Neste mês da mulher, não há o que comemorar, pois a realidade nos mostra a cada dia que ainda não estamos seguras
Por Mara Gabrilli
Março deveria ser um mês de conquistas para nós, mulheres. Um mês de reconhecimento pelas lutas travadas e pelos direitos conquistados. Mas como celebrar, quando a realidade nos mostra, a cada dia, que ainda não estamos seguras?
Enquanto escrevo este artigo, muitas mulheres estão sendo violentadas ou assassinadas em nosso país. No ano passado, 1.463 mulheres perderam a vida apenas pelo fato de serem mulheres. A violência sexual vitimou 74 mil meninas e mulheres.
Outras 245 mil sofreram agressões. Um número que sabemos ser bem maior, pois muitas não têm coragem de denunciar. São dados brutais, que escancaram a barbárie que ainda enfrentamos.
A violência contra as mulheres começa muito antes do feminicídio. Ela se enraíza nas palavras que nos desvalorizam, nos olhares que nos diminuem, na ideia de que nosso valor está na aparência, e não na nossa capacidade. E, quando o próprio presidente da República reforça esse pensamento retrógrado em rede nacional, ficamos ainda mais vulneráveis.
Ao dizer que escolheu uma mulher “bonita” para melhorar a articulação política do governo, Lula passa uma mensagem clara: para ocupar um espaço de poder, uma mulher precisa ser um objeto de sedução, não uma liderança.
A fala do presidente não é apenas infeliz. Ela normaliza o machismo estrutural que nos silencia e, no extremo, nos mata. Que faz com que meninas sejam estupradas e responsabilizadas pela violência que sofreram. E faz com que mulheres assassinadas tenham sua honra questionada.
Apenas uma semana antes de o presidente fazer esse comentário, a menina Vitória Regina de Sousa, de apenas 17 anos, foi encontrada morta, nua, com sinais de tortura. Teve a cabeça raspada, como se sua dignidade pudesse ser apagada junto com seu cabelo. Morreu sozinha, depois de sair do trabalho, apenas por ser mulher.
A violência que nos atinge pode ser física, psicológica, institucional. Pode estar nas agressões que não deixam marcas visíveis, mas destroem nossa liberdade. Pode estar nas piadas, nos questionamentos sobre nossa competência, na desconfiança que nos cerca. Está em sermos chamadas de loucas e histéricas quando exigimos respeito.
Está, também, no que aconteceu com Mariana Ferrer, que aos 21 anos, depois de ter sido estuprada e denunciar seu agressor, foi humilhada e desacreditada no tribunal. A Justiça que deveria protegê-la falhou. E quantas outras mulheres, anônimas, não passam pela mesma situação? Quantas são forçadas a reviver sua dor diante de um sistema que, em vez de acolher, acusa a vítima e protege o agressor?
E está, ainda, no que aconteceu com Ingrid Guimarães, retirada de seu assento num avião para dar lugar a outro passageiro apenas por ser uma mulher viajando sozinha. Sim, esse foi o critério usado pela companhia aérea para que ela saísse de sua poltrona. Ingrid foi exposta, humilhada, constrangida. Um episódio que pode parecer menor, mas que revela o mesmo padrão: mulheres ainda precisam justificar sua existência em espaços públicos. Precisam provar que não estão erradas apenas por ocuparem o mundo.
E para as mulheres com deficiência, como eu, a realidade é ainda mais brutal. Quatro em cada dez já sofreram abuso. Muitas não denunciam porque dependem do próprio agressor. Outras desaparecem dentro de um sistema que insiste em ignorá-las.
Eu sei o que é ficar silenciada. Quando sofri o acidente que me deixou tetraplégica, não apenas perdi os movimentos, mas também a capacidade de respirar e de falar. Meu corpo estava imobilizado, minha voz calada, minha vida à mercê dos outros. Ainda dentro da ambulância, incapaz de me mover, fui vítima de uma tentativa de abuso. Vulnerável, indefesa, refém da minha própria condição. Mas sobrevivi. E resgatei o que é mais valioso para mim: minha voz.
Foi com ela que denunciei. Foi com ela que lutei. Foi com ela que construí minha trajetória na política. Por saber a força de uma voz que se recusa a ser silenciada, não aceito que nos diminuam e nos tratem como objetos. Hoje, minha voz ecoa para todas aquelas que ainda não conseguem gritar por socorro.
É inadmissível que, diante desse cenário, Lula se cale sobre a violência contra as mulheres. Um presidente deveria se comprometer com o fim dessa violência. Deveria reafirmar a importância das mulheres em espaços de liderança pelo que pensam, fazem e transformam. Não pelo que aparentam.
Mas, ao invés disso, ele ignora. Finge que não vê. Age como se de nada soubesse. A mesma atitude de sempre, quando o assunto é responsabilidade. Quando questionado, prefere a negação conveniente, o silêncio estratégico e dissimulado.
No entanto, mais uma vez, ouvimos uma fala que nos coloca no lugar em que há séculos tentam nos manter. Não há nada de ingênuo nisso. Palavras têm peso. Palavras legitimam. Palavras matam.
Neste mês da mulher não há o que comemorar. Há apenas luto, indignação e luta. Fonte: https://www.estadao.com.br