico. A tragédia matou uma jovem de 26 anos, feriu cinco visitantes e destruiu uma relíquia do barroco brasileiro. Era notória a precariedade do templo, conhecido como Igreja de Ouro e considerado uma das sete maravilhas de origem portuguesa no mundo.

Dois dias antes da tragédia, o frei Pedro Júnior Freitas da Silva, guardião-diretor da igreja, alertara o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sobre a dilatação no teto e pedira vistoria. A inspeção estava prevista para esta quinta-feira, mas o desabamento não esperou os trâmites burocráticos. A fissura no teto era só uma das muitas carências da igreja. Em 2023, reportagem do portal g1 revelou o estado do edifício. Havia pilastras sem reboco, piso desnivelado, fiação exposta e, em alguns lugares do complexo religioso, o teto estava escorado em ripas de madeira. Um dos pátios fora parcialmente interditado devido ao risco de queda de um pináculo, depois removido.

Como é costume nas tragédias nacionais, consumado o desabamento, iniciou-se um jogo de empurra sobre a responsabilidade. O Iphan informou que vistorias não acontecem todo dia, mas apenas quando é detectado um problema. Alegou que o pedido foi feito pelo protocolo normal, sem urgência. Para situações de emergência, disse o instituto, a igreja deveria ter procurado a Defesa Civil ou o Corpo de Bombeiros. A Defesa Civil de Salvador argumentou que, embora tivesse conhecimento do comprometimento de algumas partes da estrutura, não havia risco de desabamento, por isso o prédio não foi interditado. E o Corpo de Bombeiros se disse surpreso.

O acidente expõe o pouco-caso com o patrimônio nacional. Na prática, não existe rotina de cuidado com relíquias como a Igreja de Ouro, construída entre os séculos XVII e XVIII e tombada pelo Iphan desde os anos 1930. Quando acontece uma tragédia, todos se eximem de responsabilidade. A queda do teto está longe de ser caso isolado. A preservação de edifícios históricos deixa a desejar em todo o Brasil. Em 2018, um incêndio destruiu o Museu Nacional, no Rio, incinerando um acervo de valor inestimável — o museu não tinha proteção contra fogo. O patrimônio da Bahia, diz Luiz Alberto de Freire, da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), está “seriamente comprometido” com a falta de manutenção. Ele cita como exemplo o Convento de Santa Teresa, de 1686, sede do Museu de Arte Sacra da UFBA.

Tão importante quanto investigar o desabamento e punir os responsáveis pela morte da jovem é evitar que ocorram casos semelhantes. É preciso identificar as construções que correm maior risco e recuperá-las, antes que desabem ou sejam destruídas por incêndios. Compreende-se que prédios erguidos séculos atrás acumulem problemas estruturais, mas outros países mantêm conservadas construções muito mais antigas.

Não se pode dizer que faltem recursos. No fim do ano passado, o governo reservou R$ 1,77 bilhão para emendas parlamentares de comissão (de um total de R$ 4,2 bilhões bloqueados pelo STF). O Ministério do Turismo ficou com o maior quinhão: R$ 441 milhões. Quanto dessa bolada foi destinado ao restauro ou à preservação do patrimônio? Fonte: https://oglobo.globo.com